sexta-feira, 22 de maio de 2026

O desmanche político, por José de Souza Martins*

Valor Econômico

Explicação de Flávio Bolsonaro para pedido a Vorcaro é episódio que desconstrói o enredo e a trama e expõe cruamente a incongruência do visível, mas sobretudo a extensão do invisível

O programa de Julia Duailibi, com Malu Gaspar e Otávio Guedes, na GloboNews da quinta-feira dia 14, foi muito mais do que um programa rotineiro sobre temas da atualidade política. Horas antes o pré-candidato da extrema direita à Presidência da República Flávio Bolsonaro teve que ver-se com a divulgação de sua própria conversa com o principal protagonista do caso do Banco Master, de pedido de recursos milionários para realização de um filme sobre o ex-presidente Jair Messias.

Os entrevistadores foram objetivos e claros no questionamento do entrevistado quanto à coerência de seus argumentos para defender-se de ser impróprio o pedido de dinheiro envolvendo um banco em situação anômala. O banqueiro seria preso no dia seguinte ao do pedido.

A entrevista, provavelmente, acabará se tornando um documento do que Edgar Morin define como efeito bumerangue de uma ação imprópria que produz o efeito contrário ao do pretendido pelo autor do fato. O modo como as coisas ocorreram na linha habitual do bolsonarismo indica que a “cultura” bolsonarista pode ter chegado ao fim.

O argumento de Flávio Bolsonaro o mostrou frágil porque repetitivo, falou muito e revelou o que queria esconder. Teimou, impaciente, na afirmação da legalidade e privacidade da solicitação de milhões de dólares para financiar o filme. Mas os três jornalistas o estavam questionando sobre outra coisa. A moralidade duvidosa da solicitação e da origem do dinheiro. Sobretudo exposta no tratamento entre os dois envolvidos no caso, o tratamento próprio de cúmplices.

O episódio é de grande relevância sociológica. É o que na sociologia se chama de analisador-revelador. Ele desconstrói o enredo e a trama e expõe cruamente a incongruência do visível, mas sobretudo a extensão do invisível.

Convém ter em conta, ainda, a singular peculiaridade do filme, uma ousada ação político-partidária para promover um upgrade na biografia política de Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos de prisão pela conspiração antidemocrática que se revelou por inteiro na baderna política do 8 de janeiro de 2023.

Estão tentando recuperar o suposto carisma de Jair Messias para assegurar o prestígio vicário da família e dos coadjuvantes. É pouco provável que esse plano dê certo. Como já explicou o sociólogo alemão Max Weber, o carisma é intransferível.

O filme tem uma peculiaridade que se deve considerar quanto a suas implicações políticas. O ator que faz o papel de Bolsonaro, Jim Caviezel, é o mesmo que fez o papel de Jesus Cristo no filme “A paixão de Cristo”, exibido no Brasil pela Record. Há alguns anos ocorreu na Índia um fato político do gênero, que virou uma espécie de lição de manipulação da consciência política da grande multidão que nos países subdesenvolvidos está na fase meramente pré-política da politização precária, superficial e insuficiente.

Numa novela de televisão na Índia, há muitos anos, a atriz Surita Irani desempenhou o papel da deusa Sita, figura central do hinduísmo, que cria, mantém e destrói. A atriz ingressou na política, se candidatou ao Parlamento e foi eleita. Estudo sociológico mostrou que muitos nela votaram por não verem a diferença entre a atriz e a deusa que representou. Tinham medo dela. Não parece que Bolsonaro possa convencer os crentes daqui de que é um Cristo dos trópicos.

Bolsonaro mistura com política os dois versículos que conhece. Talvez seja um erro.

Se a hipótese se confirmar, Flávio Bolsonaro é neste momento um ser político transitório. Como os outros membros da família que visivelmente atuam na política como Bolsonaros vicários, de imitação. Estamos de fato diante de uma elaborada técnica de criação e sustentação de sua vitalidade política, convencida de que foi escolhida para dominar o Brasil. Não há conflitos entre eles.

Como carecem de legitimidade de fato, mostram perfeito domínio da mais nefasta característica da política brasileira. Não é necessário que todos os membros do grupo estejam no posto principal. Basta um. Os demais desfrutam vicariamente os efeitos do que centraliza a posição de poder. Outras famílias políticas brasileiras, claramente originárias da roça, estão perfeitamente organizadas em torno dessa concepção paralela de poder.

No caso dos Bolsonaros, porém, fizeram alianças demais, muito além dos meros limites de família, praticamente transformaram um grande e decisivo número de partidos em confrarias de cúmplices. Envolveram igrejas evangélicas e alguns setores católicos. A suposição de seu jogo, de que os evangélicos são dóceis e manipuláveis, revelou-se equivocada justamente nos episódios destes dias. O ministro terrivelmente evangélico indicado para o STF por Jair Messias não se dobrou.

*José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte).

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