Discursos farsescos de Lula e Flávio
Por Folha de S. Paulo
Petista posa de antissistema, e filho de
Bolsonaro renega ajuste fiscal discutido com empresários
É provável que radicalismo e moderação venham
a ser apresentados conforme as conveniências, sobretudo ao tratar das contas públicas
Com índices de aprovação frágeis, más
notícias nas pesquisas de intenção de voto e uma derrota histórica em sua
indicação para o Supremo Tribunal Federal (STF), Luiz
Inácio Lula da
Silva (PT)
abraçou o populismo em seu
pronunciamento por ocasião do Dia do Trabalho.
"Cada vez que damos um passo adiante
para melhorar a vida do povo brasileiro, o sistema joga contra. O andar de
cima, os bilionários, a elite que só pensa em manter privilégios às custas do
povo. Se dependesse do sistema, nem a escravidão teria sido abolida no
Brasil", discursou.
Parece cômica a retórica antissistema vinda
de um político com o histórico de Lula —em seu terceiro mandato presidencial
graças à anulação pelo Supremo Tribunal Federal, por questões formais, de suas
condenações por relações promíscuas com grandes empreiteiras. Mas a escolha da
palavra não é por acaso.
Duas semanas atrás, falando em um evento de esquerda na Espanha, o petista reclamou da perda da bandeira antiestablishment para a ultradireita. "Nós nos tornamos o sistema. Por isso, não surpreende que, agora, o outro lado se apresente como antissistema", disse, conforme reportou O Estado de S. Paulo.
É notável que, entre uma declaração e outra
do líder, o PT tenha realizado um congresso em que mostrou o objetivo de evitar
polêmicas e atrair setores do centro político. Afinal, se discursos radicais
inflamam seguidores fiéis, a disputa presidencial pode ser decidida, mais uma
vez, por eleitores avessos à polarização.
Cálculo semelhante é feito nas hostes
de Flávio
Bolsonaro (PL), hoje empatado com
Lula nas simulações de segundo turno —e empenhado na missão inglória de parecer
mais moderado que o pai condenado por tentativa de golpe de Estado.
Flávio embarca no golpismo paterno ao lançar
dúvidas sobre a lisura do processo eleitoral brasileiro em um evento extremista
nos Estados Unidos, mas por aqui procura parecer um candidato responsável ao
discutir com empresários propostas
para reformas fiscais vigorosas em 2027, como noticiou a Folha.
Nem isso, porém, ele se dispõe a defender
abertamente, por temer que ideias como interromper o aumento acima da inflação
do salário
mínimo e dos gastos com saúde e educação lhe
custem votos. Ao que parece, pretende prometer reequilíbrio orçamentário sem
detalhar medidas difíceis, como na proverbial omelete sem quebra de ovos.
Não espantam os malabarismos retóricos numa
corrida em que os líderes na preferência dos votantes são também campeões em
rejeição. É provável que radicalismo e moderação venham a ser apresentados
conforme as circunstâncias e conveniências, sobretudo ao tratar do imperativo
ajuste das contas públicas.
Perdem os eleitores, aos quais serão
oferecidos, em vez de opções programáticas, discursos farsescos —e, muito
possivelmente, um governo tumultuado.
O cenário complexo diante dos bancos centrais
Por Folha de S. Paulo
Americano Fed e congêneres optam por manter
juros inalterados devido aos riscos inflacionários da guerra
Nos EUA, a política fiscal expansionista de
Trump aguça a demanda para além do ciclo de investimentos em inteligência
artificial
A esta altura, é ocioso apontar que a guerra
no Oriente Médio turvou
o cenário econômico mundial que se anunciava positivo neste 2026. O aumento do
custo de energia elevou os riscos de inflação e
mudou a conduta dos principais bancos centrais, que até então planejavam cortar
seus juros.
É o caso do americano Federal Reserve,
que decidiu
manter a taxa básica entre 3,5% e 3,75% ao ano na reunião da
semana passada, com a justificativa da inflação
elevada pelo choque de oferta, ainda num contexto de solidez da
atividade econômica.
O diagnóstico é compartilhado por alguns de
seus principais congêneres, que também optaram por não alterar o custo do
dinheiro, casos do Banco Central Europeu,
do Banco da Inglaterra, do Banco do Canadá e do Banco do Japão.
Diante das crescentes incertezas globais
provocadas pela guerra no Irã, as
autoridades monetárias priorizam neste momento a vigilância sobre a inflação.
Os mercados de energia ilustram bem os
riscos. Na semana passada, os preços do petróleo Brent
atingiram as máximas desde o início do conflito, superando US$ 126 por barril
em determinados momentos.
As estimativas para o segundo semestre
apontam cada vez mais para cotações acima de US$ 90, diante da possibilidade de
disrupções prolongadas. O impacto se espalha pela cadeia de derivados, elevando
os preços de insumos industriais em cascata.
Além da guerra, há fatores que sugerem baixo
risco recessivo por ora e que podem amplificar as pressões inflacionárias.
Nos Estados
Unidos, a política fiscal expansionista do governo Donald Trump,
com pacote de cortes de impostos, aguça a demanda na economia para
além do ciclo de investimentos em inteligência artificial. Na Europa,
os gastos com rearmamento e infraestrutura fazem o mesmo.
Não surpreende, portanto, que o comitê
do Fed tenha
registrado incomum dissenso na decisão. Três membros se posicionaram contra a
sinalização de afrouxamento da política monetária, defendendo uma visão dos
riscos que inclua a possibilidade de elevação de juros caso a inflação não
retorne à meta de 2%.
O cenário, de fato, é de complexidade excepcional. A interrupção do fornecimento de energia pode trazer escassez de insumos. Já a geopolítica e a corrida tecnológica apontam para um dinamismo econômico persistente, a despeito das incertezas. Não por acaso, os mercados globais de ações operam nas máximas históricas, mesmo em meio à guerra.
Justiça Eleitoral tem de vetar candidaturas
ligadas ao crime
Por O Globo
Diversos episódios recentes expuseram
tentativas de infiltração das organizações criminosas no Estado
A tentativa de infiltração das organizações
criminosas nas instituições da República deve ser uma das principais
preocupações em relação às eleições de outubro. A Justiça
Eleitoral tem de estar preparada para filtrar os milhares de
candidatos ao Legislativo, tanto em nível estadual quanto federal, ou mesmo ao
Executivo. As duas maiores facções criminosas do país, Primeiro Comando da
Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV), operam em escala nacional e têm ampliado
suas conexões políticas. É essencial barrar esse movimento, que tem se tornado
mais evidente numa série de episódios recentes.
O deputado estadual TH Joias se elegeu como
suplente pelo MDB, assumiu assento na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) e o
manteve até serem descobertas suas conexões com o CV. Foi preso e cassado. O
episódio expôs também o então presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar (União) —
ele perdeu o mandato e permanece preso, sob a acusação de ter alertado TH Joias
sobre a operação da PF que o prenderia.
Em São Paulo, uma operação conduzida em abril
de 2024, antes da última eleição municipal, pelo Grupo de Atuação Especial de
Combate ao Crime Organizado, do Ministério Público (MP), e pela PM resultou na
prisão de três vereadores da Região Metropolitana e da Baixada Santista,
acusados de ligações com o PCC. De acordo com as acusações, eles estavam
envolvidos em licitações públicas de interesse do PCC. Queriam se reeleger, mas
não conseguiram.
Na semana passada, uma nova operação liderada
pela Polícia Civil paulista resultou na prisão de um ex-vereador de Santo
André, também acusado de manter conexões com o PCC. Foram expedidos mandados de
busca e apreensão na capital, em Ribeirão Preto, Guarulhos, Santo André,
Mairinque, Campinas e Santos, além de Goiânia, Brasília e Londrina. A fintech
4TBank era usada para lavar dinheiro da facção.
Ações de facções criminosas ou milícias para
atuar no mundo bilionário das licitações públicas têm de ser reprimidas. Já
existe experiência acumulada na abordagem do problema por parte da Justiça Eleitoral,
como afirmou ao GLOBO o presidente do Tribunal Regional Eleitoral do Rio
(TRE-RJ), Claudio de Mello Tavares. Foi criado em março um grupo de trabalho
permanente com a participação de Ministério Público, polícias Federal, Civil e
Militar, Comando Militar do Leste e secretarias estaduais de Segurança e
Administração Penitenciária. Ele produzirá relatórios de inteligência sobre
candidaturas que demonstrem “indícios robustos de vínculo com grupos
criminosos”.
Nas eleições municipais de 2024, foi aplicado
pela Justiça Eleitoral o entendimento de que esses “indícios robustos” podem
levá-la a não conceder registro de candidatura mesmo a quem não esteja
enquadrado na Lei da Ficha Limpa, que veta candidatos com condenação na segunda
instância. Foi o caso de um vereador de Belford Roxo (RJ) que tentava a
reeleição. Por ser ligado a uma milícia, o TRE-RJ rejeitou sua candidatura, e a
decisão foi confirmada pelo Tribunal Superior Eleitoral. É necessário que esse
tipo de entendimento seja estendido pelos TREs a todo o país para evitar que o
crime organizado continue a tentar se apoderar das instituições. A Justiça
Eleitoral deve analisar com o maior rigor os pedidos de registro de
candidaturas Brasil afora.
Expansão do carro elétrico requer mais postos
de recarga e mais segurança
O Globo
Rede de eletropostos ainda deixa a desejar —
e veículos se tornaram os mais visados em furtos e roubos
O aumento na circulação de carros elétricos e
híbridos no Brasil acompanha uma bem-vinda tendência mundial. Eles são mais
silenciosos e menos danosos ao meio ambiente. Embora ainda representem em torno
de 1% da frota de automóveis — dominada por motores a combustão movidos a
gasolina, diesel ou etanol —, o crescimento é inexorável, dado o barateamento
das baterias e a volatilidade ainda associada ao preço do petróleo. O país deveria
se preparar para essa nova realidade, oferecendo infraestrutura e segurança.
Nos três primeiros meses do ano, houve
crescimento de 90% na venda de eletrificados no Brasil, na comparação com o
mesmo período de 2025. Mas a infraestrutura não acompanha essa expansão. Como
mostrou reportagem do GLOBO, até o fim de fevereiro havia 21 mil eletropostos
no país, em média um ponto de carregamento para quase 30 veículos. Na China,
que tem a maior frota de eletrificados no mundo (40 milhões), há 16,7 milhões de
eletropostos, um ponto para 2,3 automóveis.
A distribuição dos pontos de carregamento
também é desigual. Cerca de 80% ficam no Sudeste. Além disso, a maior parte
desses equipamentos é lenta (leva de uma hora e meia a duas horas para
completar uma bateria vazia). Os carregadores mais modernos podem levar até 30
minutos, mas custam mais de R$ 500 mil. Há dificuldades também para carregar
veículos nos condomínios. Obstáculos como esses têm levado motoristas a optar
por híbridos, que funcionam também com combustíveis fósseis.
Em São Paulo, que reúne a maior frota de
carros eletrificados do país (85 mil), o estado fez bem em sancionar uma lei
estabelecendo regras para instalação de estações de recarga em edifícios
residenciais e comerciais. Pela lei, o condomínio não pode impedir a
instalação, mas existem normas a seguir, especialmente para prevenir incêndios.
Seria desejável que outros estados trilhassem o mesmo caminho.
A segurança também merece atenção, uma vez
que esses carros têm atraído os olhares dos bandidos. No estado do Rio, roubos
e furtos de veículos elétricos e híbridos cresceram 144% nos três primeiros
meses do ano em comparação ao mesmo período de 2025. A cada dia são registradas
quatro ocorrências. Quando são considerados veículos de todos os tipos, o
aumento foi de 18%. A alta tem impacto no preço do seguro. A tendência, segundo
a polícia, pode ser explicada não só pela inclinação dos traficantes à ostentação,
mas também pela comodidade de carregar os automóveis dentro das favelas, sem
necessidade de ir a postos.
A despeito das dificuldades, parece claro que a eletrificação da frota é caminho sem volta. Estudo da Bright Consulting estima que os elétricos e híbridos somem 1,4 milhão até 2030, mais que o dobro dos atuais 628 mil. Não resta alternativa a não ser se adaptar. No mínimo, é preciso aumentar a oferta de eletropostos e garantir ao cidadão que possa rodar em segurança, independentemente da tecnologia de seu automóvel.
Para o PT, o futuro é o passado
Por O Estado de S. Paulo
Manifesto divulgado no congresso do partido
recicla a retórica da ‘herança maldita’ e subordina o discurso de futuro ao
objetivo central do lulopetismo: garantir a reeleição de Lula
Aprovado no 8.º Congresso Nacional do PT, sob
aplausos de sua ao mesmo tempo assustada e tinhosa militância, o manifesto do
partido foi apresentado como uma bússola para o País. Nada mais petista do que
o que se viu naquele encontro, realizado em Brasília. O documento tem título
curioso – “Construindo o futuro” –, ao projetar-se para adiante enquanto
revisita longamente o passado sob domínio da legenda. Combina, de forma
previsível, o triunfalismo em torno do que Lula teria realizado com o alerta de
tom sombrio sobre o que pode nos acontecer caso ocorra o que, para a
companheirada, seria impensável: sua derrota em outubro. Fala em longo prazo
com retórica inflamada, mas permanece preso ao curtíssimo prazo – a reeleição do
presidente. O futuro, aqui, não passa de um nome elegante dado a uma
necessidade imediata.
A leitura do manifesto não tarda a revelar o
roteiro conhecido. Logo de saída, o PT se entrega ao que sabe fazer como
poucos: um longo, minucioso e quase obsessivo arrazoado comparativo entre o
terceiro mandato de Lula e a gestão de Jair Bolsonaro. Páginas e páginas são
dedicadas a reiterar a velha cantilena de que o País foi entregue em
frangalhos, devastado, destruído, uma terra arrasada que só agora estaria sendo
reconstruída sob a liderança iluminada do lulopetismo. Há, evidentemente, fatos
que não podem ser ignorados. O governo Bolsonaro promoveu desmontes relevantes,
sobretudo em educação, ciência e meio ambiente, com custos reais. Também é
justo reconhecer resultados pontuais do atual governo. Mas nada disso autoriza
o exagero de pintar o Brasil pré-2023 como cenário apocalíptico.
É nesse ponto que emerge o velho vício
petista, cultivado desde 2003 como tradição: a “herança maldita”. A lógica é
simples. Se o governo vai bem, o mérito é do PT; se vai mal, a culpa é sempre
do antecessor. Foi Fernando Henrique Cardoso ontem, é Jair Bolsonaro hoje, será
qualquer outro amanhã. Trata-se de um expediente tão repetido que já não
convence além dos convertidos. Ao recorrer mais uma vez a essa muleta retórica,
o partido revela menos sobre o passado que critica e mais sobre o presente que
tenta justificar.
Esse padrão se completa com o maniqueísmo de
sempre. Na cosmologia petista, o mundo segue dividido entre o bem (o próprio
partido) e o mal, ocupado por qualquer adversário. Não há nuances nem
autocrítica, apenas a reafirmação de uma superioridade moral que, de tanto
repetida, já perdeu eficácia. O problema é que o tempo passou. Lula está em seu
terceiro mandato, o PT acumula décadas no centro do poder, e a insistência em
se apresentar como vítima de heranças alheias soa cada vez mais deslocada. Um
governo que ainda precisa se explicar pelo passado revela, por contraste, a
dificuldade de sustentar um legado próprio.
Quando o manifesto se volta ao futuro, o
quadro pouco muda. A lista de propostas é extensa, mas familiar. Passa por
reindustrialização conduzida pelo Estado, protagonismo estatal em setores
estratégicos, planejamento econômico robusto e soberania produtiva. Tudo embalado
em linguagem atualizada, mas ancorado no repertório de sempre. É o
desenvolvimentismo clássico reapresentado como novidade. Falta-lhe, sobretudo,
concretude. Nesse vazio, cresce a impressão de que o governo Lula 3 ainda não
encontrou suas próprias marcas. Administra, reage, ajusta, mas não imprime
direção clara. Longe de dissipar essa percepção, o manifesto acaba por
cristalizá-la.
Não por acaso, o texto surgiu “amaciado”,
desidratado de temas espinhosos. Evitam-se conflitos, suavizam-se formulações,
calibram-se palavras, de modo a conciliar a grita habitual da militância do
partido enquanto seus morubixabas tentam compensar as agruras políticas do
atual mandato à construção de alianças convenientes País afora. O objetivo é
não criar ruídos desnecessários, para não comprometer o projeto central. Qual
projeto? A reeleição, naturalmente.
No fim, o manifesto cumpre o papel
involuntário de expor o esgotamento de uma fórmula e escancara a dificuldade do
lulopetismo de sair de si mesmo. O futuro que anuncia não chega a ser uma
promessa. É, quando muito, uma reprise, cuidadosamente empacotada, mas
reconhecível desde as primeiras linhas.
A Opep em xeque
Por O Estado de S. Paulo
Saída dos Emirados Árabes é desafio para o
cartel do petróleo, cujo poder de controlar preços já vinha sendo minado pela
emergência de potências produtoras como EUA, Venezuela e Brasil
Um dos principais produtores de petróleo do
mundo, os Emirados Árabes Unidos acabam de anunciar que estão deixando a
Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). O anúncio é um golpe
para a organização – um cartel liderado pela Arábia Saudita que ao longo de
décadas busca influenciar os preços do petróleo por meio da determinação de
cotas de produção.
Fundada nos anos 1960, a Opep viveu o auge de
seu poder na década de 1970. À época, havia bem menos países produtores da
commodity, o que permitiu ao cartel, em 1973, embargar o envio de petróleo aos
EUA, então altamente dependente de importações de membros da Opep.
Nos últimos anos, porém, o surgimento de
novos atores capazes de produzir volumes consideráveis da commodity foi
diminuindo o poder do cartel. Apenas nas Américas, Brasil, Guiana e EUA
converteram-se em grandes países produtores. Hoje, os EUA são os maiores
produtores mundiais de petróleo, à frente da Arábia Saudita.
Foi nesse contexto que os Emirados Árabes
Unidos resolveram retirar-se, de forma contundente, da Opep. Fora do cartel, o
país pretende ampliar sua produção para 5 milhões de barris diários até 2027.
Em 2019, o Catar já havia deixado a Opep, mas
sem causar o ruído provocado pela decisão emiradense. Pequeno produtor de
petróleo, o Catar escolheu priorizar a sua produção de gás natural.
Já a saída de um membro da estatura dos
Emirados Árabes pode levar a novas debandadas da Opep. Por ora, no entanto, a
saída não exerce impacto relevante nem sobre os preços nem sobre a produção de
petróleo, uma vez que o conflito entre EUA, Israel e Irã reduziu
significativamente as atividades produtivas de países do Golfo Pérsico, como os
próprios Emirados e a Arábia Saudita.
Contudo, se há um vencedor claro nessa
história, ele é obviamente o presidente dos EUA, Donald Trump, que inúmeras
vezes pressionou a Opep a ampliar sua produção petrolífera para que o preço da
commodity caísse.
Trump chegou a acusar a Opep de produzir
pouco petróleo para inflar os preços, ajudando a Rússia, grande produtora associada
ao cartel, a financiar sua campanha de agressão à Ucrânia. Ao romper com a
Opep, os Emirados Árabes Unidos emitem um sinal de que não estão alinhados à
Rússia, mas ao próprio Trump.
Além disso, os Emirados Árabes Unidos escalam
a disputa cada vez menos silenciosa com a Arábia Saudita pela capacidade de
liderar os países do Golfo, grupo que também inclui Irã, Iraque, Kuwait,
Bahrein, Catar e Omã.
É difícil antever as implicações dessa
rivalidade sobre o delicado alinhamento entre os países do Golfo, especialmente
os árabes. O que é certo, porém, é que a demanda por energia não para de
crescer e, a despeito do aumento considerável de fontes renováveis, o petróleo
segue sendo um ativo de grande importância em todo o mundo.
No ano passado, a Agência Internacional de
Energia (AIE) estimou que a demanda global por petróleo seguirá crescendo até
2050, revertendo previsão feita no ano anterior de que o pico do interesse por
petróleo se daria já em 2030.
Abalada pela deserção dos Emirados Árabes
Unidos, a Opep também deve preocupar-se com o aumento da produção na Venezuela,
detentora das maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo. Formalmente
membro do cartel, a Venezuela agora encontra-se sob influência direta de Trump
e certamente não se orientará pelas cotas da organização.
É verdade que o petróleo pesado venezuelano é
mais difícil de refinar que o produzido em países do Golfo. Contudo, ele se
encontra em uma região bem menos propensa a crises geopolíticas como a que se
desenrola atualmente no Estreito de Ormuz, por onde circula 20% da produção
mundial de petróleo.
A conta é simples: refinar o petróleo
venezuelano sai mais barato que depender da produção de uma região altamente
instável como o Golfo Pérsico.
Antes uma potência global por força do seu
poder regional praticamente indisputável, a Opep, que em outros tempos submetia
o mundo a seus desígnios, agora é tragada por suas disputas internas e por uma
produção de petróleo cada vez mais diversa.
Vitória da ciência brasileira
Por O Estado de S. Paulo
Pesquisadores da USP clonam porco para
transplante e põem Brasil no cenário internacional
A ciência brasileira está em festa: nasceu em
Piracicaba, no interior paulista, após quase quatro meses de gestação, saudável
e com 1,7 quilo, o primeiro porco clonado na América Latina criado para
fornecer órgãos e tecidos aos seres humanos. Trata-se de um feito sem
precedentes na área do chamado xenotransplante, a técnica de transplantes entre
espécies.
Os porcos são os animais ideais para isso:
são domesticados, reproduzem-se bem em cativeiro, têm ninhadas grandes e o
tamanho e funcionamento dos seus órgãos e tecidos são semelhantes aos dos
humanos. Promissora, a ideia é ter um plantel para atender às demandas do SUS
por rim, córnea, coração e pele.
Programar geneticamente um porco não é uma
tarefa fácil. Mas cientistas da Universidade de São Paulo (USP), liderados pelo
cirurgião Silvano Raia (pioneiro dos transplantes de órgãos no País, falecido
no dia 28 passado), pela geneticista Mayana Zatz e pelo imunologista Jorge
Kalil, superaram esse obstáculo. Foram necessários, para isso, quase seis anos
de muita dedicação, com frustrações no meio do caminho.
E essa conquista não se limita a uma jornada
que começou em 2019 e acabou em março de 2026, com o nascimento do porco: a
programação genética do animal, com a inativação de três genes que causam
rejeição, e a inserção de sete genes humanos que facilitam a compatibilidade,
decorre do conhecimento científico produzido e acumulado ao longo de décadas em
pesquisas genômicas no Brasil.
Essa clonagem, aliás, é um bom exemplo de
como as mentes brilhantes brasileiras podem ir muito longe, sobretudo quando o
setor público e a iniciativa privada juntam esforços na busca de soluções para
o bem comum.
Isso porque a pesquisa da USP contou com uma
bem-sucedida cooperação entre a instituição e uma indústria farmacêutica, promovida
pelo Programa de Apoio à Pesquisa em Parceria para Inovação Tecnológica (Pite),
da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). A EMS
patrocinou o projeto a fundo perdido. E o resultado alcançado prova que vale
muito a pena investir em ciência no Brasil.
Tudo isso projeta o País no cenário
internacional como um player científico de peso. A programação genética de um
porco para torná-lo compatível com transplante em humanos representa o
desenvolvimento e o domínio de uma tecnologia estratégica em solo nacional que
até então avançava a passos largos nos EUA e na China.
Detentor dessa tecnologia, o Brasil não
dependerá desses países, o que lhe dará, além da autossuficiência, uma
incontestável liderança regional, com a ambição de projetar São Paulo como a
capital latino-americana do xenotransplante.
E, não menos importante, dominar essa técnica
de clonagem trará ganhos às contas do SUS, responsável pelo maior programa
público de transplantes do mundo, que não dependerá de importações.
Como se vê, é a ciência brasileira a serviço da saúde pública e, mais importante, a serviço da vida. Num futuro não muito distante, esse avanço representará mais do que tecnologia: significará esperança a milhares de pacientes da fila do transplante de órgãos e tecidos no Brasil.
Dívida bruta passa de 80% do PIB, e governo
dá sinal errado
Por Valor Econômico
A guerra trará grandes ganhos com as receitas
decorrentes do aumento dos preços do petróleo, que poderão ser usados para
subsidiar gastos
A dívida bruta do governo central ultrapassou
em março, pela primeira vez desde julho de 2021, os 80% do Produto Interno
Bruto. É uma consequência lógica da inexistência, ao longo de mais de três anos
do governo Lula, de saldos positivos na conta de receitas e despesas e dos
gigantescos juros que incidem sobre débitos crescentes. Em março, o déficit foi
de R$ 80,7 bilhões, grande parte dele decorrente do pagamento, no mês, de R$
70,4 bilhões em precatórios, cuja quitação recaiu em julho no ano passado.
Precatórios são recursos injetados na economia e sua antecipação pode ser
atribuída ao esforço geral do Planalto para evitar a desaceleração do PIB em um
ano eleitoral.
O calendário eleitoral também é um óbvio
motivo para que o governo tenha antecipado para abril e maio, como já ocorreu,
o pagamento do 13º salário dos aposentados e pensionistas do INSS - são mais R$
78,2 bilhões que ingressarão na economia antes da eleição. Somados aos
precatórios, são R$ 142,6 bilhões, ou 1,1% do PIB, que poderão ter como destino
o consumo.
A piora dos resultados em março não deve
impedir o governo de fechar as contas dentro da meta fiscal, cujo piso, sempre
adotado, prevê apenas um déficit primário zero. Mas a degradação do
endividamento ganha dinâmica própria com a carga crescente de juros que incide
sobre um montante de débitos cada vez maior. De março de 2025 até março
passado, a carga de juros mensal subiu de R$ 75,2 bilhões para R$ 118,9
bilhões, segundo estatísticas do Banco Central. Em 12 meses, os encargos
financeiros atingiram R$ 1,08 trilhão, depois de terem ultrapassado a casa do
R$ 1 trilhão em dezembro. E continuam subindo.
Na dívida mobiliária interna, que corresponde
a 72% da dívida bruta total, o governo acumula taxas de 13,4% em março. Os
dados da execução do Tesouro também de março acrescentam outros números
preocupantes. O custo médio das emissões em oferta pública da dívida mobiliária
interna está subindo e passou de 13,81% em dezembro a 13,92% em março.
Como os demais consumidores e empresas, mas
com uma dívida muito maior, o Tesouro paga as maiores taxas de juros reais em
quase duas décadas, uma carga insuportável que exige um esforço fiscal
significativo para ser estabilizada. De início, o novo regime fiscal
apresentado pelo governo Lula parecia que poderia a médio prazo freá-la e
depois diminuí-la. Com a mudança das regras antes mesmo de sua vigência, o
esforço fiscal tornou-se indigente e, mesmo assim, cheio de exclusões de gastos
para fins de cumprimento da meta.
A dívida bruta deveria se estabilizar em 2028
no esquema inicial. Com o expansionismo fiscal, e o decorrente aumento dos
juros para conter seus efeitos inflacionários na economia, soou o alarme de que
o governo poderia ter de enfrentar um shutdown em 2027, pelo avanço das
despesas obrigatórias sobre as demais. O Congresso deu um providencial auxílio
ao futuro governo, evitando que a conta de precatórios voltasse integralmente
ao cômputo da meta: parcelou seu pagamento em 10 anos. Ainda assim, a dívida
bruta seguirá crescendo por todo o resto da década até pelo menos 2033.
O avanço do endividamento bruto do governo
Lula crescerá perto de 10 pontos percentuais do PIB em quatro anos, uma proeza
só realizada antes pelo governo de Dilma Rousseff. Em termos correntes, são
cerca de R$ 1,29 trilhão de acréscimo de débitos em valores de hoje. O déficit
nominal em 12 meses encerrados em março foi de 9,41%, um dos maiores do mundo.
A guerra de EUA e Israel contra o Irã teve,
entre seus efeitos negativos, o recrudescimento da inflação, que obrigou o
Banco Central a ser mais cauteloso ainda no ritmo de corte de juros. Se o
conflito não terminar logo, a taxa ao fim do ciclo de afrouxamento deverá estar
ao redor de 13%, e não os 12% estimados inicialmente (Focus), o que significa,
caso a Selic fique nesse patamar, mais R$ 57,9 bilhões em 12 meses em dívidas.
O crescimento do PIB tem ajudado a tornar menos ruim o endividamento, retirando
0,5 ponto percentual da equação, na qual é o denominador.
A guerra, porém, trará grandes ganhos com as receitas decorrentes do aumento dos preços do petróleo. Os dados da arrecadação federal de maio mostraram um acréscimo de R$ 5,7 bilhões em relação a março de 2025. No trimestre, os ganhos de receitas são mais expressivos, R$ 19,44 bilhões. Os resultados de abril devem ser ainda melhores, porque os preços subiram mais e se mantiveram acima dos US$ 100 o barril na semana final do mês. Estes recursos adicionais, que são divididos com Estados e municípios, no entanto, serão usados para abater aumentos de gasolina e outros combustíveis caso o Congresso aprove o projeto de lei que permitirá ao governo calibrar a tributação por meio de decretos. Parte dele pelo menos, a que não se refere ao aumento do diesel, cujos efeitos econômicos são amplos e que devem na medida do possível ser contidos, poderá ser usada para evitar que o consumidor desembolse mais dinheiro com seus veículos, um sinal errado em momento de alta de preços. Mas que pode render dividendos eleitorais.
Caatinga: é preciso preservar a única
floresta 100% brasileira
Por O Povo (CE)
Enquanto regiões semiáridas no Chile, na Ásia
e na África compartilham climas semelhantes, a biodiversidade da Caatinga é
expressiva. São mais de 3.150 espécies de plantas (720 endêmicas), 386 de
peixes e 548 de aves, além dos répteis, anfíbios e insetos
Mais que uma paisagem de troncos
esbranquiçados sob o sol escaldante, a Caatinga é um monumento à resiliência e
à biodiversidade. É a única floresta exclusivamente brasileira e uma
das regiões semiáridas mais diversas do planeta. O Dia da Caatinga, celebrado
em 28 de abril, dá margem para que se reflita, de forma mais atenta, acerca
desse bioma.
Ocupando cerca de 10,1% do território
nacional e presente em nove estados — com o Ceará sendo o único totalmente
inserido em seus domínios —, a Caatinga abriga 28 milhões de pessoas. Esse
contingente humano depende vitalmente dos serviços ecossistêmicos do bioma:
desde a regulação climática até a provisão de alimentos e matérias-primas.
A exclusividade da Caatinga é sua maior joia.
Enquanto regiões semiáridas no Chile, na Ásia e na África compartilham climas
semelhantes, a biodiversidade da Caatinga é expressiva. São mais de
3.150 espécies de plantas (720 endêmicas), 386 de peixes e 548 de aves, além
dos répteis, anfíbios e insetos. Um laboratório natural de adaptação, onde a
vida prospera entre rochas e solos variados.
No entanto, este patrimônio agoniza. Dados do
MapBiomas revelam que 86% dos municípios da Caatinga perderam vegetação nativa
nos últimos 40 anos. A expansão da pastagem e um crescimento de 1.636% na área
agrícola desde 1985 pressionam o bioma a um limite perigoso. Hoje, 62% da
Caatinga já é suscetível à desertificação. Além disso, perdeu 21% de sua
superfície de águas naturais.
A gravidade do cenário foi reafirmada por
dados recentes. Conforme o portal EcoNordeste, o balanço preliminar da Operação
Caatinga Resiste, divulgado em 20 de março de 2026, expôs a supressão vegetal
sem autorização. Em dez dias — entre 9 e 19 de março — a força-tarefa
coordenada nacionalmente pelo Ministério Público de Sergipe (MPSE) identificou
10.434 hectares de desmatamento ilegal distribuídos por nove estados.
A fiscalização, que focou em 324 alertas de
monitoramento remoto, revelou que o crime ambiental tem epicentros
claros: Pernambuco, Ceará e Piauí lideram os índices de degradação. As
irregularidades variam desde a total falta de licenças para o corte de
vegetação nativa até inconsistências no Cadastro Ambiental Rural (CAR).
Apesar de sua magnitude, a proteção legal da
caatinga ainda é tímida. No Ceará, o bioma é menos protegido por Unidades de
Conservação do que outros ecossistemas. Essa lacuna ignora que a vegetação
nativa é a melhor defesa contra o colapso ambiental.
Pesquisa recente do Instituto Ipsos aponta
que 71% dos brasileiros exigem ações mais intensas contra as mudanças
climáticas. O desejo da população é por um protagonismo maior de governos e
empresas.
Lembrar o Dia da Caatinga deve ser um compromisso contínuo. Preservar a Caatinga em pé não é apenas um ato de amor à natureza, mas uma estratégia de sobrevivência econômica e social.

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