Folha de S. Paulo
No Brasil, cerveja não é considerada bebida
alcoólica e está nas telas e ruas 24 horas por dia
Na Copa do Mundo, ela se tornará uma razão de
viver como se fosse impossível torcer sem beber
Os jornais andam cheios de manchetes como estas: "Em queda no mundo, consumo de álcool entre jovens prevalece no Brasil"; "Família influencia uso de álcool por adolescentes"; "Adolescentes que bebem têm livre acesso ao álcool no país"; muitas mais. Por álcool, leia-se cerveja, a bebida a que, pela monstruosa oferta e pelo alcance de seus bolsos, os adolescentes têm mais acesso. Não satisfeitos, os fabricantes se garantem para o futuro. Segundo li, estão infiltrando toques de conteúdo em seus comerciais a fim de tornar a cerveja atraente para a turma dos sub-10, para garanti-los como clientes quando tiverem idade de pedi-la no botequim —ou seja, muito antes dos 18.
O Brasil tem um conceito
próprio sobre bebidas alcoólicas. Elas incluem tudo que não seja
cerveja. É proibido anunciar uísques, vodcas, cachaças, conhaques e licores em
qualquer veículo, mas é como se cerveja não contivesse álcool. Sua propaganda
toma as telas e ruas 24 horas do dia, sendo que, na Copa do Mundo,
no Carnaval e
no Réveillon,
ela se torna a razão de viver do cidadão —não bebê-la equivale a ser um monge
careta em retiro espiritual.
"Agora você investe no seu clube
assim", diz Ronaldo
Fenômeno num cínico comercial, e abre uma lata de cerveja. Em
cena, seus espectadores, perplexos pela complexidade da proposta, perguntam:
"Assim???", e, incrédulos, abrem suas latas. Fenômeno, eufórico,
confirma: "Assim!". Abre mais latas e explica: "Peça a cerveja
‘xis’ pelo delivery ‘ípsilon’ e parte do valor vai para o seu time!". E,
contrafeito, conclui: "Beba com moderação".
Embora não beba há 38 anos —e, quando bebia,
adepto de uísque e vodca, só tomava cerveja para fins urinários—, pensei em
aderir ao projeto para ajudar o Flamengo.
Mas fui checar em que pé estava o investimento em cada clube e descobri que o
Flamengo, disparado em primeiro lugar, já está em mais do dobro que o segundo
colocado. Posso me dispensar da recaída.
Daí que, com a sabedoria dos sóbrios, eu
recomendaria aos jovens: "Invistam com moderação".

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