Folha de S. Paulo
Relações com gente de gangues financeiras e
políticas são risco para o jogo bolsonarista
Fiasco de público de medidas eleitorais e
piora discreta da economia são risco para Lula 4
A política brasileira é mais e mais um caso de polícia. Também está sujeita, faz mais de década, a infecções por vírus espalhados por mídias sociais. Um bicho ruim criado em laboratórios políticos suprarreais pode abater a popularidade de um governo. A mentira do pix e o medo de impostos feriu Lula no início de 2025, ferida que ainda sangra.
Não houvesse tantos casos de polícia ou vírus
políticos, seria menos arriscado dizer que a política politiqueira vai em breve
entrar em recesso por causa de Copa, festas juninas e férias pré-eleitorais.
Também por causa disso, o povo vai prestar ainda menos atenção a esse mundo de
costume pouco interessante e cada vez mais repulsivo.
O recesso deve começar com três vertentes de dúvidas maiores.
Uma delas é o que vai resultar das
investigações das relações do pré-candidato e senador Flávio
Bolsonaro (PL-RJ)
com pelo menos duas gangues político-negocistas. Trata-se aqui, claro, da
gangue que tinha um banco, a Master-Vorcaro, e daquela que mandava
no governo do estado do Rio de Janeiro sob o ex-governador Cláudio Castro,
da turma de Flávio.
Em outra vertente, a dúvida é saber se por aí
vão correr águas que elevem o nível de prestígio e de votos do presidente Luiz
Inácio Lula da Silva. Por exemplo, qual deve ser o efeito da agora provável
aprovação e implementação em breve da redução da jornada ("fim da
6x1")?
Tal projeto passou
do desprezo oficial e do establishment para realidade muito provável em ano e
meio, um espanto. A conta aqui é feita com base na data de apresentação da
proposta de emenda à Constituição (PEC) da deputada federal Erika Hilton
(PSOL-SP), ideia aliás muito difundida por meio de militância digital. A PEC
que vai enfim a voto não é a de Hilton, como se sabe, mas é dela o filme que
deu origem à série, história que foi decididamente encampada por Lula 3 apenas
em fevereiro deste ano.
A PEC de redução de jornada vai levar água
para o moinho de Lula 4? Apesar
de apoiada por 71% do eleitorado (diz o Datafolha), a mudança afeta
trabalhadores sob contrato formal e que trabalham mais de 40 horas, minoria
grande, mas minoria. Afeta também pequenos empresários. Vai levar tempo para
saber do saldo econômico da medida.
Quanto ao saldo político inicial, Lula 3 vai
levar a fama e votos do "fim da 6x1"? A não ser que sobrevenha efeito
defasado, a isenção
do IR com tributação dos mais ricos (imposto, aliás, até agora um fiasco)
não aumentou prestígio e votação de Lula 4. O resto da penca de subsídios e
transferências extras de renda também não rendeu, até agora.
Está aí a dúvida maior: propaganda eleitoral
e efeito cumulativo ou defasado das medidas mais ou menos eleitorais de Lula
vão fazer efeito prático? Vão furar a barreira do antilulismo encarniçado e do
desânimo com o envelhecimento da conversa luliana?
Uma terceira questão é o velho possível
efeito da "economia", ao que não se tem prestado muita atenção. As taxas
de juros que agravaram dívidas ficarão altas a perder de vista, haverá mais
inflação e o número de pessoas empregadas crescerá mais devagar. A piora deve
ser marginal (pequena, dada a situação presente), mas a eleição por ora se
afigura apertada.
Afora no caso das relações perigosas ou
repulsivas de Flávio Bolsonaro, que podem explodir (ou não) a qualquer hora,
não vamos solucionar essas dúvidas antes do prazo final para a direita e para o
registro de chapas, em meados de agosto.
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