O Estado de S. Paulo
É legítimo precificar política, mas é ilegítimo vender essa precificação como análise técnica e neutra
A divulgação, em 13 de maio, dos áudios entre o senador Flávio Bolsonaro e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro produziu uma reação clássica e didática do mercado financeiro brasileiro: dólar a R$ 5,00, com alta de 2,31%, e Bolsa em queda de 1,80%, acompanhados de salto nos juros futuros. Uma plataforma de apostas em previsões que parte da Faria Lima adotou como termômetro do humor político passou a indicar que as chances de Flávio Bolsonaro haviam caído de 44% para cerca de 28%, enquanto Lula assumia o favoritismo com 45%. O episódio expõe, de forma incômoda, o que esse mercado de fato precifica, ficando claro que é muito distante do que alega precificar.
A versão oficial dos players do mercado é a
do “risco fiscal”, focado na crença de que o governo petista sempre será um
perdulário, sem compromisso com o equilíbrio fiscal. Isso já até foi verdade,
mas convenhamos que os governos petistas têm sido cada vez mais aderentes ao
sistema econômico do ideário conservador. Mas qual seria o problema
macroeconômico de perder o candidato Flávio Bolsonaro? Ele nunca apresentou
trajetória executiva relevante, não tem um programa econômico articulado nem
mesmo uma equipe técnica reconhecida.
A realidade, sempre cruel, mostra que a
candidatura do senador foi construída menos por méritos individuais e mais pela
escolha do ex-presidente Bolsonaro. Este último, ao perder seus direitos
políticos pela tentativa de golpe de Estado, optou por um nome que carrega o
sobrenome da família, para preservar sua influência e consolidar seu clã. O
mercado, que se autodescreve como reino da análise meritocrática, comprou esse
“ativo” denominado Flávio sem ter a menor ideia do retorno esperado e agora
amarga o prejuízo.
Mais revelador é que os players de mercado,
aqui no sentido de jogadores mesmo, não se incomodam tanto com o conteúdo das
conversas vazadas. Na visão deles, é a contradição entre o que Flávio disse a
interlocutores do mercado nos últimos meses, que não tinha qualquer relação com
Vorcaro, a quem teria visto pessoalmente apenas uma vez, e o que os áudios
revelaram. Ou seja: o pecado capital não é a interlocução com o dono de um
banco liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025 nem o pedido exorbitante
de R$ 134 milhões para um filme de exaltação familiar. O problema foi ter
faltado com a verdade aos seus “clientes”. Uma ética comercial, jamais
republicana.
Há ainda a curiosa flexibilidade moral desse
ambiente. O mesmo ecossistema que exige rigor de conduta das empresas listadas
em bolsa, premia boa governança nas avaliações de quanto vale uma companhia e
faz sermões ao setor público sobre transparência, abraçou, sem hesitação, um
pré-candidato cuja principal credencial era o sobrenome. A reação tardia,
apenas após o vazamento, sugere que o filtro ético do “mercado” opera por
reputação aparente, não pela análise dos fundamentos. Não dá para esquecer que
quem sempre criticou a insegurança jurídica abraçou o “herdeiro do golpe” sem
pensar um minuto.
O conceito espúrio do site de apostas merece
nota à parte. A plataforma já movimenta cerca de US$ 79 milhões no mercado
relacionado à eleição presidencial brasileira de 2026, e seus preços passaram a
figurar em relatórios de bancos e corretoras como “termômetro” da corrida.
Tratar uma casa de apostas em criptomoedas, vulnerável a grandes apostadores
que distorcem preços e a amostras que nada têm de representativas do
eleitorado, como métrica orientadora de decisões de investimento revela menos sobre
o futuro da democracia brasileira do que sobre a fragilidade analítica de uma
“indústria” que se diz orientada por dados. É o mercado fabricando seu próprio
espelho e nele se enxergando como oráculo.
A alta dos juros futuros no dia do vazamento
merece um olhar específico. Os juros futuros são, em essência, o preço pelo
qual investidores aceitam emprestar dinheiro ao governo brasileiro por prazos
que vão de alguns meses a vários anos e funcionam como uma espécie de
termômetro do quanto o País inspira confiança lá na frente. Em 13 de maio, nada
havia mudado nos fundamentos da economia: a inflação não pulou, o governo não
anunciou novos gastos, o Banco Central não sinalizou mudança de rumo, o cenário
internacional seguiu sem novidades na instabilidade da guerra.
A macroeconomia não mudou, mas o custo de
financiamento do País subiu por causa do mau humor. O mundo real é que paga a
conta. Não porque o Brasil ficou objetivamente mais arriscado, mas porque um
candidato preferido do “mercado” ficou mais frágil. É lamentável que a
fronteira entre análise de risco e preferência política seja tão tênue. Só que
o mau humor vira perda real para empresas e consumidores.
É legítimo precificar política, mas é
ilegítimo vender essa precificação como análise técnica e neutra. O áudio entre
Flávio Bolsonaro e Vorcaro não revelou apenas um pedido de dinheiro a um
banqueiro problemático, mostrou o peso da ideologia na “racionalidade do
mercado”.

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