terça-feira, 26 de maio de 2026

Lula dobra à esquerda, Por Thomas Traumann

O Globo

A campanha para a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai dobrar à esquerda. A estratégia de comunicação para dar a Lula um inédito quarto mandato será reforçar o atual slogan oficial, “um governo ao lado do povo brasileiro”, com um discurso que ataque “os privilégios dos super-ricos”. Será uma tentativa de demarcar para si o território da defesa dos interesses populares e nacionalistas, incorporando o antielitismo como eixo do futuro governo.

Esqueça o “Lulinha, paz e amor” da campanha de 2002 e, em alguns momentos, do segundo turno de 2022. O Lula candidato de 2026 vai falar mais grosso, será mais polarizante e vai cravar no bolsonarismo e na elite financeira as razões para os males do país. Se toda eleição é feita de inimigos, os do PT em 2026 serão quatro “Bs”: Bolsonaro, banqueiros, bets e as big techs.

A nova estratégia é uma tentativa de encarar a principal pergunta que a campanha de Lula precisa responder até outubro: “para que mais quatro anos?”. Afinal, o que o PT acha que pode fazer em um novo mandato e que ainda não fez nos três mandatos de Lula e no um mandato e meio de Dilma Rousseff? Quais as propostas de um novo governo Lula para além dos programas sociais já consolidados nas gestões anteriores, como o Bolsa Família, o ProUni e o Mais Médicos?

A resposta, de acordo com cinco ministros e ex-ministros da coordenação da campanha da reeleição, terá dois tempos. No primeiro, o PT vai repisar até a exaustão que Lula encontrou uma máquina pública “destruída pelos quatro anos de Bolsonaro”. É consenso no núcleo duro lulista que um dos maiores erros do atual governo foi não ter reclamado o suficiente da herança bolsonarista e do tempo que levaria para recuperar as políticas sociais petistas. O núcleo acredita que campanhas publicitárias, como as que diziam que “o Brasil voltou” enquanto Jair Bolsonaro fazia comícios a favor dos vândalos golpistas do 8 de janeiro, aumentaram a impaciência do eleitor por resultados que o governo não tinha condições de entregar.

No segundo tempo, a campanha de Lula vai reforçar as ideias que simbolizam “nós (os petistas a favor dos pobres) contra eles (os bolsonaristas que defendem os ricos)”. Para ficar apenas nos projetos deste ano:

O fim da escala de trabalho 6x1, com redução da jornada semanal de 44 horas para 40 horas sem corte de salário. Hoje 14,8 milhões folgam apenas um dia por semana e outros 37 milhões se beneficiariam com a redução da jornada de trabalho, segundo cálculos do governo. O projeto será votado nesta semana na Câmara dos Deputados.

programa Desenrola 2, que em duas semanas refinanciou a dívida de 1,2 milhão de pessoas com juros de 1,99% ao mês. A expectativa é atender quase 20 milhões de pessoas.

O programa de R$ 30 bilhões para subsidiar a compra de carros novos para motoristas de aplicativo e taxistas com juros de 1,05% ao mês. Em um dia, houve 500 mil consultas sobre o programa que deve financiar a venda de cerca de 300 mil carros.

Renovação gratuita da carteira de motorista, cancelamento de multas de pedágio e fim da obrigatoriedade das aulas em autoescola.

fim do imposto federal sobre importações de até US$ 50, a “taxa das blusinhas”, antiga querela entre o ex-ministro Fernando Haddad e o ministro da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira.

Isenção do Imposto de Renda para quem ganha até 5 salários mínimos e cobrança de taxa sobre dividendos, investimentos off-shore e fundos exclusivos.

Redução de 10% nas renúncias fiscais das grandes empresas.

Ações da Polícia Federal sobre grandes sonegadores (Refit), lavagem de dinheiro (corretora Reag) e corrupção (Banco Master).

Decretos presidenciais aumentando a punição das big techs por disseminação de agressões às mulheres e crianças nas redes sociais.

A campanha de Lula tem um desafio quase insolúvel, o desgaste de material. Ao final do terceiro mandato de Lula, o PT terá presidido o Brasil em 18 dos últimos 24 anos. Isso significa que pouco menos da metade dos brasileiros, 105 milhões de pessoas, viveu a maior parte da sua vida sob os governos do PT. Como convencer essas pessoas, que veem no PT o responsável pelo que de bem e de mal aconteceu no Brasil neste século, a darem mais quatro anos para Lula? Pelas entrevistas que fiz com os ministros e ex-ministros, a resposta é apresentar Lula como o grande responsável por tirar milhões da miséria e que agora está revigorado para combater a desigualdade entre os mais ricos e os mais pobres. É uma tentativa arriscada de capturar o sentimento antissistema latente no eleitorado.

A estratégia ainda não se traduz em quais seriam as promessas de um Lula 4, mas é factível supor uma aposta pesada contra as renúncias fiscais, limitações à publicidade das bets e maior responsabilização legal das plataformas de redes sociais.

É preciso lembrar que campanha e governo são dois momentos diferentes. Fernando Henrique Cardoso foi eleito em 1998 jurando não se tornar um “gerente da crise” e passou o segundo mandato gerenciando a crise. Dilma Rousseff fez em 2014 uma campanha à esquerda e depois de eleita entregou a economia para o liberal Joaquim Levy cortar todos os programas petistas. Jair Bolsonaro foi eleito em 2018 como um candidato contra-tudo-que-está-aí e terminou repartindo o poder com Ciro Nogueira, Arthur Lira e Valdemar Costa Neto. O mesmo governo Lula que se prepara para uma campanha de esquerda tem no Ministério da Fazenda estudos sérios sobre a necessidade de um ajuste fiscal em 2027, incluindo mudanças em programas como o BPC e Seguro Desemprego e alterações nos gastos constitucionais em saúde e educação.

Aos 80 anos, Lula é o terceiro homem há mais tempo no poder no Brasil. Ele perde apenas para o imperador D. Pedro II, que reinou por 58 anos, e Getúlio Vargas, presidente por 18. Nos três mandatos, Lula já completou 11 anos e cinco meses no poder, com a diferença de ter sido eleito todas as vezes. Ao escrever sobre os dois primeiros mandatos, o cientista político André Singer registrou no livro “Os sentidos do lulismo” que o presidente havia feito adotado um “reformismo fraco”, buscando avanços sociais que não confrontassem com a elite econômica. Para o Lula de 2026, no entanto, o apoio de parte considerável da elite ao golpismo da extrema-direita rompeu com o acordo de boa convivência dos primeiros mandatos.

Se o bolsonarismo, por natureza, puxa a agenda do país para a extrema-direita, o lulismo vai agora tentar empurrar para a esquerda.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.