domingo, 10 de maio de 2026

Fuzil de olhos verdes, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Carmen Miranda serviu, sim, à Política da Boa Vizinhança. Ela e dezenas de astros americanos

Ao se apresentar para os soldados nos quartéis, ela era o Brasil lutando pela causa da liberdade

Em coluna recente (22/4), tentei desmentir a história repetida à exaustão de que Carmen Miranda foi para os EUA em 1939 nas asas da Política da Boa Vizinhança, uma arma americana na Segunda Guerra. Demonstrei que, naquele ano, a famigerada política ainda não estava em operação, que os EUA sequer tinham entrado na guerra (o que só aconteceria em dezembro de 1941) e que a guerra nem mesmo começara. Carmen foi contratada por seu talento e pelo dinheiro que renderia para o megaempresário dos teatros, Lee Shubert. A Broadway, então uma operação doméstica, exclusivamente nova-iorquina, não tinha o menor interesse pela guerra.

Um leitor observou que, depois, Carmen foi usada por Hollywood em filmes para agradar ao mercado latino-americano. Isto, sim, é verdade. Carmen foi a estrela dos filmes produzidos pela 20th Century-Fox em cenários "exóticos", como "Serenata Tropical" (1940), "Uma Noite no Rio" (1941), "Aconteceu em Havana" (1941), "Minha Secretária Brasileira" (1942) e o sensacional "Entre a Loura e a Morena" (1943).

E, assim como ela, seus colegas americanos naqueles filmes: Betty Grable, Alice Faye, Don Ameche, John Payne, Harry James, Benny Goodman. Todos superestelares, e nenhum deles perdeu pontos por "trabalhar para a Política da Boa Vizinhança". Foi o que eles fizeram, assim como Walt Disney, Orson Welles, Bing Crosby, o compositor Aaron Copland, o maestro Leopold Stokowski. Muitos até interromperam suas carreiras para lutar pelos EUA na Europa: Clark Gable, James Stewart, Tyrone Power, Henry Fonda, William Holden. Frank Sinatra não pôde ir —tinha um tímpano perfurado e podia não escutar o canhão.

Ao trabalhar naqueles filmes e se apresentar para soldados nos quartéis do país, Carmen era só mais uma artista a lutar pela causa dos Aliados. Suas armas eram o jeito esfuziante de cantar e dançar e de fuzilar com seus olhos verdes as últimas filas da plateia nos acampamentos.

E, quando fazia isto, todos sabiam que, ali, ela era o Brasil, ao lado dos que lutavam pela liberdade.

 

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