Lei que redistribui royalties do petróleo é inconstitucional
Por O Globo
Ao julgar caso, Supremo tem de manter liminar
que suspendeu legislação aprovada em 2012
O Supremo Tribunal Federal (STF) planeja julgar nesta semana a liminar da ministra Cármen Lúcia que suspendeu, em 2013, a Lei 12.734/2012, sobre a distribuição de royalties e participações especiais auferidos com a exploração de petróleo e gás natural. Trata-se de lei flagrantemente inconstitucional. Não tem cabimento estados que não produzem petróleo quererem confiscar parte dos royalties pagos aos produtores. O parágrafo primeiro do artigo 20 da Constituição é cristalino ao dizer que royalties são uma compensação financeira aos entes federativos pela exploração “no respectivo território, plataforma continental, mar territorial ou zona costeira exclusiva”. É inconcebível que a população dessas regiões arque com os riscos e danos intrínsecos à atividade sem ser devidamente compensada.
De um lado, estão a Confederação Nacional de
Municípios e 19 unidades da Federação (em sua maioria não produtoras)
favoráveis à redistribuição. De outro, estados produtores que rejeitam as
mudanças. Em sua liminar, Cármen afirmou que o direito destes últimos “decorre
de sua condição territorial e dos ônus que têm de suportar ou empreender pela
sua geografia e de assumir em sua geoeconomia, decorrentes daquela exploração”.
A compensação financeira se justifica também porque, pela Constituição, o ICMS
sobre petróleo e gás não é cobrado na origem, mas no destino, impondo
necessariamente perdas aos produtores.
Tal entendimento deveria estar claro para
todos, mas a demagogia e o oportunismo político, em meio à euforia pela
exploração do pré-sal, levaram o Congresso a alterar os critérios de
distribuição dos recursos em 2012, reduzindo o percentual de estados e
municípios produtores e ampliando o de não produtores. Para corrigir o que
alega ser uma distorção na distribuição, a lei usa critérios do Fundo de
Participação dos Estados, já declarados inconstitucionais pelo próprio Supremo.
De pouco adianta seus defensores quererem
dourar a proposta abdicando dos valores que deixaram de ser repassados entre
2013 e 2025, abrindo mão da inclusão da Margem Equatorial ou alegando que os
novos percentuais seriam aplicados de forma escalonada. Trata-se tão somente de
confisco de direito legítimo dos estados produtores. Se a lei for mantida, o
impacto será colossal. No Rio, estado responsável por 88% da produção de óleo
no Brasil, os royalties representam 22% da arrecadação. As perdas podem chegar
a R$ 8 bilhões por ano para o estado e a R$ 13 bilhões para os municípios. A
mudança afetará o pagamento de servidores públicos e os serviços à população,
em especial a segurança.
Os efeitos da exploração não se limitam ao
risco maior de acidentes ou poluição. A exploração na Bacia de Campos, ao mesmo
tempo que gerou arrecadação maior no Norte Fluminense, provocou explosão
populacional, favelização e aumento da violência. A população de Macaé saltou
de 132.461 habitantes em 2000 para 246.391 em 2022. Como atender mais gente sem
dispor de mais recursos?
A lei afronta dispositivos constitucionais,
gera insegurança jurídica, conspira contra o equilíbrio federativo e pode gerar
impactos gravíssimos — e irreparáveis. Ao se debruçar sobre o caso, o plenário
do Supremo precisa reafirmar o entendimento mantido durante os anos em que
permaneceu suspensa. O melhor a fazer é aproveitar a oportunidade para enterrá-la.
Usinas reversíveis são caminho para matriz
energética ainda mais limpa
Por O Globo
Projetos em que parte da água é bombeada de
volta ao reservatório permitem estocar energia
O Brasil é conhecido por contar com matriz
energética limpa, mas ainda pode avançar nessa área. Um caminho para isso é a
regulação e desenvolvimento de projetos de usinas hidrelétricas reversíveis, em
que o excesso de energia gerada
é usado para bombear parte da água de volta ao reservatório depois de passar
pelas turbinas. Usinas reversíveis podem funcionar, na prática, como se fossem
baterias. Pelas contas da Associação Brasileira dos Geradores de Energia
(Abrage), elas poderiam aumentar em 15% a potência instalada do país.
Elas podem ser importantes no estágio atual
do setor elétrico. “Nos últimos dez anos, diversificamos nossa matriz
energética. O mundo mudou, a matriz mudou e a expansão também, por meio de
usinas eólicas e solares, que não entregam capacidade de gerar o tempo todo”,
diz Marisete Dadald Pereira, presidente da Abrage. “Agora é preciso colocar
mais recursos tanto em potência quanto em flexibilidade. O armazenamento vem
para isso.”
Existem apenas três usinas reversíveis em
funcionamento no país, duas no Estado de São Paulo (Pedreira e Traição), uma no
Rio de Janeiro (Vigário) — embora nem essas operem todo o tempo como
reversíveis. As usinas paulistas podem bombear água do Rio Pinheiros para a
Represa Billings, que ajuda no abastecimento de São Paulo e gera energia pela
hidrelétrica Henry Borden, em Cubatão. Para garantir a qualidade da água, a
operação só é permitida em períodos de cheia do rio, de modo a minimizar a
contaminação da Billings pela poluição do Pinheiros.
Devido a mudanças no clima, com grandes
variações no regime de chuvas, têm surgido diversos projetos para estocar
energia, e as usinas reversíveis são vistas como uma das soluções possíveis.
Elas apresentam algumas vantagens sobre as baterias químicas conhecidas pela
sigla BESS (Battery Energy Storage System). Uma delas é o tempo de vida útil.
Enquanto uma usina reversível pode operar normalmente por 80 a cem anos, uma
BESS guarda energia por apenas 15 anos. As duas tecnologias não são
incompatíveis. Nada impede que haja usinas reversíveis e também parques de
baterias.
O crescimento da geração eólica e solar,
fontes intermitentes, criou dificuldades para a operação do sistema no Brasil.
Quando a geração atinge picos, é preciso cortá-la (procedimento conhecido como
curtailment) para evitar instabilidade e apagões. A energia desperdiçada
poderia ser usada pelas usinas reversíveis no bombeamento da água. Usinas
reversíveis também poderiam ser acionadas em momento de picos de demanda,
complementando as termelétricas e contribuindo para que a matriz energética se
torne ainda mais limpa.
O Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) aprovou no início do mês resoluções dando início à licitação de novas usinas reversíveis usando reservatórios já existentes. Há, ainda, a alternativa de criar pequenas usinas, em parte subterrâneas. A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) já fez estudos sobre o assunto. Quanto mais rápido forem implementados, melhor.
Cresce risco global de escassez de
combustíveis
Por Folha de S. Paulo
Impacto da guerra no Irã pode não se limitar
ao aumento dos preços do petróleo e da inflação
Agências veem maior choque de oferta da
história; governo brasileiro previa subsídios que seriam nocivos em caso de
falta de produtos
Países e empresas procuram estimar o risco de
escassez ampla de petróleo e
derivados, que já é real em países mais pobres da Ásia e
da África.
Mais do que lidar com combustíveis caros devido à guerra de Estados
Unidos e Israel contra
o Irã,
contempla-se a possibilidade crescente de que faltem produtos.
O problema não pode ser administrado por meio
de subsídios. Ao contrário, o controle de preços agravaria os danos causados
pela restrição de oferta. O alerta vale também para o Brasil.
As cotações aumentaram já o bastante de modo
a contratar altas de inflação, afetar taxas de juros e diminuir estimativas de
crescimento para quase o mundo inteiro. A cotação do barril Brent no mercado
futuro foi em média de cerca de US$ 67 em janeiro e de US$ 71 em fevereiro,
antes do início da guerra no Oriente Médio;
em abril, esteve em US$ 101.
Apesar das altas, o mercado não parece
refletir o que instituições como a Agência Internacional de Energia e o Banco
Mundial têm chamado de maior choque de oferta da história.
Em março de 2022, mês seguinte ao da invasão
da Ucrânia pela Rússia, o preço médio do Brent foi a US$ 115; em junho, a US$
120. Mas a perda estimada de abastecimento com a restrição a vendas russas
equivalia a um sexto dos combustíveis que eram exportados regularmente
pelo estreito de
Hormuz, entre o Irã e Omã.
Segundo o "Perspectivas para o Mercado
de Commodities" do Banco Mundial, de abril, a redução da oferta mundial de
petróleo em março foi de 10 milhões de barris por dia (para um consumo estimado
de pouco mais de 100 milhões diários).
É o saldo de perdas de exportação pelo Golfo
e de compensações como petróleo escoado por oleodutos da região e pequenos
aumentos de produção no restante do mundo. A situação somente não é pior por
causa de alguma redução da demanda.
Estoques devem sustentar o consumo até meados
do ano, diz o relatório do Banco Mundial. Mas outros analistas alertam para o
risco de falta de certos produtos, como diesel, querosene para aviões e gás,
que pode ocorrer em quatro a oito semanas, dado o fechamento de Hormuz.
Em seu cenário básico, o Banco Mundial prevê
para este maio o "fim da fase mais aguda das perturbações", com
normalização a partir de outubro. Nesse caso, o custo médio
de commodities de energia aumentaria em 24% em 2026. O preço do
Brent ficaria em US$ 86 na média do ano (e também em dezembro), ante previsão
de US$ 60 em janeiro.
Tudo ainda depende da duração do bloqueio de
Hormuz e do tamanho dos danos às instalações produtivas da região.
O governo brasileiro previa subsídios por um
trimestre. Bancar com receita de impostos ou perdas da Petrobras a
alta do custo não dá
conta do risco de escassez. Resta saber se Luiz Inácio Lula da
Silva (PT),
candidato a reeleição difícil, chancelaria alta de preços às vésperas da
votação.
O escudo de Milei à corrupção na Casa Rosada
Por Folha de S. Paulo
Argentino protege aliados suspeitos de malfeitos,
mesmo que isso coloque em risco a agenda econômica
O maior escândalo envolve as viagens de luxo
e a aquisição de imóveis realizadas pelo chefe de gabinete de Milei, Manuel
Adorni
A corrupção ameaça
o governo de Javier Milei na Argentina e
pode minar seu esforço para estabilizar e modernizar a economia.
Apesar do combate a privilégios de agentes
públicos ser uma das bases da construção da sua imagem e do seu governo, o
presidente ultraliberal tem poupado seu círculo mais próximo de colaboradores
maculados por suspeitas de corrupção —e a si próprio.
O maior escândalo envolve as viagens de luxo
ao exterior e a aquisição de imóveis realizadas por seu chefe de gabinete,
Manuel Adorni, sob investigação do Ministério Público e da Justiça Federal. Os
gastos seriam incompatíveis com o salário mensal de US$ 2.500 de Adorni.
Passado mais de um mês da eclosão da
denúncia, Milei não apenas mantém seu aliado no alto cargo como, na quarta
(29), o apoiou
durante sessão do Congresso na qual Adorni apenas apresentaria
um relatório de atividades do governo, mas que acabou se transformando em
interrogatório para esclarecer os sinais de enriquecimento ilícito.
Milei mostra-se indiferente ao fato de os
argentinos considerarem que a corrupção é o maior problema do país, como aponta
a pesquisa da AtlasIntel de abril. Ou, talvez, esteja disposto a pagar o preço.
Na mesma sondagem, 63% desaprovam o mandatário, e 59,3%, seu governo.
Milei também ainda não deu explicações sobre
seu envolvimento
no escândalo $Libra, em 2025. O líder do país prestara-se, no
mínimo, a servir como garoto-propaganda do lançamento dessa criptomoeda que, em
poucas horas, causou um estrago milionário aos investidores.
O assessor da Presidência, Santiago Caputo, é
considerado pessoa de interesse no caso, assim como sua irmã e braço-direito no
governo, Karina Milei. Ademais, tanto ela como o subsecretário de Gestão
Institucional da Casa Rosada, Eduardo Lule Menem, são investigados por um esquema
fraudulento de compras de medicamentos pela Andis, a agência pública
de assistência a pessoas com deficiência.
Nesse caso, porém, Milei agiu como o
esperado: rapidamente, demitiu o diretor da Andis. Sua resistência em aplicar
igual protocolo agora embute riscos à continuidade da atual agenda econômica,
cujo maior ganho foi a queda da inflação,
e a seu futuro projeto de reforma tributária.
Nada reforça mais a oposição peronista —protagonista de uma era de irresponsabilidade fiscal e descalabro econômico, além de vultosos casos de corrupção— a mover suas peças desde já para tentar sucedê-lo em 2027.
O Brasil precisa de reformas, não ruínas
Por O Estado de S. Paulo
Avanço do discurso ‘antissistema’ à direita e
à esquerda ameaça a democracia ao pregar a destruição de instituições que,
apesar de falhas, funcionam e precisam ser reformadas, não demolidas
Há algo de inquietante no espírito do tempo
político brasileiro. De diferentes matizes ideológicos, ganha força um discurso
que flerta com a ideia de que o sistema está esgotado e, por isso, mereceria
ser implodido. Esse impulso, classificado como “antissistema” e hoje em voga
tanto na retórica bolsonarista quanto em setores do lulopetismo, constitui um
risco real para a democracia. De um lado, multiplicam-se ataques demolidores ao
Supremo Tribunal Federal, distintos do necessário debate sobre sua reforma e
correção. De outro, o esforço do PT para posar como alternativa ao “sistema”
soa como deboche diante de um presidente em terceiro mandato e de um partido em
seu quinto ciclo no poder.
A pergunta elementar, raramente enfrentada
com a seriedade devida, permanece no ar e deve ser dirigida à direita
reacionária, mormente bolsonarista, à esquerda demagógica, mormente petista, e
ao Centrão fisiológico: destruir o sistema para colocar o quê em seu lugar? A
história política, no Brasil e no mundo, oferece uma resposta incômoda: a ruína
de sistemas institucionais, ainda que imperfeitos, raramente dá lugar a
arranjos mais virtuosos. Com frequência, abre caminho para aventuras
autoritárias, quando não para experiências abertamente totalitárias. O vazio
institucional não é ocupado pela virtude, mas pela força.
Em artigo recente no Valor Econômico, o cientista
político Fernando Abrucio destacou um ponto igualmente essencial: ao contrário
da narrativa catastrofista, o sistema político brasileiro não está em colapso.
Essa visão é compartilhada por analistas como Maria Hermínia Tavares de
Almeida, Carlos Melo, Marcus André Melo e Carlos Pereira, que vêm demonstrando
a funcionalidade das instituições.
Ao longo dos últimos 30 anos, construiu-se um
arcabouço que, com limitações características de regimes imperfeitos, produziu
avanços relevantes. Reformas eleitorais, mecanismos de controle, leis de
responsabilidade fiscal e instrumentos de transparência ilustram um processo
contínuo de aperfeiçoamento democrático. Não se trata de idealizar o sistema,
mas de reconhecer que ele funciona e tem resistido a crises severas.
Isso não minimiza a gravidade das
turbulências recentes. O País atravessou momentos dramáticos, com tensões entre
Poderes, ataques às instituições e tentativas explícitas de ruptura da ordem
democrática. Ainda assim, o sistema resistiu, continuou a produzir decisões,
arbitrar conflitos e garantir a alternância de poder. É precisamente essa
resiliência que desautoriza o discurso da terra arrasada. É necessário olhar a
democracia brasileira sob a perspectiva de sua saúde institucional. Democracias
maduras não são imunes a crises, mas capazes de enfrentá-las sem colapsar. O
Brasil demonstrou esse atributo. E é justamente isso que expõe a inconsistência
da agenda de aventureiros, no caso bolsonarista, e de oportunistas, no
lulopetista.
Cabe ainda a questão levantada por Abrucio:
onde estavam, em momentos decisivos para a democracia brasileira, os atores que
hoje brandem a bandeira antissistema? Como se posicionaram diante da ditadura
de 1964 ou de autocracias mundo afora? A discussão de ideias é indispensável,
mas não pode prescindir do exame das biografias. A defesa da democracia não
comporta ambiguidades.
Levar adiante uma agenda séria de
aperfeiçoamento institucional exige mais do que retórica contra adversários.
Requer independência crítica, compromisso com regras universais e disposição
para um diálogo que vá além das conveniências eleitorais. Reformas dirigidas
contra o oponente de turno ou ancoradas em demagogia não fortalecem o sistema,
e sim o corroem por dentro. Esse será um dos debates centrais da campanha
eleitoral deste ano. O Brasil não precisa de salvadores da Pátria, mas de
instituições mais eficientes, regras claras e lideranças comprometidas com o
aperfeiçoamento democrático.
Entre a reforma e a ruína, a escolha não
deveria ser difícil. Fiel à sua tradição, este jornal não tem apreço por
aventuras. Sociedades estáveis e prósperas privilegiam reformas graduais e
pactuadas. Mudanças incrementais, não rupturas, definem as democracias mais
avançadas. É assim que deve ser no Brasil.
Israel quer inviabilizar o Estado palestino
Por O Estado de S. Paulo
Limpeza étnica na Cisjordânia é desumana e
contraproducente: quanto mais Israel sabota as aspirações nacionais dos
palestinos, mais prejudica sua própria democracia e sua segurança
Um relatório do Instituto para Estudos de
Segurança Nacional, um dos principais think tanks israelenses, descreve com
linguagem técnica uma guinada que deveria alarmar qualquer aliado de Israel. O
governo promove uma mudança estrutural e conceitual na política para a
Cisjordânia, abandonando a lógica de gestão do conflito rumo à consolidação da
soberania israelense e ao bloqueio da solução de dois Estados. A estratégia de
controle permanente é ancorada em assentamentos, registros fundiários, expansão
administrativa e enfraquecimento da Autoridade Palestina. A sobriedade do
diagnóstico do instituto não diminui sua gravidade. Ao contrário: torna-a mais
difícil de descartar como propaganda adversária, como costuma fazer o governo
de Benjamin Netanyahu.
Sob a justificativa da “segurança absoluta”,
está em curso uma engenharia de dominação absoluta. O projeto é mutilar a
continuidade territorial palestina, operando como um veto geográfico à solução
de dois Estados. A legalização de postos avançados e assentamentos informais
consagra crimes em política pública. Estradas, zonas militares, registros de
terra e decisões burocráticas redesenham a Cisjordânia. Sem que Israel precise
declarar anexação formal, de jure,
está cimentando-a de facto,
através de escavadeiras, mapas e carimbos.
Mais grave é a chancela à truculência dos
colonos. Há um padrão persistente de intimidação, ataques a civis, destruição
de propriedades e expulsão indireta de comunidades rurais. A resposta estatal é
sistematicamente complacente. Não se trata de mera falha administrativa ou
prevaricação, mas de um sistema de impunidade deliberada que converte o abuso
em método.
A militarização crescente da Cisjordânia
aprofunda o processo. Recorre-se à estratégia do “dano máximo” aplicada em
múltiplos teatros em Gaza, com operações prolongadas, destruição de
infraestrutura e deslocamentos em massa. A vida civil é cada vez mais
comprimida por postos de controle, medo, incerteza fundiária e colapso
econômico. Um modelo de defesa que exige a humilhação permanente de uma
população inteira não gera segurança, só ressentimento, desespero e reservas de
recrutamento para extremistas.
A guerra em Gaza serviu de pretexto para
substituir o paradigma precário, mas legítimo, da gestão do conflito,
ambiguidade estratégica e possibilidade de uma solução de dois Estados, pelo
paradigma implícito do sionismo maximalista de sufocar aspirações nacionais
palestinas e consumar a anexação.
Nada disso absolve as lideranças palestinas.
A Autoridade Palestina é esclerosada, corrupta e incapaz de oferecer um projeto
político convincente. O Hamas infligiu aos palestinos uma catástrofe moral e
estratégica. Mas nenhuma dessas verdades justifica a política israelense. Pelo
contrário: tornam-na ainda mais irresponsável. Ao debilitar a Autoridade
Palestina, Israel destrói um dos poucos mecanismos que ainda contêm o Hamas na
Cisjordânia.
O paradoxo é brutal. Em nome da “segurança”,
Israel amplia a área que precisa defender. Em nome da “ordem”, tolera forças
que produzem anarquia. Em nome da “vitória sobre o extremismo”, desmoraliza os
palestinos moderados que poderiam oferecer alternativa aos radicais. Em nome da
“estabilização local”, ameaça a normalização das relações com os países árabes
e o apoio de aliados ocidentais.
A Cisjordânia está se tornando o laboratório
onde Israel testa uma escolha impossível: controlar indefinidamente milhões de
palestinos sem lhes oferecer cidadania plena, horizonte político ou dignidade
elementar. É um caminho estrategicamente estúpido: uma política que transforma
cada vila em ponto de fricção e cada assentamento em um foco permanente de
proteção militar não torna Israel mais seguro, apenas aprofunda e perpetua o
conflito, e ameaça sua própria democracia.
As crianças deixadas para trás
Por O Estado de S. Paulo
Indicador do Iede mostra como o Brasil ainda
está longe de honrar promessa feita à infância
O instituto Interdisciplinaridade e
Evidências no Debate Educacional (Iede), com o apoio das fundações Bracell,
Itaú, VélezReyes+, Van Leer e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID),
lançou recentemente um indicador que mede a cobertura da educação infantil no
Brasil. Vistos de cima, os dados sobre as matrículas das crianças de 0 a 5 anos
de idade transmitem a sensação de que tudo vai bem, mas não vai: a análise dos
dados revela uma persistente negligência das autoridades públicas no cuidado da
primeira infância.
Uma emenda à Constituição, de 2009, tornou
obrigatória a matrícula das crianças de 4 e 5 anos na pré-escola. E o prazo
para o País alcançar a universalização, que é um índice de matrícula acima de
95%, era até 2016. Segundo o Iede, 94,6% das crianças frequentavam a pré-escola
em 2025, o que até permitiria inferir que falta pouco para o Brasil bater a
meta.
Mas, passados dez anos, o que se vê são
desigualdades intoleráveis entre municípios, Estados e regiões. Segundo o Iede,
876 municípios brasileiros – ou 16% do total – ainda não alcançaram nem a marca
de 90% das crianças matriculadas na pré-escola. Não é exagero afirmar que mais
de 300 mil crianças vivem à margem do direito constitucional à educação
infantil.
O local de nascimento de uma criança pode
definir quem tem ou não o direito universal à educação. Enquanto no Piauí 100%
das crianças frequentam a pré-escola, no Amapá esse índice não chega a 70%.
Aliás, o Norte lidera os indicadores negativos: 29% dos municípios da região
têm menos de 90% das crianças na pré-escola.
E o Brasil tem falhado também com as crianças
de 0 a 3 anos. Estudos já provaram a importância da educação no início da
primeira infância: nessa fase, as sinapses ocorrem numa velocidade que nunca
mais será alcançada ao longo da vida. Os estímulos corretos podem determinar se
uma criança será um adulto de sucesso ou fracasso, interferindo na sua
perspectiva de escolaridade, de trabalho e de renda.
Mesmo assim, o Brasil ainda tem 81% dos
municípios com menos de 60% das crianças na creche. No Norte, esse índice chega
a 94% das cidades. E, não menos importante, o fato de a criança estar
matriculada não é garantia de bom atendimento: no Brasil, a média é de 9,1
alunos para cada cuidador, enquanto nos países da Organização para a Cooperação
e Desenvolvimento Econômico (OCDE) a média é de 4,9.
A atual realidade não autoriza otimismo. O
Brasil tem ainda um longo caminho a percorrer para que alcance a meta do Plano
Nacional de Educação (PNE) 2026-2036 de ter 60% das crianças matriculadas na
creche em dez anos.
Tudo isso é muito triste, porque a Constituição fez muitas promessas aos cidadãos: uma delas é a de que o Brasil combateria as desigualdades regionais e outra é a de que as crianças deveriam ser tratadas, pelo Estado, pela família e pela sociedade, com “absoluta prioridade”. Mas, decerto porque as crianças não votam, as autoridades públicas brasileiras decidiram não honrar o compromisso firmado com todas elas, deixando-as, assim, para trás.
Instituições estão acima das pessoas
Por Correio Braziliense
As votações da última semana explicitaram
como interesses particulares se sobrepujaram sobre o espírito das leis que
definem o ordenamento constitucional. Prevaleceram as alianças de ocasião, com
articulações feitas à sorrelfa a fim de evitar as consequências do mega
escândalo do banco Master ou a eleição para a presidência do Senado em 2027.
Poucas vezes se viu tamanho desprezo com os
princípios do republicanismo quanto nos últimos episódios protagonizados no
Congresso Nacional. Em menos de 24 horas, o Parlamento foi palco de duas
votações que representaram não somente derrotas fragorosas do governo Lula, mas
também o próprio desmantelamento do espírito público que deveria pautar as
maiores autoridades da República.
A rejeição ao nome de Jorge Messias para o
Supremo Tribunal Federal não pode ser vista sob a ótica de que o postulante não
seria apto para ocupar uma cadeira na mais alta Corte de Justiça do país. Esse
debate simplesmente não ocorreu. O advogado-geral da União foi defenestrado do
Senado Federal porque o chefe da Casa Alta sentiu-se contrariado com a escolha
feita pelo presidente da República. Trata-se de motivo menor
e ofensivo ao rito institucional que deve ser seguido no processo de
escolha de um ministro do STF.
O descompromisso com o republicanismo também
precisa ser sublinhado na própria escolha feita pelo Palácio do Planalto. Mais
uma vez, não está em questão a aptidão do indicado para o STF. Mas é um
problema incontornável presidentes da República escolherem colaboradores
próximos, como um ministro, para um cargo no qual deve prevalecer a
independência. É frágil o argumento de que, uma vez na magistratura, o novo
magistrado do Supremo teria o distanciamento necessário para julgar. Tanto que,
infelizmente, os ministros do STF têm sido identificados pelo presidente que os
indicou, em uma prova do personalismo que tem pautado processos que deveriam
ser republicanos.
O caso da dosimetria também denota a miséria
institucional que se estabeleceu nos Poderes de Brasília. A invalidação das
penas aplicadas aos envolvidos na trama golpista e nos atos de 8 de janeiro de
2023 tem um propósito casuístico e eleitoral: o objetivo é reabilitar ao máximo
possível os participantes da trama para inviabilizar as eleições de 2022 —
e o ex-presidente Jair Bolsonaro é o primeiro da fila. É assim que se destroem
as democracias: negando os crimes que foram cometidos contra ela;
desmoralizando a palavra do Supremo Tribunal Federal, o entendimento da
Procuradoria-Geral da República e a investigação da Polícia Federal;
minimizando os atos daqueles que planejaram e agiram contra o processo
eleitoral, o respeito ao voto, a vontade popular.
As votações da última semana explicitaram
como interesses particulares se sobrepujaram sobre o espírito das leis que
definem o ordenamento constitucional. Prevaleceram as alianças de ocasião, com
articulações feitas à sorrelfa a fim de evitar as consequências do
megaescândalo do Banco Master-BRB — inclusive sobre integrantes do Supremo
Tribunal Federal — ou pavimentar a eleição para a presidência do Senado em
2027.
Indivíduos não são maiores do que instituições. E interesses pessoais não podem sabotar o interesse público. Entre vencedores e derrotados, a democracia é que perde mais.
O desafio da pré-escola no Brasil
Por O Povo (CE)
Ter 876 municípios com menos de 90% de
atendimento e cerca de 329 mil crianças fora da pré-escola é um desafio enorme
para o País. Também triste é constatar que, em número de municípios, o Nordeste
é a região com mais cidades abaixo da faixa de atendimento da etapa
A matrícula em unidades de educação infantil
a partir dos 4 anos de idade, a pré-escola, é obrigatória desde 2013 no
Brasil, mas ainda não foi universalizada em todo o País. Apenas quatro capitais
atingiram o índice de universalização em relação a crianças de 4 e 5 anos. Isso
significa que ainda há crianças fora da escola.
Belo Horizonte (MG), Curitiba (PR), São Paulo
(SP) e Vitória (ES) já conseguiram universalizar o atendimento de crianças de 4
e 5 anos em unidades de educação infantil. O dado foi elaborado pelo instituto Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede) em
parceria com as fundações Bracell, Itaú, Van Leer e VélezReyes+, além do BID.
A legislação brasileira reduziu, desde 2013,
a idade de escolarização obrigatória de 6 para 4 anos. De acordo com a mesma
pesquisa, Maceió (AL) é a capital com pior desempenho e atende a
apenas 64,8% das crianças. Ou seja, mais de 30% dos alunos de 4 e 5 anos estão
fora da escola. Pela ordem, as demais cidades com os índices mais baixos de
atendimento, depois de Maceió, são Macapá (AM), com 71,4% e, João Pessoa (PB),
com 73,4%.
Além disso, em 16% dos municípios, ou seja,
876 cidades brasileiras, pelo menos uma em cada dez crianças de 4 e 5 anos não
frequenta creches ou pré-escolas. Ao serem analisadas as regiões nas quais
esses municípios estão localizados, essas desigualdades são perceptíveis de
forma ainda mais evidente.
Na Região Norte, 130 municípios (29%)
têm menos de 90% das crianças matriculadas na educação infantil. No Centro-Oeste são
99 municípios (21%). No Nordeste são 304 (17%) e, no Sudeste,
213 (13%). O menor percentual é no Sul, com 11% dos municípios com menos
de 90% das crianças de 4 a 5 anos fora da escola.
Importante especificar que esse novo
indicador do Iede mede o atendimento à educação infantil em nível
municipal, com atualização anual, permitindo acompanhar o acesso de crianças às
creches (até 3 anos) e pré-escolas (4 e 5 anos) em todo o Brasil. O referido
cálculo é baseado, segundo os organizadores, no cruzamento dos dados de
matrículas do Censo Escolar com projeções populacionais do IBGE.
É lamentável que o Brasil ainda esteja
contando crianças fora da escola. Ter 876 municípios com menos de 90% de
atendimento e cerca de 329 mil crianças fora da pré-escola é um desafio enorme
para o País. A quantidade de crianças que não frequentam essa etapa é
extremamente significativa, principalmente se considerada sua importância para
o desenvolvimento do ser humano em várias instâncias - cognitiva,
social e emocional, por exemplo.
Também triste é constatar que, em número de municípios, o Nordeste é a região com mais cidades abaixo da faixa de atendimento da etapa. Faz-se necessária, portanto, uma análise cuidadosa a fim de amainar os efeitos da desigualdade, caracterizando um país de contrastes quando ao atendimento na pré-escola.

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