O filme e a caneta
Por
Revista Será?
O tabuleiro eleitoral do Brasil registrou uma importante inflexão nos últimos dias pelo efeito combinado do filme de Bolsonaro e da caneta do presidente da República, combinação que favorece a reeleição de Lula. Se, até outubro, não houver nenhuma grande surpresa no jogo eleitoral, o Presidente Lula da Silva tem tudo para ser conduzido ao seu quarto mandato. A candidatura de Flávio Bolsonaro tende a afundar depois da lambança que evidenciou a sua intimidade com o tóxico banqueiro Daniel Vorcaro, com a visita em prisão domiciliar e o pedido de dinheiro para financiar um filme que contaria a vida política do seu pai. Curioso que depois de toda incompetência de Jair Bolsonaro e do seu desastroso governo, o que vai desmontar o projeto de poder da família de extrema-direita é um filme que conta a sua lamentável biografia. E que estava sendo produzido para constituir uma peça de propaganda eleitoral de Flávio.
Flávio
deve resistir e, provavelmente, manterá a candidatura, numa expectativa
infundada de que continuaria sendo o escoadouro natural da alta rejeição
eleitoral de Lula. O bolsonarismo já deixou claro que não abre espaço para
nenhum outro nome de extrema-direita, menos ainda, da direita ou
centro-direita. Bolsonaro prefere perder as eleições a permitir o surgimento de
uma candidatura alternativa de direita com mais chances, principalmente se o
candidato tiver algum princípio democrático e demonstrar respeito aos valores
civilizatórios.
Enquanto
a candidatura de Flávio vai derretendo, o presidente Lula pegou a caneta e, sem
qualquer inibição, está gastando toda a tinta disponível com uma farra de
bondades que aumentará as suas chances eleitorais. O custo econômico e fiscal
vem depois e pode caber a ele lidar com a “herança maldita” que está plantando
no final do mandato. A rejeição a Lula ainda é muito grande – 52% desaprovam o
seu governo – mas o medo a Flávio Bolsonaro já é maior, segundo a última
pesquisa da Atlas/Intel. O festival de generosos agrados da caneta de Lula pode
apenas moderar a rejeição, mas não eliminar o desgaste da sua imagem pública e
do seu terceiro governo.
De qualquer forma, sobram muitas dúvidas e incertezas sobre o resultado das eleições de outubro. Três grandes interrogações: 1. Para onde (ou quem) deve migrar o anti-lulismo persistente se o candidato de Bolsonaro afunda e não oferece condições reais de derrotar o presidente? 2. Até que ponto a fragilidade eleitoral do clã de extrema-direita levaria a um declínio da polarização Lula-Bolsonaro? 3. Um eventual declínio da polarização estimularia o lançamento de outros candidatos de centro e mesmo esquerda? As possíveis respostas não chegam, contudo, a ameaçar a reeleição do presidente Lula. Mas, podem ser fundamentais para a definição do futuro político do Brasil.
Parlamento perdeu pudor de legislar em causa
própria
Por O Globo
Depois dos agrados a partidos aprovados na
Câmara, Congresso derruba vetos a gastos eleitoreiros
Faltando menos de cinco meses para as
eleições, o Congresso parece ter perdido qualquer pudor de legislar em causa
própria. Deputados e senadores decidiram aumentar o destino de recursos a
prefeitos e governadores aliados em seus redutos eleitorais.
Em sessão conjunta da Câmara e do Senado na
quinta-feira, um amplo acordo pluripartidário permitiu a derrubada de vetos do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO).
Em comum, os trechos restabelecidos ampliam as possibilidades de uso da máquina
pública antes de um pleito. O desalinho com a Lei das Eleições ou a Lei de
Responsabilidade Fiscal é flagrante. A votação aconteceu dois dias depois de a
Câmara ter aprovado uma minirreforma eleitoral recheada de benefícios
descabidos a partidos políticos, que agora espera a avaliação do Senado.
Um dos vetos restabelecidos autoriza o poder
público a fazer “doação de bens, valores ou benefícios” públicos em período
eleitoral. A exigência de contrapartida não desfaz nem ameniza o despropósito.
O texto genérico abre possibilidade a ampla margem de manobra. De cestas
básicas a tratores, deputados e senadores querem o poder de anabolizar seus
aliados na corrida eleitoral buscando beneficiar suas próprias candidaturas.
Não faltaram sinais contra a derrubada. Antes da votação, um parecer da área
técnica do Congresso lembrou que a intenção da Lei das Eleições é “evitar o uso
da máquina pública e prestigiar, tanto quanto possível, a igualdade entre os
candidatos, estando ou não no exercício de mandato”. Os parlamentares ignoraram
o aviso.
Outro veto restabelecido permite que
municípios com até 65 mil habitantes e inadimplentes com a União recebam
recursos de emendas parlamentares e convênios. Ao vetar esse dispositivo, o
governo argumentou que a medida contraria a Lei de Responsabilidade Fiscal. Nos
discursos e entrevistas, congressistas tentaram justificar o injustificável,
dizendo que a maioria dos pequenos municípios está inadimplente. Os
congressistas não titubearam em agraciar prefeitos amigos e caloteiros com mais
recursos, desprezando as regras que incentivam a boa gestão pública.
Foi também liberado o envio de verbas para
construção e manutenção de rodovias estaduais e municipais. As exigências
estabelecidas farão pouca ou nenhuma diferença. Outro dispositivo restabelecido
estendeu as mesmas condições para a aplicação de recursos na malha hidroviária.
“Na prática, tentam legalizar o uso político e econômico da máquina pública,
fazendo com que candidatos sem mandato não consigam competir com igualdade”,
afirma Juliana Sakai, diretora executiva da ONG Transparência Brasil.
É péssimo para a democracia brasileira o
furor com que os parlamentares têm legislado em causa própria. Pelo menos em
relação à minirreforma eleitoral sem cabimento aprovada às pressas na Câmara, o
Senado parece disposto a agir de forma mais comedida, deixando o tema para
depois das eleições. Seria a opção adequada. Quanto aos vetos derrubados com
objetivo eleitoreiro, cabe ao Judiciário restaurar os limites da sensatez.
Esquema de influenciadora com PCC revela
sofisticação do crime
Por O Globo
Novo elo com economia formal demonstra
necessidade de integração para enfrentar facções
A prisão em São Paulo da advogada Deolane
Bezerra é mais uma evidência da infiltração do crime organizado na
economia formal e da sofisticação dos esquemas de lavagem de dinheiro. Deolane,
influenciadora digital com 21,7 milhões de seguidores que ficou conhecida pelo
relacionamento com o funkeiro MC Kevin e costuma postar fotos ao lado de carros
de luxo e de suas viagens pelo mundo, é acusada de ser uma espécie de “caixa”
do crime organizado, atuando a serviço do PCC para lavar
recursos ilícitos. A investigação, conduzida pela Polícia Civil e pelo
Ministério Público de São Paulo, também expôs a incapacidade do sistema
penitenciário de impedir que lideranças encarceradas continuem a comandar ações
nas ruas.
Deolane já tinha prontuário policial. Em
2024, a Polícia Federal a manteve presa no Recife, sob a acusação de integrar
um esquema de lavagem de dinheiro de apostas digitais ilegais. Segundo a
Polícia Civil pernambucana, ela investiu R$ 65 milhões em 12 imóveis de luxo em
três anos. Foi solta e responde ao processo em liberdade. Agora, foi flagrada
num esquema de fracionamento de depósitos milionários em parcelas inferiores a
R$ 10 mil para que passassem despercebidos pelos controles. Valores gerados por
atividades criminosas transitavam, segundo a polícia, por contas de Deolane para
depois retornar ao PCC. Na operação, foram bloqueados 39 veículos avaliados em
R$ 8 milhões e ficaram congelados R$ 357,5 milhões — R$ 27 milhões dos quais em
nome da própria Deolane.
A polícia diz ter encontrado vínculos dela
com a cúpula do PCC, em particular com o líder da facção, Marcos Herbas
Camacho, o Marcola, preso há 27 anos. A investigação chegou a Deolane depois da
apreensão de bilhetes manuscritos com dois presos no complexo penitenciário de
Presidente Venceslau (SP). Um dos inquéritos abertos a partir disso investiga
lavagem de dinheiro por meio de uma empresa de transportes vinculada a Marcola,
seu irmão Alejandro e outros parentes. No celular de um dos investigados,
acusado de comprar caminhões e de movimentar recursos obedecendo a ordens de Marcola
e seu irmão, havia imagens de recibos de depósitos bancários, alguns deles em
contas de Deolane.
As empresas de transporte são apenas um dos
elos com a economia formal na extensa teia de negócios criminosos do PCC. A
Operação Carbono Oculto mapeou no ano passado uma rede de mil postos de
combustível em diversos estados, para vender álcool adulterado, mobilizando
empresas de logística, usinas de açúcar e destilarias no interior paulista.
Reportagem recente do Wall Street Journal apresenta o PCC como a organização
criminosa que mais cresce no planeta, com braços na América Latina, nos Estados
Unidos e nos maiores portos europeus.
Para enfrentar organizações assim, não há alternativa: é urgente integrar as forças de segurança, sob coordenação federal. Embora o Congresso tenha avançado ao aprovar a lei das facções criminosas, só isso não basta. É preciso um plano nacional, executado com afinco por todas as esferas de governo.
Decreto de Lula avança em risco de censura
criado pelo STF
Por Folha de S. Paulo
Medida que regulamenta mudança feita pela
corte no Marco Civil pode ameaçar liberdade de expressão
Se seria necessário aperfeiçoar a regulação
da internet, aprovada pelo Congresso em 2014, tal ação caberia exclusivamente
ao Legislativo
Na quarta (20), Luiz Inácio Lula da
Silva (PT) assinou um decreto que
atualiza a regulamentação da lei 12.965, de 2014, o Marco Civil
da Internet, e atribui à Agência Nacional de Proteção de Dados
(ANPD) a competência de fiscalizar e punir infrações relacionadas aos deveres
das plataformas digitais.
A medida é temerária porque tanto enseja
riscos à liberdade de expressão como denota invasão da seara do Congresso. Mas
tais problemas têm
início numa decisão abusiva da mais alta corte do país, que expõe os
riscos do desrespeito à separação dos Poderes.
O decreto de Lula deriva do julgamento do
Supremo Tribunal Federal que, em junho de 2025, declarou a inconstitucionalidade
parcial do artigo 19 do Marco Civil. Com a medida, plataformas podem ser
responsabilizadas, em alguns casos, por postagens de terceiros mesmo que não
recebam ordem judicial para a remoção de conteúdos.
Ao exigir ordem judicial, a versão original
da lei —oriunda de intenso debate entre legisladores, especialistas e sociedade
e considerada avançada pela ONU e
pela Internet Society—
visava proteger usuários da censura.
O STF invadiu
a competência legislativa ao estabelecer um rol de conteúdos que devem ser
removidos pelas plataformas antes de determinação da Justiça, quando circularem
de forma massiva, como terrorismo, pornografia infantil, discriminação e
"atos antidemocráticos" que se enquadrem nos tipos penais de golpe de
Estado e abolição do Estado democrático de Direito.
A subjetividade inerente a este último item é
preocupante porque é capaz de minar a expressão de opiniões políticas
legítimas. O próprio STF manifesta interpretações enviesadas sobre o tema para
autoproteção. Não raro, ministros qualificam críticas à atuação da corte como
ataques à democracia e ao Estado de Direito.
Considerando o fator político e a proximidade
das eleições, o decreto do governo petista torna-se mais preocupante.
A ANPD, criada em 2018 como órgão ligado à
Presidência, passou a ser vinculada ao Ministério da
Justiça em 2023. Sua função é fiscalizar se empresas, órgãos
públicos e outras entidades tratam dados pessoais de forma lícita, segura e
transparente.
Agora, tal
competência foi ampliada para fiscalizar o cumprimento pelas
plataformas das mudanças feitas no Marco Civil pelo Supremo. Outro decreto
presidencial, de setembro de 2025, já havia incluído a proteção de crianças e
adolescentes em ambientes digitais como uma função da ANPD, após a aprovação do
ECA Digital pelo Congresso.
Se seria necessário aperfeiçoar a regulação
da internet no Brasil, tal ação caberia exclusivamente ao Legislativo, por meio
do amplo debate público voltado à produção de consensos. Não é com hipertrofia
do Judiciário ou canetada do Executivo que se combinarão segurança e liberdade
de expressão no ambiente online.
Trump aumenta pressão contra a ditadura
cubana
Por Folha de S. Paulo
EUA indiciam ex-ditador do regime castrista,
que está em frangalhos devido a políticas obsoletas
Comunismo cubano é relíquia da Guerra Fria
que deveria chegar ao fim, mas temor sobre o que virá sob patrocínio da Casa
Branca é legítimo
Os Estados
Unidos cultivam uma obsessão com Cuba desde
1818, quando a Espanha abriu os portos de sua então colônia para o comércio.
Oitenta anos depois, Washington destronaria a potência europeia como força
dominante na ilha, sob o pretexto de libertá-la.
Na prática, estabeleceu um protetorado que
foi desmontado, em 1959, pela revolução de Fidel Castro.
A tentativa de retomar o controle na fracassada invasão da baía dos Porcos,
dois anos depois, jogou o frágil regime cubano no colo da União Soviética.
A ditadura comunista se fortaleceu e permitiu
que Moscou instalasse mísseis nucleares a 145 km da costa americana, quase
levando o mundo à guerra em 1962.
Sobrevieram décadas de dependência do
Kremlin, temperadas por profunda repressão, comprada pela esquerda global como
sucesso anticolonial. O ocaso soviético de 1991 levou o regime castrista à
deriva, ensaiando aberturas mesmo após Fidel e seu irmão, Raúl, saírem de cena.
Não deu certo, e o motivo do interesse
americano permaneceu. Cuba ocupa posição estratégica, ameaçando 40% do comércio
marítimo em tonelagem dos EUA, que sai dos portos no golfo do México rumo ao
Atlântico.
Esse fato geopolítico explica a obsessão
retomada por Donald Trump.
Tendo fracassado em colher uma vitória fácil contra o Irã, o
republicano volta suas baterias para a ilha e retoma a temerária
prioridade de controle de seu entorno estratégico.
A captura de Nicolás
Maduro em Caracas, em janeiro, indicava a crise atual,
pontificada na quarta (20) pelo simbólico indiciamento
de Raúl, 94, pela morte de quatro americanos em 1996.
Ao bloquear o maior fornecedor de petróleo de
Havana, Trump aprofundou uma crise agônica. Apagões e
fome viraram a norma, e o Exército sob o ditador Miguel Díaz-Canel
se apropriou do que restou da economia.
A desculpa de que as mazelas decorrem do
embargo americano, de resto indevido, não se sustenta. O comunismo cubano é uma
relíquia da Guerra Fria,
marcado por centralização econômica e repressão política.
É lamentável que o artífice da eventual queda
do castrismo, algo longe de ser uma certeza, dada a resiliência histórica do
regime, seja um desqualificado como Trump, que pode tentar repetir o que fez
na Venezuela e
cooptar o governo, ignorando a população.
Seria um cenário tão ruim quanto a volta de Cuba à condição de cassino da elite da Flórida, um temor legítimo, sem falar na reafirmação do precedente intervencionista contra alvos frágeis.
Partidos insaciáveis
Por O Estado de S. Paulo
Projeto aprovado a toque de caixa, com votos
do PT ao PL, cria inúmeros benefícios financeiros para partidos políticos e
amplia áreas de baixa fiscalização sobre verbas públicas eleitorais
A Câmara dos Deputados demonstrou mais uma
vez que, quando há interesse e disposição, projetos e ideias podem avançar
rapidamente, com consenso e escassa discórdia, em um plenário quase harmônico.
Mas é claro que esse tipo de cenário é raro de se ver e quase sempre só aparece
quando a pauta beneficia um nicho muito específico, justamente aquele que ocupa
as cadeiras desse súbito ambiente de harmonia: políticos e partidos. Nessas
horas, as velhas críticas ao suposto “açodamento legislativo”, tão evocadas por
quem costuma defender parcimônia em matérias de amplo interesse da população,
desaparecem.
A chamada minirreforma eleitoral aprovada
pela Câmara nesta semana é mais um exemplo desse comportamento recorrente. O
texto entrou de surpresa, só foi incluído na pauta de votação na tarde daquele
dia, e acabou aprovado de forma simbólica, sem registro nominal de votos, em
sessão híbrida e em um plenário esvaziado. O método conversa perfeitamente com
o conteúdo. Quando o Congresso pretende ampliar privilégios para si mesmo, tudo
costuma ocorrer de forma rápida, discreta e com o mínimo possível de desgaste
público.
O apoio reunido em torno da proposta também
ajuda a revelar o caráter corporativista da iniciativa. PT, PL e partidos do
Centrão caminharam juntos em defesa do projeto, enquanto a resistência ficou
restrita a uma combinação que costuma aparecer nesses momentos por
parlamentares do Novo e do PSOL.
O texto aprovado é um pacote de benefícios. A
proposta permite renegociar dívidas partidárias por até 15 anos, cria teto para
multas por irregularidades em prestações de contas, dificulta bloqueios de
recursos dos Fundos Partidário e Eleitoral e ainda abre brecha para disparos em
massa de mensagens por sistemas automatizados. Tudo isso com aplicação
imediata, já para este ano eleitoral.
Há ainda um ponto, incluído discretamente no
relatório do deputado Rodrigo Gambale (Podemos-SP), que merece ser avaliado com
lupa. O texto amplia o escopo de atuação das fundações partidárias, permitindo
cursos, convênios, capacitações e outras atividades remuneradas com menos
restrições. O problema é que essas fundações operam hoje numa área cinzenta da
transparência partidária. As prestações de contas dos partidos, embora
problemáticas, ao menos apresentam algum nível de detalhamento sobre despesas,
fornecedores, salários e contratos. Já os recursos destinados às fundações
partidárias costumam ser apresentados de forma muito mais genérica e opaca. Na
prática, trata-se de uma espécie de caixa-preta financiada com dinheiro
público.
Ao ampliar as possibilidades de atuação
dessas estruturas sem criar mecanismos adicionais de fiscalização, o Congresso
amplia também a zona de baixa transparência sobre bilhões de reais distribuídos
anualmente às legendas.
Não se trata de um episódio isolado. Nos
últimos anos, o Legislativo vem aprovando sucessivas flexibilizações envolvendo
recursos partidários e eleitorais. Já foram autorizadas compras de imóveis,
veículos e até aeronaves com dinheiro público dos partidos. Houve tentativas de
reduzir punições por irregularidades contábeis, limitar bloqueios judiciais e
ampliar formas de utilização do Fundo Partidário. Em outro momento revelador, a
chamada PEC da Blindagem tentou equiparar presidentes de partidos a parlamentares
eleitos para fins de foro especial. Felizmente, o Senado teve algum grau de
responsabilidade institucional e deixou a proposta morrer.
A nova minirreforma segue agora justamente
para análise desses mesmos senadores. E é importante que o Senado reveja, com o
mesmo grau de consciência, o texto aprovado com baixíssimo debate público.
Enquanto cidadãos comuns enfrentam multas, execução rápida de dívidas e rigor
burocrático crescente, o sistema político continua construindo para si mesmo um
regime paralelo de tolerância, renegociação permanente e redução de
transparência. Nessas horas, o tradicional cenário de mar revolto da política
brasileira se transforma em céu de brigadeiro.
O enfraquecimento da CVM
Por O Estado de S. Paulo
Aprovação de Lobo para ser o xerife do
mercado de capitais, a despeito das controvérsias que o cercam, mostra
desinteresse em fortalecer o órgão no momento em que ele é mais necessário
O Senado aprovou a nomeação de Otto Lobo à
presidência da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), instituição responsável
por fiscalizar o setor financeiro e o mercado de capitais. Ao fazê-lo, os
senadores, bem como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que indicou Lobo
com apoio do Centrão, parecem não ter entendido a imperiosa necessidade de
fortalecer a CVM neste momento, em meio ao escândalo do Banco Master e à
proliferação de fintechs, algumas das quais a serviço do crime organizado. O
nome de Lobo é cercado de controvérsias que tornam sua nomeação uma fonte de
desconfiança sobre a CVM – que, por sua própria natureza, precisa ser
absolutamente independente e protegida de interesses políticos e empresariais.
Nos cinco meses em que Lobo esteve à frente
da CVM, tomou, nas palavras do Ministério Público junto ao Tribunal de Contas
da União, “decisões polêmicas favoráveis ao Banco Master”. A mais ruidosa delas
foi dispensar os controladores da Ambipar, entre eles fundos ligados ao Master,
de fazer uma Oferta Pública de Ações (OPA) para adquirir as ações remanescentes
da empresa, a despeito da suspeita de que o Master e o investidor Nelson Tanure
atuaram de maneira coordenada para valorizar os papéis da empresa, como apontou
a área técnica da CVM.
O entendimento dos técnicos era de que
deveria ser realizada a OPA para proteger os acionistas minoritários. Lobo, no
entanto, votou contra a obrigatoriedade da oferta – por duas vezes, primeiro
como diretor e depois como presidente interino – e utilizou o “voto de
qualidade” para desempatar o julgamento em favor dos controladores,
contrariando sua própria área técnica. A decisão gerou forte reação no mercado
e entre especialistas em governança corporativa, especialmente porque, poucos
meses depois, em novembro de 2025, o Banco Master foi liquidado pelo Banco
Central e seu dono, Daniel Vorcaro, preso – o que tornava o benefício indireto
da decisão da CVM ainda mais sensível.
Já não há dúvida de que decisões que a CVM
tomou nos últimos anos favoreceram Vorcaro e seus negócios. Seu modus operandi era criar
empresas de fachada, emitir debêntures e transferir os recursos por uma teia de
fundos de investimento que, ao final, voltavam para si mesmo, seus familiares e
sócios. A CVM percebeu isso ainda em 2019, mas tudo acabou em um acordo, com
multa e termo de compromisso, sem que o crime fosse notificado às autoridades.
Vorcaro, como ficou claro, não parou por aí.
Tivesse a CVM sido mais diligente, o rombo que o empresário causou teria sido
menor, o que exige certa autocrítica do chamado xerife do mercado de capitais
para revisitar seus processos, de forma a impedir que essas práticas se
repitam. Não parece ser o caso, e é nesse contexto que se insere Otto Lobo, que
assumiu a presidência interina da CVM em julho do ano passado após a repentina
renúncia de João Pedro Nascimento – que alegou “razões pessoais”, mas aparentemente
não resistiu a pressões políticas e outras ameaças em meio ao caso Ambipar e o
escândalo do Master.
Aos senadores, Lobo disse ter havido uma
“incompreensão muito grande” sobre o caso, pois, enquanto diretor, cabia a ele
“julgar processos”, e não supervisionar nem fiscalizar a empresa. O fato é que
sua atuação foi decisiva.
Em tempos normais, essas suspeitas bastariam
para que o nome de Lobo fosse substituído pelo Palácio do Planalto. Mas não
vivemos tempos normais.
O ex-presidente da Câmara Ulysses Guimarães
costumava dizer que “jabuti não sobe em árvore”. Logo, se o animal está lá, ou
foi por enchente ou mão de gente. Ninguém no Executivo e no Legislativo pode
alegar desconhecimento sobre os antecedentes de Lobo, razão pela qual não se
pode condenar quem veja aí um indício de operação abafa no caso Master.
Dinheiro em troca de votos
Por O Estado de S. Paulo
Em busca do apoio de taxistas e motoristas de
aplicativo, governo Lula recorre a crédito subsidiado
O governo Lula perdeu o pudor que ainda
restava ao lançar, nesta semana, o Programa Move Brasil Táxi e Aplicativos,
para facilitar a compra de automóveis por taxistas e motoristas de aplicativo.
A cinco meses da eleição, o Executivo anunciou condições mais que generosas
para um público sabidamente avesso ao petista adquirir veículos de até R$ 150
mil, com juros subsidiados, prazo de até seis anos e carência de inacreditáveis
seis meses – ou seja, o pagamento do financiamento, convenientemente, só começa
no ano que vem.
As taxas de juros, supostamente, seriam
definidas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), mas o presidente do BNDES,
Aloizio Mercadante, antecipou-se ao anunciar que elas serão de 12,6% para
homens e de 11,5% para mulheres. Entre 1,2 milhão e 1,4 milhão de motoristas
podem ser alcançados.
O pretexto da iniciativa, segundo a exposição
de motivos que acompanha a medida provisória, é “mitigar os impactos econômicos
causados pela continuidade dos conflitos no Oriente Médio” e “promover a
renovação de frota com o uso de fonte de energia mais sustentável”. Balela. É
apenas a demonstração de força da máquina pública atuando em favor de um
presidente que tem pouco tempo para reverter o mau humor do eleitorado.
No mês passado, o governo já havia lançado
iniciativa semelhante para o financiamento de caminhões, ônibus e implementos
rodoviários, com orçamento de R$ 21,2 bilhões. Se depender de Lula, também
haverá dinheiro barato para financiar motos novas. Por enquanto, os
motociclistas já se livraram de ter de fazer um curso teórico para se tornarem
entregadores e da idade mínima de 21 anos para exercer a atividade.
Os bancos não reclamaram, pois as linhas
contam com garantia do Programa Emergencial de Acesso a Crédito do Fundo
Garantidor para Investimentos (Peac-FGI) em caso de calote. As montadoras
comemoraram e só ficariam mais satisfeitas se o governo tivesse acatado o
pleito de proibição de compra de veículos importados, cuja participação no
mercado interno é cada vez maior.
Só quem deve estar preocupado é o Banco
Central (BC), que tem sido pressionado a acelerar o ciclo de redução da taxa
básica de juros, hoje em 14,5% ao ano. Há meses o Comitê de Política Monetária
(Copom) alerta, em ata, que o aumento do crédito direcionado e as incertezas em
relação à estabilização da dívida pública dificultam a desaceleração da
inflação e reduzem a potência da taxa básica de juros.
O governo, no entanto, prefere ignorar a
mensagem e os custos de sua perigosa estratégia eleitoral. Como o dinheiro do
Move Brasil é despesa financeira, ou seja, repasse a um banco público, ele não
impacta o arcabouço fiscal nem a meta de resultado primário, mas representa uma
intervenção clara na economia.
Ora, o motivo pelo qual os juros estão elevados há tanto tempo, encarecendo o financiamento de veículos, não é a guerra no Oriente Médio, que começou no fim de fevereiro, mas as despesas do governo, que gasta mais do que arrecada e precisa financiar sua dívida. Essa conta não tardará a chegar.
O inaceitável vale-tudo eleitoral
Por Correio Braziliense
A cinco meses da eleição, os parlamentares
realizaram um desserviço à nação. Contaminados por interesses imediatistas e
eleitoreiros, aprovaram medidas que corroem a lisura eleitoral e o Estado
Democrático de Direito
Em duas votações nesta semana, o Congresso
Nacional agrediu a democracia brasileira de forma ultrajante. O afrouxamento
das regras na prestação de contas dos partidos e a autorização para enviar
recursos durante o período eleitoral golpeiam o esforço em favor de processo
eleitoral mais transparente e justo.
A primeira agressão partiu da Câmara dos
Deputados. Na terça-feira, a Casa legislativa aprovou um conjunto de medidas
que, na prática, significa um liberou geral para os partidos. O Projeto de Lei
4822/25, aprovado por meio de um substitutivo do deputado Rodrigo Gambale
(Podemos-SP), estabelece uma série de benesses às legendas partidárias,
minimizando suas obrigações perante a Justiça Eleitoral e, em última instância,
à sociedade brasileira.
Entre algumas vantagens, a proposta
chancelada pelos parlamentares cria acintosas condições no tratamento do
dinheiro público. Caso os partidos tenham irregularidades na prestação de contas,
pagarão no máximo uma multa de R$ 30 mil. Esse valor é risível se considerada a
vultosa quantia de dinheiro público no caixa dos partidos para esta eleição. O
PL, dono da maior bancada no Congresso, conta com aproximadamente R$ 800
milhões. O PT vem em seguida, com algo em torno de R$ 620 milhões. E o União
Brasil dispõe de R$ 530 milhões para se lançar às urnas. A pergunta chega a ser
infantil: o que representam R$ 30 mil diante dessas fortunas?
Há mais. As legendas que estiverem com dívidas
decorrentes da eleição poderão quitar os débitos em suaves prestações por um
período de 15 anos. E não sofrerão qualquer restrição para receber mais
financiamento público para as eleições seguintes. Traduzindo em bom português:
os deputados aprovaram despudoradamente uma licença para gastar como se não
houvesse amanhã. Trata-se de um escárnio eleitoral, que custa R$ 5 bilhões à
custa do contribuinte.
O Senado Federal tampouco se fez de rogado.
Na sessão conjunta da última quinta-feira, deputados e senadores articularam a
derrubada do veto presidencial ao projeto de lei que autorizava o pagamento de
emendas parlamentares não impositivas mesmo durante o período eleitoral. Com
uma justificativa fajuta de que se tratava de defender o municipalismo, os
parlamentares garantiram a torneira aberta para despejar verbas públicas
durante a campanha. Essa aberração favorece claramente os candidatos
incumbentes — do prefeito ao presidente da República —, que poderão direcionar
verbas sem maiores restrições a redutos de todo o país. A medida prejudica
claramente o candidato que eventualmente não tenha as mesmas conexões com as
excelências de Brasília.
Note-se que as duas votações ocorridas no
Parlamento tiveram ampla adesão das bancadas. Quer dizer: quando se trata de
preservar os interesses particulares e agir em causa própria, os tais
representantes do povo superam qualquer divergência. Nesses temas, não existe
governo, oposição nem Centrão. Estão todos unidos, como se viu no ano passado
na repugnante PEC da Blindagem, notória excrescência aprovada na Câmara e, por
sorte, barrada no Senado.
A cinco meses da eleição, os parlamentares
realizaram um desserviço à nação. Contaminados por interesses imediatistas e
eleitoreiros, aprovaram medidas que corroem a lisura eleitoral e o Estado
Democrático de Direito. Para esses, convém alertar: ataques à democracia não
são obra apenas de extremistas. Resultam também da ação daqueles que ignoram
princípios republicanos e utilizam o dinheiro do contribuinte para projetos
pessoais e a política miúda.
Em resposta ao ultraje aprovado pelo Parlamento em favor da sanha por votos na eleição de outubro, é obrigação da Justiça Eleitoral e dos órgãos de controle serem rígidos na fiscalização do processo das urnas. O vale-tudo eleitoral já foi acionado no Parlamento. É preciso conter essa vergonha nacional.
Ceará 2050: metas cumpridas e vigilância
Por O Povo (CE)
Cerca de 80% das metas de desenvolvimento
econômico do plano Ceará 2050 já foram concluídas. A declaração foi feita pelo
secretário do Planejamento e Gestão do Ceará, Alexandre Cialdini, em matéria
publicada pelo O POVO nesta semana.
A ideia do documento é dobrar o PIB estadual
no prazo de 30 anos. Conforme o Governo, o Ceará 2050 se trata de um plano
estratégico de desenvolvimento de longo prazo que busca traçar diretrizes e
metas para o desenvolvimento sustentável, com redução de desigualdades sociais
e regionais.
O cumprimento das metas precisa ser destacado
à medida que precisam ser avaliados os objetivos a serem alcançados. É preciso
ressaltar que o plano Ceará 2050, conforme foi desenhado desde o começo, é um
plano estratégico de desenvolvimento de longo prazo com previsão na
Constituição Estadual do Ceará.
O plano funciona, na verdade, como um grande
"pacto" entre o governo, a academia, a iniciativa privada e a
sociedade civil a fim de orientar o crescimento econômico e melhorar a
qualidade de vida nas próximas décadas. Ele foi estruturado com o intuito de
pensar o Ceará para além de gestões políticas pontuais, garantindo
previsibilidade e continuidade de políticas públicas.
Segundo divulgado pelo Governo, os principais
pilares e características do plano são o foco no futuro, a gestão de serviços
públicos e a participação cidadão. A partir do foco no futuro, a ideia é que o
plano seja pensado, de modo estratégico, a fim de acelerar o crescimento
econômico e modernizar áreas como inovação, tecnologia e sustentabilidade.
Também tem como meta assegurar mais eficiência e qualidade em setores
essenciais, como saúde, educação, segurança pública e abastecimento de água.
Ademais, a participação cidadã é sempre citada como basilar quando se fala no
Ceará 2050 - um processo baseado na escuta ativa e na realização de pesquisas e
encontros nas diversas regiões de planejamento do Estado, garantindo uma visão
democrática.
Desse modo, é louvável que o percentual de
80% tenha sido atingido, porque as ações, da maneira como foram pensadas,
independem de quem está no Governo. O plano foi pensado a partir de ações que
sejam de Estado, não restritas ao teor ideológico de quem estiver no comando
das ações, já que os principais beneficiados devem ser os cidadãos.
Segundo Cialdini, acerca das entregas que
faltam, que correspondem a 20% do planejamento, trata-se principalmente de
obras relacionadas à educação em tempo integral e à ferrovia Transnordestina.
Assim, faz-se importante manter o acompanhamento das ações, reforçando sempre a vigilância e a fiscalização necessárias a fim de observar o cumprimento restrito das ações planejadas.

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