segunda-feira, 11 de maio de 2026

Lula busca avanço na segurança, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Presidente lança amanhã programa na área e empodera ministro Lima e Silva, criticado pelo PT

Sob pressão das pesquisas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pré-candidato à reeleição, tenta virar o jogo na pauta da segurança pública, com o lançamento de um programa de combate ao crime organizado e ampliando agendas e declarações relacionadas ao tema. Ao mesmo tempo, ele renova a aposta no ministro da Justiça e Segurança Pública, Wellington César Lima e Silva, que entrou na linha de tiro dos petistas e, após quatro meses no cargo, ainda não decolou.

A cinco meses do pleito, em uma reação que pode ser tardia, Lula tenta melhorar a avaliação do governo em uma área que aparece nas pesquisas como a principal preocupação dos brasileiros, e na qual a direita tem sido hegemônica. A mais recente pesquisa Genial/Quaest, divulgada em abril, mostrou que a violência é considerada o principal problema do país para 27% dos entrevistados, seguida da corrupção, citada em 19% das menções, e das questões sociais, para 16% da população.

Na mesma Quaest, na rodada de novembro, a sensação de insegurança foi lembrada como maior preocupação por 38% dos brasileiros. O temor com a violência se acentuou naquele mês na esteira da operação policial mais letal da história do Rio de Janeiro, nos complexos da Penha e do Alemão, que culminou na morte de mais de 120 pessoas, e ganhou destaque na mídia.

Nas pesquisas qualitativas, a população expressa uma permanente sensação de insegurança, desde o receio de roubo do celular até o cotidiano sob o cerco das facções e das milícias, que avançaram para cidades médias do interior do país.

É nessa conjuntura que, na terça-feira (12), Lula e o ministro da Justiça anunciam o novo programa de combate ao crime organizado. O pano de fundo desse anúncio é a decisão do presidente de preservar o auxiliar, apadrinhado do líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), e do ex-ministro da Casa Civil Rui Costa, diante de setores que defendiam que ele fosse substituído pelo titular da Advocacia-Geral da União (AGU), Jorge Messias, após o Senado barrar a indicação dele ao Supremo Tribunal Federal (STF).

Fontes do PT e do entorno lulista confirmaram ao Valor o descontentamento com o titular do MJSP, bem como a defesa para que Messias ocupasse o lugar dele. Vários fatores, contudo, enterraram a proposta. Em primeiro lugar, o titular da AGU não deu sinais de que aceitaria a empreitada. Se ele não deixar o governo - desejo que manifestou ao presidente -, a tendência é permanecer onde está.

Ao mesmo tempo, um petista argumentou que colocar Messias na Justiça seria jogar gasolina no fogo, ou seja, nomear para o comando da Polícia Federal (PF) alguém que foi rejeitado pelo Senado, em um cenário em que deputados e senadores aparecem envolvidos, direta ou indiretamente, no escândalo do Banco Master, investigado pela instituição. “Seria implodir todas as pontes com o Congresso”, comentou.

Nos bastidores, petistas e aliados reclamavam da inexpressividade de Lima e Silva, que após aparições consideradas desastradas na mídia, acabou submergindo. Empossado em janeiro, em substituição ao ex-ministro Ricardo Lewandowski, ele assumiu com a missão de jogar luz sobre as ações do governo na segurança e no combate à corrupção.

Wellington César Lima e Silva, há quatro meses à frente do MJSP, ainda não decolou

Os primeiros movimentos, entretanto, frustraram aliados. Em fevereiro, na articulação para a aprovação do projeto de lei antifacção, ele foi acusado de ceder em pontos cruciais nas discussões sobre o financiamento da área de segurança pública.

No mesmo mês, já na negociação para a votação da proposta de emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública, foi criticado por não se opor à ideia da oposição de uma consulta popular sobre a redução da maioridade penal. Ele disse que isso não seria “algo imediato”, e que a discussão do assunto na sociedade brasileira “é uma ideia legítima e bem orientada”, o que motivou uma nota de repúdio da bancada do PT na Câmara dos Deputados.

Um interlocutor de Lula acrescentou que o presidente em momento nenhum cogitou afastar Lima e Silva, nem para nomear Messias, muito menos para empossar alguém de fora do governo, na reta final do mandato. Segundo essa fonte, o movimento de alguns petistas ficou longe de se concretizar.

No periodo de submersão, Lima e Silva dedicou-se a estruturar o novo programa de segurança pública, que foi encomendado por Lula. Ao mesmo tempo, o presidente decidiu empoderar o auxiliar. No gesto mais evidente, ele foi incluído na reduzida comitiva da viagem aos Estados Unidos, para a reunião bilateral com o presidente Donald Trump.

Nos bastidores, um interlocutor de Lima e Silva admitiu ao Valor que o ministro enfrentou revezes nos primeiros meses no cargo, mas assegurou que essa fase foi superada. Segundo ele, o ministro estará mais presente na demonstração do trabalho que já se faz no combate à criminalidade, e que muitas vezes “fica pulverizado na divulgação”. Acrescentou que “essas ações serão fortalecidas no plano de combate ao crime organizado” a ser lançado.

Enquanto revigora o ministro da Justiça, Lula age para capitalizar o momento favorável para a pauta. Petistas citam um “golpe de sorte” que a agenda com Trump, considerada bem-sucedida, tenha coincidido com a nova fase da operação da PF que investiga as fraudes do Banco Master, que atingiu, desta vez, o senador Ciro Nogueira (PP-PI), um dos caciques do Centrão, e aliado da família Bolsonaro. Em nota, Ciro afirmou que tentam manchar sua honra pessoal, que é vítima de perseguição política, e se declarou inocente.

Sob ataques da oposição, que acusa o governo de leniência na segurança pública, e até de proteger os bandidos, Lula considera um trunfo a agenda com o presidente americano, que contemplou o reforço da parceria entre Brasil e Estados Unidos no combate aos crimes transnacionais, com foco nas ações das alfândegas dos dois países, e contra a lavagem de dinheiro.

Outro desafio é vencer a disputa de narrativa com a oposição sobre o escândalo do Master, com estratégias como a hashtag “BolsoMaster” nas redes sociais. Pesquisas mostram que brasileiros veem envolvimento de Lula com o Master, porque o esquema é associado ao “sistema”, que abrange Executivo, Congresso e STF, ao mesmo tempo em que não associam o trabalho da PF ao governo federal. O presidente terá que se descolar dessa associação para conseguir capitalizar as ações da corporação no combate à corrupção e ao crime organizado.

 

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