sexta-feira, 15 de maio de 2026

Flávio Bolsonaro, o candidato Ypê, por Pablo Ortellado

O Globo

A explicação não colou muito — ainda —, mas acredito que seja apenas questão de tempo

A quarta-feira foi marcada pelo terremoto da revelação do áudio em que Flávio Bolsonaro pede dinheiro a Daniel Vorcaro para realizar um filme sobre o pai. Em tempos normais, uma revelação dessa magnitude teria o poder de destruir uma candidatura presidencial. Um candidato recebe dezenas de milhões de um banqueiro que fraudou o sistema financeiro e corrompeu todo o sistema político brasileiro. Seria devastador.

Mas não vivemos tempos normais. Vivemos tempos em que uma fiscalização da Anvisa encontra contaminação em produtos domésticos de limpeza e gera uma reação de solidariedade porque os proprietários da empresa são bolsonaristas — e uma fiscalização que autua a empresa só poderia ser perseguição política.

Flávio Bolsonaro reagiu à divulgação do áudio observando, com grande tranquilidade, que seu pedido não tinha nada demais, consistia apenas num pedido de financiamento privado a um filme. A explicação não colou muito — ainda —,mas acredito que seja apenas questão de tempo. Hoje, toda a nossa percepção do mundo está distorcida por identidades políticas hipertrofiadas, até os índices de percepção econômica antes usados pelos bancos centrais como termômetro das atividades econômicas.

O Índice de Sentimento do Consumidor da Universidade de Michigan é uma das medidas mais respeitadas de percepção econômica nos Estados Unidos. Mensalmente, uma amostra nacional de consumidores responde a cinco perguntas que medem a confiança do consumidor, uma combinação de percepção da situação econômica recente com expectativa futura. A partir de março de 2023, os pesquisadores da universidade começaram a recolher, além dos dados de percepção, a identidade política dos entrevistados. Descobriram que a percepção econômica está fortemente moldada (e distorcida) pela identidade política.

No gráfico abaixo é possível ver que, entre os democratas, o índice caiu de 88, em novembro de 2024, para 52 em março de 2025, depois da eleição de Donald Trump. Entre os republicanos, aconteceu o oposto: o índice cresceu de 57, em novembro de 2024, para 87 em março de 2025. Vale observar que não houve nenhuma mudança econômica significativa no intervalo. A mera eleição de Trump fez seus eleitores melhorarem de percepção econômica e os eleitores da candidata adversária piorarem.

Aqui no Brasil, Felipe Nunes e Thomas Traumann observaram o mesmo fato no livro “Biografia do abismo”. Em outubro de 2022, no final do governo Bolsonaro, 65% dos eleitores de Lula diziam que a economia brasileira tinha piorado no último ano, enquanto apenas 11% dos eleitores de Bolsonaro achavam a economia pior. Com a eleição de Lula, o quadro se inverteu. Em abril de 2023, sem que nenhuma mudança econômica relevante tivesse acontecido, apenas 20% dos eleitores de Lula passaram a dizer que a economia havia piorado, enquanto entre os eleitores de Bolsonaro o índice subiu para 49%.

Se até a percepção econômica está distorcida a esse ponto, dificilmente o juízo sobre a licitude ou razoabilidade da interação com um empresário será objetivo — basta lembrarmos o que aconteceu no petrolão.

Apostei com meu amigo Waldomiro José da Silva Filho que, em dois meses, a candidatura de Flávio Bolsonaro terá assimilado o baque e seguirá competitiva contra Lula. Não é desejo meu, é a constatação de como as coisas funcionam hoje no universo da política.

 

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