domingo, 24 de maio de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Lula não encontra limite em sua gastança eleitoreira

Por O Globo

‘Bondades’ se sucedem em ritmo desenfreado e deixarão conta altíssima para o próximo governo

A obsessão do governo em distribuir “bondades” para melhorar a popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva até as eleições começou no ano passado e não parece ter fim. Basta acompanhar a sucessão de programas ou medidas de objetivo nitidamente eleitoreiro anunciadas em ritmo a cada dia mais frenético. Todos os governos costumam ampliar gastos às vésperas das eleições. Mas Lula parece não encontrar limites.

Em novembro, o governo sancionou a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil mensais. Em 12 março, voltou à carga eliminando impostos federais sobre importação e venda de diesel, usando a guerra no Oriente Médio como pretexto. Menos de duas semanas depois, retomou o Plano Brasil Soberano, com crédito barato do BNDES a empresas exportadoras. Mostrando estar disposto a agradar diferentes perfis de eleitor, em abril lançou novo pacote com isenção de combustíveis e ampliou em R$ 20 bilhões os recursos do programa habitacional Minha Casa, Minha Vida, estendendo o foco à classe média. Também em abril, o Conselho Monetário Nacional (CMN) criou linha de financiamento a empresas do setor aéreo. O vice-presidente Geraldo Alckmin anunciou R$ 10 bilhões em crédito para máquinas e implementos agrícolas, e Lula ampliou o programa para compra de ônibus e caminhões.

Maio ainda não terminou, e o Planalto já bateu o recorde na intensidade das “bondades”. Na primeira quinzena, anunciou uma a cada dois dias úteis. Na primeira segunda-feira do mês, promoveu o Desenrola 2, programa de renegociação de dívidas organizado em quatro frentes para ampliar o impacto entre os eleitores: famílias, estudantes com débitos no Fies, agricultores, micro e pequenas empresas. No dia seguinte, o CMN diminuiu a taxa de juros do crédito para reformas habitacionais. Exatamente uma semana depois, num mesmo dia, o governo anunciou o fim da “taxa das blusinhas”, imposto de importação sobre compras internacionais até US$ 50, e lançou um pacote de investimento e crédito para a área de segurança pública. No dia seguinte, anunciou subvenções à gasolina. E, antes que aquela semana acabasse, o Ministério do Trabalho instituiu regras mais generosas para quem deseja sacar recursos do FGTS.

E não ficou por aí. A semana passada começou com a Agência Nacional de Energia Elétrica aprovando até R$ 5,5 bilhões para reduzir a conta de luz. Depois uma Medida Provisória destinou R$ 30 bilhões para financiar com juros camaradas a compra de carros novos por taxistas e motoristas de aplicativo.

Numa conta preliminar conservadora, a XP Investimentos avaliou o custo das “bondades” em quase R$ 190 bilhões, como mostrou reportagem do GLOBO. Até agora. Sabe-se lá o que mais virá pela frente. Fala-se em corte de juros para quem está em dia com prestações e em novos estímulos a setores específicos.

As medidas anunciadas podem ser classificadas em dois grupos. No primeiro, políticas públicas destinadas a perdurar, como a isenção do IR e a extinção da taxa das blusinhas. Pode-se até debater se são corretas, mas dois fatos são indiscutíveis: foram tomadas com interesse eleitoral e resultam em perda de arrecadação em momento de gastança e desequilíbrio fiscal.

O segundo grupo de medidas é formado pelas linhas de crédito. Por não entrarem nos cálculos das metas fiscais do governo, são chamadas de parafiscais. No total, o esforço de agradar o eleitorado em todo o ano de 2026 é estimado em cerca de 2% do Produto Interno Bruto (PIB). Um quarto disso são medidas parafiscais que, embora não entrem no cômputo das metas, contribuem para aumentar a dívida pública. Outro quarto são gastos de entes subnacionais, já que os governadores também decidiram acelerar o gasto.

Os efeitos negativos são inexoráveis. Parte dos recursos aplicados nas linhas de financiamento poderia ser usada para abater a dívida pública. Em vez disso, servirá para aumentar o crédito. Mais empréstimos significam mais estímulo ao consumo, economia mais aquecida e mais inflação. O resultado são juros mais altos por mais tempo, único recurso à disposição do Banco Central (BC) para segurar preços.

O Planalto costuma se defender com um argumento falacioso. Lembra que, no primeiro ano do atual mandato de Lula, o déficit primário das contas públicas, sem contar gastos com os juros da dívida, foi da ordem de 2,4% do PIB e que a previsão para este ano está em 0,4%. As declarações oficiais só esquecem que esse avanço é inócuo. Levando em conta o pagamento de juros, o déficit nominal fechará o ano em 9% do PIB, exatamente o mesmo patamar de 2023. Como a dívida não para de crescer, a conta de juros brasileira é assombrosa.

O rendimento exigido pelos investidores para aceitar emprestar dinheiro ao governo está há meses em torno de insustentáveis 7% acima da inflação. O índice que calcula quanto o Tesouro tem de reserva para pagar a dívida sem precisar emitir dívida nova continua a cair, enquanto a dívida bruta já ultrapassa 80% do PIB, tendo crescido quase 10 pontos percentuais no atual mandato de Lula.

O Brasil tem setor privado pujante, produtores agrícolas na liderança global, produção de petróleo em alta e avanços noutros segmentos na economia. Nada disso, porém, tem condição de resistir incólume ao gasto público desenfreado. A despesa do governo federal, descontada a inflação, terá crescido 20% nos quatro anos do terceiro mandato do presidente Lula, ou mais de R$ 430 bilhões, quase o quádruplo do aumento acumulado no governo anterior. É um desatino que nada tem de “bondade” e deixará uma conta altíssima ao governo que assumir em janeiro, seja qual for.

Congresso precisa dar autonomia financeira ao BC

Por Folha de S. Paulo

Mandatos para dirigentes devem ser complementados por orçamento independente do Executivo

PEC que tramita no Senado, sob resistência do governo Lula e do PT, preserva as prerrogativas do Executivo e do Senado

Aprovada há apenas cinco anos, a autonomia operacional do Banco Central, na forma de mandatos fixos para seus dirigentes, mostra bom desempenho em seu primeiro grande teste —uma diretoria de maioria indicada por Luiz Inácio Lula da Silva (PT), oponente declarado da norma e crítico feroz da gestão anterior da instituição.

A despeito das diatribes petistas, o BC, sob o comando de Gabriel Galípolo, mantém o critério técnico e o rigor na missão institucional de buscar o cumprimento das metas fixadas para a inflação. Não se viu capitulação ao assédio político na tomada de decisões difíceis, como elevar os juros a até 15% ao ano, para evitar o descontrole de preços.

Graças a isso, a expansão irresponsável de gastos públicos neste terceiro mandato de Lula teve impacto bem menor sobre o poder de compra da população do que a promovida pela correligionária Dilma Rousseff —que impunha os ditames do Planalto sobre a política monetária.

Naquele período, de 2011 a 2015, o país amargou IPCA médio anual de 7%, chegando ao pico de 10,67% quando se esgotaram as tentativas de conter o índice com o represamento de preços de combustíveis e energia elétrica.

Assim como a experiência doméstica recente, a prática internacional há muito recomenda a separação de gestões entre bancos centrais e governos nacionais —e, mais ainda, que ela seja fortalecida no caso do Brasil.

Aqui, o passo seguinte deve ser a autonomia financeira do BC, isto é, conceder à instituição o poder de elaborar e executar seu próprio orçamento, sem depender dos recursos do Tesouro Nacional. Para tanto, seriam utilizadas receitas geradas com a gestão monetária, mais do que suficientes para bancar o quadro de pessoal e investimentos necessários.

Uma proposta de emenda constitucional nesse sentido tramita hoje com dificuldade no Senado, sob a resistência não surpreendente do governo e do PT. O Congresso precisa aprovar a essência do texto com presteza.

Trata-se de garantir que o BC estará a salvo de pressões de natureza administrativa capazes de inibir sua atuação, pois é o presidente da República quem manda, em última instância, nas contas do Tesouro. Para tal aperfeiçoamento institucional, há cuidados a serem observados.

Preservam-se prerrogativas do governo, que define a meta de inflação e indica os dirigentes, e do Senado, ao qual cabe examinar as indicações. A PEC prevê limites para a expansão das despesas, e o BC pleiteia uma recomposição do quadro de servidores, que encolheu de 5.072, em 2006, para 3.311 contados neste ano..

A corporação deveria deixar o regime do funcionalismo e passar à CLT, de modo a flexibilizar contratações, remunerações e desligamentos. Dado o espírito corporativista ainda predominante em Brasília, porém, a estabilidade no emprego deverá ser concessão infelizmente necessária para viabilizar o avanço.

STF inverte prioridades no escândalo do Banco Master

Por Folha de S. Paulo

Corte não busca o esclarecimento do contrato de R$ 129 mi entre o escritório da mulher de Moraes e Vorcaro

A questão cabe não ao apenas ao Supremo, mas também, e sobretudo, ao procurador da República, Paulo Gonet, até aqui inerte no caso

Data de abril do ano passado a primeira menção ao contrato firmado entre o Banco Master e o escritório de advocacia da mulher do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, publicada pelo jornal O Globo.

Em dezembro, quando o Master já havia sido liquidado pelo Banco Central e suas fraudes financeiras eram de conhecimento público, o mesmo veículo revelou que o contrato somava exorbitantes R$ 129 milhões a serem pagos ao longo de 36 meses.

Em março, descobriram-se mensagens do ex-banqueiro Daniel Vorcaro a Moraes, enviadas em 17 de novembro, quando o então controlador do Master fora preso pela Polícia Federal.

A despeito da comprovação de todos esses indícios escandalosos, a Procuradoria-Geral da República não moveu uma palha para investigar as relações entre o magistrado e Vorcaro —nem, aliás, as transações milionárias de uma empresa ligada ao ministro Dias Toffoli com um fundo da rede do banco fraudador.

Tampouco o Supremo se dispôs a tomar providências concretas. Magistrados resistem até mesmo a um singelo código de conduta proposto pelo presidente da corte, ministro Edson Fachin.

As energias das autoridades, ao que parece, estão voltadas para descobrir e punir os responsáveis pelo vazamento das informações.

Logo no início deste ano, Moraes valeu-se dos superpoderes que ganhou com o interminável inquérito das fake news para determinar uma devassa na Receita Federal em busca de quebras de sigilos fiscais de ministros do STF e seus familiares. Funcionários do fisco foram afastados e colocados sob monitoramento.

Na última terça-feira (19), o ministro André Mendonça autorizou uma operação policial que resultou no afastamento de um perito da PF suspeito de ter repassado a terceiros informações confidenciais. A nota lacônica divulgada pelo tribunal não entrou em detalhes, mas soube-se em Brasília que se tratava do famigerado contrato entre o Master e Viviane Barci de Moraes.

Supondo que o servidor de fato seja responsável pelo vazamento, é de imaginar por que tamanha diligência investigativa não é aplicada em um esclarecimento mais importante —por que um banqueiro mafioso firmou um contrato de valores absolutamente fora dos padrões de mercado com o escritório da esposa de um ministro do STF.

A questão cabe não apenas à corte mais alta do país, mas também, e sobretudo, ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, até aqui inerte no caso.

Procura-se um procurador-geral da República

Por O Estado de S. Paulo

A denúncia contra vídeos satíricos expõe a atuação seletiva de Gonet: agressivo na hora de defender interesses de ministros, omisso para investigá-los mesmo diante de grossas suspeitas

Romeu Zema virou alvo de denúncia criminal junto ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) por vídeos satíricos com fantoches de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). A peça, assinada pelo procurador-geral da República, Paulo Gonet, acusa o ex-governador de Minas de calúnia contra o ministro Gilmar Mendes. Convém parar um instante e absorver a cena: o chefe do Ministério Público mobilizou o aparato penal da República por causa de bonecos de internet.

Zema caricaturou uma decisão questionada pelo próprio presidente do STF, Edson Fachin, e suspeitas amplamente debatidas sobre o caso Banco Master e a atuação dos ministros. Pode-se considerar os vídeos injustos, agressivos, toscos ou demagógicos. O que não se pode fazer, sem violentar o Direito Penal, é fingir que um fantoche equivale a uma acusação formal de crime.

Calúnia exige imputação falsa de fato determinado. Humor político funciona justamente por exagero, compressão e distorção. Desde os panfletos do século 18 até os programas televisivos contemporâneos, a paródia sempre tratou governantes e juízes como personagens ridículos. Em democracias maduras, autoridades toleram isso. Aqui, o procurador-geral resolveu denunciar.

Zema não tem foro privilegiado. Se Mendes se sentiu ofendido, deveria acionar o Ministério Público na primeira instância. Mas o ministro pediu providências ao colega Alexandre de Moraes, que encaminhou o caso à Procuradoria-Geral da República (PGR). E o órgão que deveria funcionar como filtro contra abusos chancelou sua formalização. A peça da PGR se aproxima perigosamente de uma advocacia penal privada da honra de um ministro.

A seletividade fica mais visível quando se observa aquilo que Gonet escolhe não fazer. Mais de uma vez, o próprio Mendes insinuou que o senador Alessandro Vieira teria vínculos com milicianos e o crime organizado. Onde está a denúncia? Onde está o zelo pela honra? A régua muda conforme o sobrenome na capa do processo.

Diante de contratos multimilionários de empresas de Daniel Vorcaro – o banqueiro investigado pela maior fraude no sistema financeiro de que se tem notícia – e o escritório da mulher de Moraes ou a empresa da família de Dias Toffoli, a PGR entrou em estado contemplativo. Quando Toffoli assumiu a relatoria do caso Master, Gonet arquivou pedidos de impedimento que os próprios ministros do STF se viram obrigados a reconhecer – ainda que não formalmente – numa reunião secreta. Mensagens entre Moraes e Vorcaro foram dispensadas como ninharias. Gonet procrastinou a avaliação de um pedido de prisão de Vorcaro quando a Polícia Federal já evidenciava riscos flagrantes de obstrução e intimidação.

A elasticidade muda conforme o alvo. Depois que um ex-assessor de Moraes, Eduardo Tagliaferro, trouxe à tona mensagens e relatos sobre a atuação informal do ministro para perseguir críticos, o foco deslocou-se rapidamente. Em vez de concentrar energia no conteúdo revelado, o aparato persecutório voltou-se contra quem revelou. A Procuradoria investiga o mensageiro com vigor, mas a mensagem foi varrida para debaixo do tapete.

Esse padrão explica por que tantos brasileiros enxergam hoje uma Justiça de castas. Críticas a ministros são equiparadas a “ataques à democracia”. Um entrevero entre Moraes e um cidadão comum em Roma ativou as engrenagens penais da PGR. Uma frase escrita com batom numa estátua gerou pedido de pena superior à aplicada a criminosos violentos. Um Pix de R$ 500 para ajudar a fretar um ônibus com manifestantes rumo a Brasília virou acusação por tentativa de golpe. Já ministros do STF parecem habitar um ecossistema processual muito mais acolhedor, paciente e compreensivo.

O Ministério Público existe para defender a ordem jurídica e fiscalizar o poder, inclusive o poder togado. Uniformidade de critérios, prudência sem covardia, coragem sem abusos, apego rigoroso ao devido processo legal, proporcionalidade e, sobretudo, independência são o que se espera de um bom procurador. Já Paulo Gonet oscila entre dois polos igualmente degradantes para o parquet: o de perseguidor-geral da República e o de prevaricador-geral da República.

A longa marcha do controle digital

Por O Estado de S. Paulo

Decreto de Lula transforma decisão ativista do STF sobre as redes sociais em aparato permanente de supervisão digital, ampliando incentivos à censura privada

O governo publicou o Decreto n.º 12.975/26, apresentando-o como mera regulamentação da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o Marco Civil da Internet. A descrição é confortável, mas enganosa. O STF já havia desmontado parte da arquitetura jurídica que transformara o Marco Civil numa referência equilibrada entre liberdade de expressão, responsabilização e segurança jurídica. Mas o decreto transforma essa ruptura em aparato administrativo permanente de supervisão do ambiente digital.

A decisão do Supremo já havia criado incentivos para remoções preventivas de conteúdo ao enfraquecer a lógica da ordem judicial prévia. O decreto organiza esses incentivos numa engrenagem burocrática contínua: as plataformas devem agora monitorar “riscos sistêmicos”, manter estruturas permanentes de controle, encaminhar informações ao poder público e operar sob supervisão da Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD).

A ANPD não foi criada para arbitrar o debate público. Sua função original é proteger dados pessoais. Agora passa a fiscalizar deveres de moderação, gerenciamento de riscos e circulação de conteúdos. Isso ocorreu por decreto, não por lei aprovada pelo Congresso. Liberdade de expressão e responsabilidade de intermediários não deveriam ser redefinidas por combinação de ativismo judicial e expansão regulamentar do Executivo.

A Advocacia-Geral da União (AGU) recebeu papel igualmente temerário. O artigo 16-N permite notificações relacionadas a publicidade “enganosa”, “abusiva” ou “fraudulenta” ligada a políticas públicas. O problema não está em combater ilicitudes flagrantes, mas na elasticidade desses conceitos quando transportados para disputas políticas. Críticas duras a programas governamentais ou campanhas impulsionadas contra medidas do Executivo circularão sob sombra regulatória permanente.

As plataformas passam a operar num ambiente em que manter determinado conteúdo pode gerar sério risco punitivo, enquanto removê-lo quase nunca produz consequência equivalente. O resultado previsível é remoção defensiva em larga escala.

Essa dinâmica já é problemática em temas objetivamente ilícitos. Torna-se muito mais quando aplicada a categorias políticas e interpretativas. O decreto evita expressões como “desinformação” ou “ataques à democracia”, mas remete a tipos penais ligados ao Estado Democrático de Direito, discriminação e discurso de ódio. Essas categorias exigem contexto e interpretação judicial cuidadosa. O que constitui “grave ameaça”? Onde termina a crítica contundente e começa a “incitação”? O que os tribunais levam anos para sentenciar, entre erros e revisões, as plataformas terão de decidir em questão de horas.

Empresas privadas não atuarão como defensoras heroicas da liberdade de expressão contra burocracias estatais. Agirão como qualquer agente racional sob pressão regulatória: removendo primeiro e discutindo depois. Sobretudo as menores, com menos capacidade de resistir a disputas regulatórias.

Nos últimos anos, o governo tentou emplacar o Projeto de Lei (PL) das Fake News, pressionou o STF a ampliar a responsabilização das plataformas, acionou a AGU contra conteúdos críticos a projetos de lei, ensaiou restrições ao impulsionamento de críticas políticas. É o velho sonho do “controle social da mídia” traduzido para a era digital.

Sociedades liberais maduras tratam a retórica da defesa da democracia e de minorias com cautela porque conhecem sua lógica. O poder de definir preventivamente quais discursos representam risco social ou político raramente permanece limitado aos casos extremos que originalmente o justificaram.

Graças ao STF, o Brasil já acumulou problemas suficientes de insegurança jurídica. O decreto acrescenta outro: a incerteza crescente sobre os limites do discurso legítimo sob supervisão administrativa difusa. Liberdade de expressão não depende apenas da ausência de censura explícita, mas de regras claras, competências delimitadas e baixa discricionariedade estatal. O regime fabricado pelo consórcio formado pelo STF e o governo, à margem do Congresso, caminha na direção oposta.

Contrabando de influência

Por O Estado de S. Paulo

Arquivamento de inquérito não livra parlamentares de explicar viagem ao Caribe com dono de bet

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes arquivou o inquérito que apurava a suspeita de contrabando envolvendo o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e os deputados Isnaldo Bulhões (MDB-AL) e Doutor Luizinho (PP-RJ). Em abril de 2025, todos eles viajaram para o Caribe na companhia do empresário Fernando Oliveira Lima, vulgo “Fernandin OIG”, figura conhecida no mercado de apostas online e à época investigado pela CPI das Bets.

Por ora, a decisão de Moraes, que acolheu parecer da Procuradoria-Geral da República, encerra a dimensão jurídica do episódio, mas está longe de eximir os parlamentares dos questionamentos políticos e morais suscitados pela viagem. Os quatro ainda devem explicações ao País sobre os motivos que os levaram a embarcar no jatinho de um investigado pelo próprio Congresso para uma viagem sem razão pública acima de qualquer suspeita.

Não se trata aqui de presumir a prática de crimes. O que causa perplexidade é o fato de autoridades terem aceitado viajar a convite de um dono de bet investigado justamente por uma CPI destinada a apurar crimes no setor das apostas eletrônicas. Para piorar, um dos passageiros, Ciro Nogueira, era membro da comissão.

A força da democracia representativa não está apenas na legalidade formal das condutas dos representantes, mas sobretudo na confiança dos representados materializada por seus votos. Noutras palavras: a preservação da fé pública depende fundamentalmente da transparência e da moralidade dos mandatários.

Até agora, não se sabe qual era a natureza daquela viagem, quem convidou quem e sob quais contrapartidas. Como se diz por aí, “não existe almoço grátis”.

A alegação de que os parlamentares passaram pelo raio X do aeroporto pode dissipar, a priori, a suspeita de que tenham praticado contrabando. Mas há um problema político que antecede a questão criminal. Por que, afinal, representantes eleitos aceitaram a hospitalidade de um empresário cuja atividade comercial estava ligada, naquele exato momento, a uma investigação a cargo do Congresso?

A prudência recomendaria que os parlamentares, principalmente Hugo Motta e Ciro Nogueira, guardassem distância do tal “Fernandin OIG”. Em qualquer democracia que se preze, mandatários evitam situações que possam tisnar a percepção social de independência entre poder político e interesses privados. Mas é impressionante como isso parece não causar qualquer constrangimento em Brasília.

A naturalização de relações promíscuas entre autoridades públicas e empresários tornou-se uma das marcas mais degradantes da vida nacional, a ponto de dilapidar até a confiança no próprio Supremo, como revela o caso Master. Voos em jatinhos, hospedagens, favores e convites para viagens nababescas passaram a ser tratados como coisas da vida, quando deveriam fazer gritar a sirene dos desvios éticos.

Ao arquivar o caso, Moraes declarou não haver elementos para sustentar investigação criminal. Mas isso não significa que a conduta dos parlamentares foi política e moralmente aceitável. Eles ainda têm explicações a dar ao País.

Agora é entender o que aconteceu

Por O Povo (CE)

As autoridades anunciam a reabertura do trecho da CE-025 que estava interditado, à altura de Aquiraz, devido ao acidente que aconteceu na noite do último dia 27 de abril, atribuído às fortes chuvas da ocasião, com a abertura de uma cratera que acabaria engulando um carro e duas motos e o registro de uma morte. Uma situação a se lamentar em qualquer aspecto pelo qual seja analisada, valendo ressaltar que a recuperação da via, que ora acontece, é apenas o primeiro passo de uma resposta ao que aconteceu que precisa ser muito mais abrangente.

Até em respeito à memória da vítima e aos seus familiares que até hoje sofrem com a perda inesperada, há de se buscar entender o que aconteceu de verdade. Uma estrada não pode se abrir de repente e a eventualidade de um volume de chuvas acima do que se tem como normal não serve como justificativa para o que aconteceu, considerando-se que uma obra do tipo precisa, como mínimo, de estar preparada para lidar com tais situações.

Claro que o mais urgente, inclusive para resolver a situação que se criara para os moradores de áreas próximas, muitos deles com dificuldades de acesso às próprias casas, era recuperar a pista e devolver a rodovia ao trânsito normal de veículos. Ainda haverá necessidade de observar a situação por um tempo, mas, cumprida a etapa, é importante que se desenvolva esforços para buscar explicações e, se existentes, também as responsabilidades.

É de se admitir que um quadro de chuvas imponha dificuldades, mas, de outra parte, lidar com seus efeitos precisa ser condição a se exigir de quem for contratado para realizar uma obra que, como é o caso, deve contemplar uma convivência possível com fenômenos do tipo. Explicar bem o que aconteceu, porque o buraco que se abriu chamou muita atenção, representa uma forma de proteger quem trafega pelas nossas estradas, construídas, reformadas e mantidas com o dinheiro público.

Parece evidente que o ajuste deve começar pelo processo de fiscalização da obra, para entender se o contrato foi cumprido à risca nos detalhes que, muitas vezes, fazem a diferença. Repita-se, como meio de evitar que novos episódios graves do tipo aconteçam, com todos seus efeitos dramáticos, no caso envolvendo até uma vida perdida.

Tirar do episódio as lições necessárias parece importante para melhorarmos a segurança das estradas cearenses, o que significa, reforçando sempre, que apenas restabelecer as condições de trânsito pela avenida Caminho do Sol, rota turística importante do Ceará, deve ser visto apenas como passo inicial. Importante, mas apenas inicial. Na perspectiva de olhar adiante, entender o que aconteceu servirá de demonstração efetiva de respeito ao interesse público diante de um caso que assustou a população. 


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