O Globo
A campanha para a reeleição do presidente
Luiz Inácio Lula da Silva vai dobrar à esquerda. A estratégia de comunicação
para dar a Lula um inédito quarto mandato será reforçar o atual slogan oficial,
“um governo ao lado do povo brasileiro”, com um discurso que ataque “os
privilégios dos super-ricos”. Será uma tentativa de demarcar para si o
território da defesa dos interesses populares e nacionalistas, incorporando o
antielitismo como eixo do futuro governo.
Esqueça o “Lulinha, paz e amor” da campanha de 2002 e, em alguns momentos, do segundo turno de 2022. O Lula candidato de 2026 vai falar mais grosso, será mais polarizante e vai cravar no bolsonarismo e na elite financeira as razões para os males do país. Se toda eleição é feita de inimigos, os do PT em 2026 serão quatro “Bs”: Bolsonaro, banqueiros, bets e as big techs.
A nova estratégia é uma tentativa de encarar
a principal pergunta que a campanha de Lula precisa responder até outubro:
“para que mais quatro anos?”. Afinal, o que o PT acha que pode fazer em um novo
mandato e que ainda não fez nos três mandatos de Lula e no um mandato e meio de
Dilma Rousseff? Quais as propostas de um novo governo Lula para além dos
programas sociais já consolidados nas gestões anteriores, como o Bolsa Família,
o ProUni e o Mais Médicos?
A resposta, de acordo com cinco ministros e
ex-ministros da coordenação da campanha da reeleição, terá dois tempos. No
primeiro, o PT vai repisar até a exaustão que Lula encontrou uma máquina
pública “destruída pelos quatro anos de Bolsonaro”. É consenso no núcleo duro
lulista que um dos maiores erros do atual governo foi não ter reclamado o suficiente
da herança bolsonarista e do tempo que levaria para recuperar as políticas
sociais petistas. O núcleo acredita que campanhas publicitárias, como as que
diziam que “o Brasil voltou” enquanto Jair Bolsonaro fazia comícios a favor dos
vândalos golpistas do 8 de janeiro, aumentaram a impaciência do eleitor por
resultados que o governo não tinha condições de entregar.
No segundo tempo, a campanha de Lula vai
reforçar as ideias que simbolizam “nós (os petistas a favor dos pobres) contra
eles (os bolsonaristas que defendem os ricos)”. Para ficar apenas nos projetos
deste ano:
O fim da escala de trabalho 6x1, com redução
da jornada semanal de 44 horas para 40 horas sem corte de salário. Hoje 14,8
milhões folgam apenas um dia por semana e outros 37 milhões se beneficiariam
com a redução da jornada de trabalho, segundo cálculos do governo. O projeto
será votado nesta semana na Câmara dos Deputados.
O programa
Desenrola 2, que em duas semanas refinanciou a dívida de 1,2 milhão
de pessoas com juros de 1,99% ao mês. A expectativa é atender quase 20 milhões
de pessoas.
O programa de R$ 30 bilhões para subsidiar a
compra de carros novos para motoristas de aplicativo e taxistas
com juros de 1,05% ao mês. Em um dia, houve 500 mil consultas sobre o programa
que deve financiar a venda de cerca de 300 mil carros.
Renovação
gratuita da carteira de motorista, cancelamento de multas de pedágio
e fim da obrigatoriedade das aulas em autoescola.
O fim do
imposto federal sobre importações de até US$ 50, a “taxa das
blusinhas”, antiga querela entre o ex-ministro Fernando Haddad e o ministro da
Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira.
Isenção do Imposto de Renda para quem ganha
até 5 salários mínimos e cobrança de taxa sobre dividendos, investimentos
off-shore e fundos exclusivos.
Redução de 10% nas renúncias fiscais das
grandes empresas.
Ações da Polícia Federal sobre grandes
sonegadores (Refit), lavagem de dinheiro (corretora Reag) e corrupção (Banco
Master).
Decretos presidenciais aumentando a
punição das big techs por disseminação de agressões às mulheres
e crianças nas redes sociais.
A campanha de Lula tem um desafio quase
insolúvel, o desgaste de material. Ao final do terceiro mandato de Lula, o PT
terá presidido o Brasil em 18 dos últimos 24 anos. Isso significa que pouco
menos da metade dos brasileiros, 105 milhões de pessoas, viveu a maior parte da
sua vida sob os governos do PT. Como convencer essas pessoas, que veem no PT o
responsável pelo que de bem e de mal aconteceu no Brasil neste século, a darem
mais quatro anos para Lula? Pelas entrevistas que fiz com os ministros e
ex-ministros, a resposta é apresentar Lula como o grande responsável por tirar
milhões da miséria e que agora está revigorado para combater a desigualdade
entre os mais ricos e os mais pobres. É uma tentativa arriscada de capturar o
sentimento antissistema latente no eleitorado.
A estratégia ainda não se traduz em quais
seriam as promessas de um Lula 4, mas é factível supor uma aposta pesada contra
as renúncias fiscais, limitações à publicidade das bets e maior
responsabilização legal das plataformas de redes sociais.
É preciso lembrar que campanha e governo são
dois momentos diferentes. Fernando Henrique Cardoso foi eleito em 1998 jurando
não se tornar um “gerente da crise” e passou o segundo mandato gerenciando a
crise. Dilma Rousseff fez em 2014 uma campanha à esquerda e depois de eleita
entregou a economia para o liberal Joaquim Levy cortar todos os programas
petistas. Jair Bolsonaro foi eleito em 2018 como um candidato
contra-tudo-que-está-aí e terminou repartindo o poder com Ciro Nogueira, Arthur
Lira e Valdemar Costa Neto. O mesmo governo Lula que se prepara para uma
campanha de esquerda tem no Ministério da Fazenda estudos sérios sobre a
necessidade de um ajuste fiscal em 2027, incluindo mudanças em programas como o
BPC e Seguro Desemprego e alterações nos gastos constitucionais em saúde e
educação.
Aos 80 anos, Lula é o terceiro homem há mais
tempo no poder no Brasil. Ele perde apenas para o imperador D. Pedro II, que
reinou por 58 anos, e Getúlio Vargas, presidente por 18. Nos três mandatos,
Lula já completou 11 anos e cinco meses no poder, com a diferença de ter sido
eleito todas as vezes. Ao escrever sobre os dois primeiros mandatos, o
cientista político André Singer registrou no livro “Os sentidos do lulismo” que
o presidente havia feito adotado um “reformismo fraco”, buscando avanços
sociais que não confrontassem com a elite econômica. Para o Lula de 2026, no
entanto, o apoio de parte considerável da elite ao golpismo da extrema-direita
rompeu com o acordo de boa convivência dos primeiros mandatos.
Se o bolsonarismo, por natureza, puxa a agenda do país para a extrema-direita, o lulismo vai agora tentar empurrar para a esquerda.

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