Valor Econômico
Presidente lança amanhã programa na área e
empodera ministro Lima e Silva, criticado pelo PT
Sob pressão das pesquisas, o presidente Luiz
Inácio Lula da Silva, pré-candidato à reeleição, tenta virar o jogo na pauta da
segurança pública, com o lançamento de um programa de combate ao crime
organizado e ampliando agendas e declarações relacionadas ao tema. Ao mesmo
tempo, ele renova a aposta no ministro da Justiça e Segurança Pública,
Wellington César Lima e Silva, que entrou na linha de tiro dos petistas e, após
quatro meses no cargo, ainda não decolou.
A cinco meses do pleito, em uma reação que pode ser tardia, Lula tenta melhorar a avaliação do governo em uma área que aparece nas pesquisas como a principal preocupação dos brasileiros, e na qual a direita tem sido hegemônica. A mais recente pesquisa Genial/Quaest, divulgada em abril, mostrou que a violência é considerada o principal problema do país para 27% dos entrevistados, seguida da corrupção, citada em 19% das menções, e das questões sociais, para 16% da população.
Na mesma Quaest, na rodada de novembro, a
sensação de insegurança foi lembrada como maior preocupação por 38% dos
brasileiros. O temor com a violência se acentuou naquele mês na esteira da
operação policial mais letal da história do Rio de Janeiro, nos complexos da
Penha e do Alemão, que culminou na morte de mais de 120 pessoas, e ganhou
destaque na mídia.
Nas pesquisas qualitativas, a população
expressa uma permanente sensação de insegurança, desde o receio de roubo do
celular até o cotidiano sob o cerco das facções e das milícias, que avançaram
para cidades médias do interior do país.
É nessa conjuntura que, na terça-feira (12),
Lula e o ministro da Justiça anunciam o novo programa de combate ao crime
organizado. O pano de fundo desse anúncio é a decisão do presidente de
preservar o auxiliar, apadrinhado do líder do governo no Senado, Jaques Wagner
(PT-BA), e do ex-ministro da Casa Civil Rui Costa, diante de setores que
defendiam que ele fosse substituído pelo titular da Advocacia-Geral da União
(AGU), Jorge Messias, após o Senado barrar a indicação dele ao Supremo Tribunal
Federal (STF).
Fontes do PT e do entorno lulista confirmaram
ao Valor o
descontentamento com o titular do MJSP, bem como a defesa para que Messias
ocupasse o lugar dele. Vários fatores, contudo, enterraram a proposta. Em
primeiro lugar, o titular da AGU não deu sinais de que aceitaria a empreitada.
Se ele não deixar o governo - desejo que manifestou ao presidente -, a
tendência é permanecer onde está.
Ao mesmo tempo, um petista argumentou que
colocar Messias na Justiça seria jogar gasolina no fogo, ou seja, nomear para o
comando da Polícia Federal (PF) alguém que foi rejeitado pelo Senado, em um
cenário em que deputados e senadores aparecem envolvidos, direta ou
indiretamente, no escândalo do Banco Master, investigado pela instituição.
“Seria implodir todas as pontes com o Congresso”, comentou.
Nos bastidores, petistas e aliados reclamavam
da inexpressividade de Lima e Silva, que após aparições consideradas
desastradas na mídia, acabou submergindo. Empossado em janeiro, em substituição
ao ex-ministro Ricardo Lewandowski, ele assumiu com a missão de jogar luz sobre
as ações do governo na segurança e no combate à corrupção.
Wellington César Lima e Silva, há quatro
meses à frente do MJSP, ainda não decolou
Os primeiros movimentos, entretanto,
frustraram aliados. Em fevereiro, na articulação para a aprovação do projeto de
lei antifacção, ele foi acusado de ceder em pontos cruciais nas discussões
sobre o financiamento da área de segurança pública.
No mesmo mês, já na negociação para a votação
da proposta de emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública, foi criticado
por não se opor à ideia da oposição de uma consulta popular sobre a redução da
maioridade penal. Ele disse que isso não seria “algo imediato”, e que a
discussão do assunto na sociedade brasileira “é uma ideia legítima e bem
orientada”, o que motivou uma nota de repúdio da bancada do PT na Câmara dos
Deputados.
Um interlocutor de Lula acrescentou que o
presidente em momento nenhum cogitou afastar Lima e Silva, nem para nomear
Messias, muito menos para empossar alguém de fora do governo, na reta final do
mandato. Segundo essa fonte, o movimento de alguns petistas ficou longe de se
concretizar.
No periodo de submersão, Lima e Silva
dedicou-se a estruturar o novo programa de segurança pública, que foi
encomendado por Lula. Ao mesmo tempo, o presidente decidiu empoderar o
auxiliar. No gesto mais evidente, ele foi incluído na reduzida comitiva da
viagem aos Estados Unidos, para a reunião bilateral com o presidente Donald
Trump.
Nos bastidores, um interlocutor de Lima e
Silva admitiu ao Valor que
o ministro enfrentou revezes nos primeiros meses no cargo, mas assegurou que
essa fase foi superada. Segundo ele, o ministro estará mais presente na
demonstração do trabalho que já se faz no combate à criminalidade, e que muitas
vezes “fica pulverizado na divulgação”. Acrescentou que “essas ações serão
fortalecidas no plano de combate ao crime organizado” a ser lançado.
Enquanto revigora o ministro da Justiça, Lula
age para capitalizar o momento favorável para a pauta. Petistas citam um “golpe
de sorte” que a agenda com Trump, considerada bem-sucedida, tenha coincidido
com a nova fase da operação da PF que investiga as fraudes do Banco Master, que
atingiu, desta vez, o senador Ciro Nogueira (PP-PI), um dos caciques do
Centrão, e aliado da família Bolsonaro. Em nota, Ciro afirmou que tentam
manchar sua honra pessoal, que é vítima de perseguição política, e se declarou
inocente.
Sob ataques da oposição, que acusa o governo
de leniência na segurança pública, e até de proteger os bandidos, Lula
considera um trunfo a agenda com o presidente americano, que contemplou o
reforço da parceria entre Brasil e Estados Unidos no combate aos crimes
transnacionais, com foco nas ações das alfândegas dos dois países, e contra a
lavagem de dinheiro.
Outro desafio é vencer a disputa de narrativa
com a oposição sobre o escândalo do Master, com estratégias como a hashtag
“BolsoMaster” nas redes sociais. Pesquisas mostram que brasileiros veem envolvimento
de Lula com o Master, porque o esquema é associado ao “sistema”, que abrange
Executivo, Congresso e STF, ao mesmo tempo em que não associam o trabalho da PF
ao governo federal. O presidente terá que se descolar dessa associação para
conseguir capitalizar as ações da corporação no combate à corrupção e ao crime
organizado.

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