Valor Econômico
Explicação de Flávio Bolsonaro para pedido a
Vorcaro é episódio que desconstrói o enredo e a trama e expõe cruamente a
incongruência do visível, mas sobretudo a extensão do invisível
O programa de Julia Duailibi, com Malu Gaspar
e Otávio Guedes, na GloboNews da quinta-feira dia 14, foi muito mais do que um
programa rotineiro sobre temas da atualidade política. Horas antes o
pré-candidato da extrema direita à Presidência da República Flávio Bolsonaro
teve que ver-se com a divulgação de sua própria conversa com o principal
protagonista do caso do Banco Master, de pedido de recursos milionários para
realização de um filme sobre o ex-presidente Jair Messias.
Os entrevistadores foram objetivos e claros no questionamento do entrevistado quanto à coerência de seus argumentos para defender-se de ser impróprio o pedido de dinheiro envolvendo um banco em situação anômala. O banqueiro seria preso no dia seguinte ao do pedido.
A entrevista, provavelmente, acabará se
tornando um documento do que Edgar Morin define como efeito bumerangue de uma ação
imprópria que produz o efeito contrário ao do pretendido pelo autor do fato. O
modo como as coisas ocorreram na linha habitual do bolsonarismo indica que a
“cultura” bolsonarista pode ter chegado ao fim.
O argumento de Flávio Bolsonaro o mostrou
frágil porque repetitivo, falou muito e revelou o que queria esconder. Teimou,
impaciente, na afirmação da legalidade e privacidade da solicitação de milhões
de dólares para financiar o filme. Mas os três jornalistas o estavam
questionando sobre outra coisa. A moralidade duvidosa da solicitação e da
origem do dinheiro. Sobretudo exposta no tratamento entre os dois envolvidos no
caso, o tratamento próprio de cúmplices.
O episódio é de grande relevância
sociológica. É o que na sociologia se chama de analisador-revelador. Ele
desconstrói o enredo e a trama e expõe cruamente a incongruência do visível,
mas sobretudo a extensão do invisível.
Convém ter em conta, ainda, a singular
peculiaridade do filme, uma ousada ação político-partidária para promover um
upgrade na biografia política de Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos de prisão
pela conspiração antidemocrática que se revelou por inteiro na baderna política
do 8 de janeiro de 2023.
Estão tentando recuperar o suposto carisma de
Jair Messias para assegurar o prestígio vicário da família e dos coadjuvantes.
É pouco provável que esse plano dê certo. Como já explicou o sociólogo alemão
Max Weber, o carisma é intransferível.
O filme tem uma peculiaridade que se deve
considerar quanto a suas implicações políticas. O ator que faz o papel de
Bolsonaro, Jim Caviezel, é o mesmo que fez o papel de Jesus Cristo no filme “A
paixão de Cristo”, exibido no Brasil pela Record. Há alguns anos ocorreu na
Índia um fato político do gênero, que virou uma espécie de lição de manipulação
da consciência política da grande multidão que nos países subdesenvolvidos está
na fase meramente pré-política da politização precária, superficial e
insuficiente.
Numa novela de televisão na Índia, há muitos
anos, a atriz Surita Irani desempenhou o papel da deusa Sita, figura central do
hinduísmo, que cria, mantém e destrói. A atriz ingressou na política, se
candidatou ao Parlamento e foi eleita. Estudo sociológico mostrou que muitos
nela votaram por não verem a diferença entre a atriz e a deusa que representou.
Tinham medo dela. Não parece que Bolsonaro possa convencer os crentes daqui de
que é um Cristo dos trópicos.
Bolsonaro mistura com política os dois
versículos que conhece. Talvez seja um erro.
Se a hipótese se confirmar, Flávio Bolsonaro
é neste momento um ser político transitório. Como os outros membros da família
que visivelmente atuam na política como Bolsonaros vicários, de imitação.
Estamos de fato diante de uma elaborada técnica de criação e sustentação de sua
vitalidade política, convencida de que foi escolhida para dominar o Brasil. Não
há conflitos entre eles.
Como carecem de legitimidade de fato, mostram
perfeito domínio da mais nefasta característica da política brasileira. Não é
necessário que todos os membros do grupo estejam no posto principal. Basta um.
Os demais desfrutam vicariamente os efeitos do que centraliza a posição de
poder. Outras famílias políticas brasileiras, claramente originárias da roça,
estão perfeitamente organizadas em torno dessa concepção paralela de poder.
No caso dos Bolsonaros, porém, fizeram
alianças demais, muito além dos meros limites de família, praticamente
transformaram um grande e decisivo número de partidos em confrarias de
cúmplices. Envolveram igrejas evangélicas e alguns setores católicos. A
suposição de seu jogo, de que os evangélicos são dóceis e manipuláveis,
revelou-se equivocada justamente nos episódios destes dias. O ministro
terrivelmente evangélico indicado para o STF por Jair Messias não se dobrou.
*José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte).

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