segunda-feira, 18 de maio de 2026

Mais palavras na ponta da língua, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Leitores ficaram sem palavras para expressar seu entusiasmo pelo dicionário de 500 páginas em branco

Seria o único a poder ser usado livremente em provas e concursos sem suspeita de favorecer fraudes

Na segunda-feira (11/5), falei aqui do "Grande Dicionário de Palavras na Ponta da Língua", que o poeta Antonio Carlos Secchin, meu colega de Academia Brasileira de Letras, está cogitando produzir, composto das palavras que de repente nos fogem quando as tínhamos na ponta da língua. Seria um livro de 500 páginas em branco, por ser formado justamente dessas palavras que nos escapam quando mais precisamos delas. Inúmeros leitores aprovaram a ideia e se disseram sem palavras para expressar seu entusiasmo.

Seria o único dicionário que poderia ser usado livremente em provas e concursos sem suspeita de favorecer fraudes. O único a poder ser apreciado por igual pelos alfabetizados e analfabetos. Único também a poder ser lido em voz alta na sala de espera dos consultórios médicos sem incomodar os outros pacientes. Se for editado em audiolivro, beneficiar-se-á de uma gravação de extrema qualidade, sem o menor ruído. Para os deficientes visuais, bastaria imprimir uma edição em formato gigante. E, para os leitores que raramente leem mais que a orelha de um livro, esta também sairia em branco, e o ideal seria que fosse escrita por um rigoroso lexicógrafo surdo.

Com a incorporação dos lapsos sugeridos pelos leitores, Secchin teria de providenciar uma nova edição de 700 páginas. Uma edição ilustrada, com desenhos a lápis, infelizmente apagados, que o artista terá se esquecido de entregar. O problema seriam as edições piratas, sem pagamento de direitos autorais.

Como Secchin é poeta, o dicionário atenderá as necessidades de seus colegas cujas imagens e metáforas lhes faltam na hora de escrever. Conterá instruções sobre como escrever sonetos sem sílabas métricas, sem chave de ouro, sem rimas e, para resumir, sem versos. Ensinará também a produzir poemas concretistas totalmente em branco, ainda mais radicais do que os clássicos do gênero.

Enfim, tudo levaria a um livro de grande utilidade. Tanto que alguns já se disseram de olho na pré-venda, à espera de adquirir o exemplar número zero.

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