segunda-feira, 4 de maio de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Discursos farsescos de Lula e Flávio

Por Folha de S. Paulo

Petista posa de antissistema, e filho de Bolsonaro renega ajuste fiscal discutido com empresários

É provável que radicalismo e moderação venham a ser apresentados conforme as conveniências, sobretudo ao tratar das contas públicas

Com índices de aprovação frágeis, más notícias nas pesquisas de intenção de voto e uma derrota histórica em sua indicação para o Supremo Tribunal Federal (STF), Luiz Inácio Lula da Silva (PT) abraçou o populismo em seu pronunciamento por ocasião do Dia do Trabalho.

"Cada vez que damos um passo adiante para melhorar a vida do povo brasileiro, o sistema joga contra. O andar de cima, os bilionários, a elite que só pensa em manter privilégios às custas do povo. Se dependesse do sistema, nem a escravidão teria sido abolida no Brasil", discursou.

Parece cômica a retórica antissistema vinda de um político com o histórico de Lula —em seu terceiro mandato presidencial graças à anulação pelo Supremo Tribunal Federal, por questões formais, de suas condenações por relações promíscuas com grandes empreiteiras. Mas a escolha da palavra não é por acaso.

Duas semanas atrás, falando em um evento de esquerda na Espanha, o petista reclamou da perda da bandeira antiestablishment para a ultradireita. "Nós nos tornamos o sistema. Por isso, não surpreende que, agora, o outro lado se apresente como antissistema", disse, conforme reportou O Estado de S. Paulo.

É notável que, entre uma declaração e outra do líder, o PT tenha realizado um congresso em que mostrou o objetivo de evitar polêmicas e atrair setores do centro político. Afinal, se discursos radicais inflamam seguidores fiéis, a disputa presidencial pode ser decidida, mais uma vez, por eleitores avessos à polarização.

Cálculo semelhante é feito nas hostes de Flávio Bolsonaro (PL), hoje empatado com Lula nas simulações de segundo turno —e empenhado na missão inglória de parecer mais moderado que o pai condenado por tentativa de golpe de Estado.

Flávio embarca no golpismo paterno ao lançar dúvidas sobre a lisura do processo eleitoral brasileiro em um evento extremista nos Estados Unidos, mas por aqui procura parecer um candidato responsável ao discutir com empresários propostas para reformas fiscais vigorosas em 2027, como noticiou a Folha.

Nem isso, porém, ele se dispõe a defender abertamente, por temer que ideias como interromper o aumento acima da inflação do salário mínimo e dos gastos com saúde e educação lhe custem votos. Ao que parece, pretende prometer reequilíbrio orçamentário sem detalhar medidas difíceis, como na proverbial omelete sem quebra de ovos.

Não espantam os malabarismos retóricos numa corrida em que os líderes na preferência dos votantes são também campeões em rejeição. É provável que radicalismo e moderação venham a ser apresentados conforme as circunstâncias e conveniências, sobretudo ao tratar do imperativo ajuste das contas públicas.

Perdem os eleitores, aos quais serão oferecidos, em vez de opções programáticas, discursos farsescos —e, muito possivelmente, um governo tumultuado.

O cenário complexo diante dos bancos centrais

Por Folha de S. Paulo

Americano Fed e congêneres optam por manter juros inalterados devido aos riscos inflacionários da guerra

Nos EUA, a política fiscal expansionista de Trump aguça a demanda para além do ciclo de investimentos em inteligência artificial

A esta altura, é ocioso apontar que a guerra no Oriente Médio turvou o cenário econômico mundial que se anunciava positivo neste 2026. O aumento do custo de energia elevou os riscos de inflação e mudou a conduta dos principais bancos centrais, que até então planejavam cortar seus juros.

É o caso do americano Federal Reserve, que decidiu manter a taxa básica entre 3,5% e 3,75% ao ano na reunião da semana passada, com a justificativa da inflação elevada pelo choque de oferta, ainda num contexto de solidez da atividade econômica.

O diagnóstico é compartilhado por alguns de seus principais congêneres, que também optaram por não alterar o custo do dinheiro, casos do Banco Central Europeu, do Banco da Inglaterra, do Banco do Canadá e do Banco do Japão.

Diante das crescentes incertezas globais provocadas pela guerra no Irã, as autoridades monetárias priorizam neste momento a vigilância sobre a inflação.

Os mercados de energia ilustram bem os riscos. Na semana passada, os preços do petróleo Brent atingiram as máximas desde o início do conflito, superando US$ 126 por barril em determinados momentos.

As estimativas para o segundo semestre apontam cada vez mais para cotações acima de US$ 90, diante da possibilidade de disrupções prolongadas. O impacto se espalha pela cadeia de derivados, elevando os preços de insumos industriais em cascata.

Além da guerra, há fatores que sugerem baixo risco recessivo por ora e que podem amplificar as pressões inflacionárias.

Nos Estados Unidos, a política fiscal expansionista do governo Donald Trump, com pacote de cortes de impostos, aguça a demanda na economia para além do ciclo de investimentos em inteligência artificial. Na Europa, os gastos com rearmamento e infraestrutura fazem o mesmo.

Não surpreende, portanto, que o comitê do Fed tenha registrado incomum dissenso na decisão. Três membros se posicionaram contra a sinalização de afrouxamento da política monetária, defendendo uma visão dos riscos que inclua a possibilidade de elevação de juros caso a inflação não retorne à meta de 2%.

O cenário, de fato, é de complexidade excepcional. A interrupção do fornecimento de energia pode trazer escassez de insumos. Já a geopolítica e a corrida tecnológica apontam para um dinamismo econômico persistente, a despeito das incertezas. Não por acaso, os mercados globais de ações operam nas máximas históricas, mesmo em meio à guerra.

Justiça Eleitoral tem de vetar candidaturas ligadas ao crime

Por O Globo

Diversos episódios recentes expuseram tentativas de infiltração das organizações criminosas no Estado

A tentativa de infiltração das organizações criminosas nas instituições da República deve ser uma das principais preocupações em relação às eleições de outubro. A Justiça Eleitoral tem de estar preparada para filtrar os milhares de candidatos ao Legislativo, tanto em nível estadual quanto federal, ou mesmo ao Executivo. As duas maiores facções criminosas do país, Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV), operam em escala nacional e têm ampliado suas conexões políticas. É essencial barrar esse movimento, que tem se tornado mais evidente numa série de episódios recentes.

O deputado estadual TH Joias se elegeu como suplente pelo MDB, assumiu assento na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) e o manteve até serem descobertas suas conexões com o CV. Foi preso e cassado. O episódio expôs também o então presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar (União) — ele perdeu o mandato e permanece preso, sob a acusação de ter alertado TH Joias sobre a operação da PF que o prenderia.

Em São Paulo, uma operação conduzida em abril de 2024, antes da última eleição municipal, pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado, do Ministério Público (MP), e pela PM resultou na prisão de três vereadores da Região Metropolitana e da Baixada Santista, acusados de ligações com o PCC. De acordo com as acusações, eles estavam envolvidos em licitações públicas de interesse do PCC. Queriam se reeleger, mas não conseguiram.

Na semana passada, uma nova operação liderada pela Polícia Civil paulista resultou na prisão de um ex-vereador de Santo André, também acusado de manter conexões com o PCC. Foram expedidos mandados de busca e apreensão na capital, em Ribeirão Preto, Guarulhos, Santo André, Mairinque, Campinas e Santos, além de Goiânia, Brasília e Londrina. A fintech 4TBank era usada para lavar dinheiro da facção.

Ações de facções criminosas ou milícias para atuar no mundo bilionário das licitações públicas têm de ser reprimidas. Já existe experiência acumulada na abordagem do problema por parte da Justiça Eleitoral, como afirmou ao GLOBO o presidente do Tribunal Regional Eleitoral do Rio (TRE-RJ), Claudio de Mello Tavares. Foi criado em março um grupo de trabalho permanente com a participação de Ministério Público, polícias Federal, Civil e Militar, Comando Militar do Leste e secretarias estaduais de Segurança e Administração Penitenciária. Ele produzirá relatórios de inteligência sobre candidaturas que demonstrem “indícios robustos de vínculo com grupos criminosos”.

Nas eleições municipais de 2024, foi aplicado pela Justiça Eleitoral o entendimento de que esses “indícios robustos” podem levá-la a não conceder registro de candidatura mesmo a quem não esteja enquadrado na Lei da Ficha Limpa, que veta candidatos com condenação na segunda instância. Foi o caso de um vereador de Belford Roxo (RJ) que tentava a reeleição. Por ser ligado a uma milícia, o TRE-RJ rejeitou sua candidatura, e a decisão foi confirmada pelo Tribunal Superior Eleitoral. É necessário que esse tipo de entendimento seja estendido pelos TREs a todo o país para evitar que o crime organizado continue a tentar se apoderar das instituições. A Justiça Eleitoral deve analisar com o maior rigor os pedidos de registro de candidaturas Brasil afora.

Expansão do carro elétrico requer mais postos de recarga e mais segurança

O Globo

Rede de eletropostos ainda deixa a desejar — e veículos se tornaram os mais visados em furtos e roubos

O aumento na circulação de carros elétricos e híbridos no Brasil acompanha uma bem-vinda tendência mundial. Eles são mais silenciosos e menos danosos ao meio ambiente. Embora ainda representem em torno de 1% da frota de automóveis — dominada por motores a combustão movidos a gasolina, diesel ou etanol —, o crescimento é inexorável, dado o barateamento das baterias e a volatilidade ainda associada ao preço do petróleo. O país deveria se preparar para essa nova realidade, oferecendo infraestrutura e segurança.

Nos três primeiros meses do ano, houve crescimento de 90% na venda de eletrificados no Brasil, na comparação com o mesmo período de 2025. Mas a infraestrutura não acompanha essa expansão. Como mostrou reportagem do GLOBO, até o fim de fevereiro havia 21 mil eletropostos no país, em média um ponto de carregamento para quase 30 veículos. Na China, que tem a maior frota de eletrificados no mundo (40 milhões), há 16,7 milhões de eletropostos, um ponto para 2,3 automóveis.

A distribuição dos pontos de carregamento também é desigual. Cerca de 80% ficam no Sudeste. Além disso, a maior parte desses equipamentos é lenta (leva de uma hora e meia a duas horas para completar uma bateria vazia). Os carregadores mais modernos podem levar até 30 minutos, mas custam mais de R$ 500 mil. Há dificuldades também para carregar veículos nos condomínios. Obstáculos como esses têm levado motoristas a optar por híbridos, que funcionam também com combustíveis fósseis.

Em São Paulo, que reúne a maior frota de carros eletrificados do país (85 mil), o estado fez bem em sancionar uma lei estabelecendo regras para instalação de estações de recarga em edifícios residenciais e comerciais. Pela lei, o condomínio não pode impedir a instalação, mas existem normas a seguir, especialmente para prevenir incêndios. Seria desejável que outros estados trilhassem o mesmo caminho.

A segurança também merece atenção, uma vez que esses carros têm atraído os olhares dos bandidos. No estado do Rio, roubos e furtos de veículos elétricos e híbridos cresceram 144% nos três primeiros meses do ano em comparação ao mesmo período de 2025. A cada dia são registradas quatro ocorrências. Quando são considerados veículos de todos os tipos, o aumento foi de 18%. A alta tem impacto no preço do seguro. A tendência, segundo a polícia, pode ser explicada não só pela inclinação dos traficantes à ostentação, mas também pela comodidade de carregar os automóveis dentro das favelas, sem necessidade de ir a postos.

A despeito das dificuldades, parece claro que a eletrificação da frota é caminho sem volta. Estudo da Bright Consulting estima que os elétricos e híbridos somem 1,4 milhão até 2030, mais que o dobro dos atuais 628 mil. Não resta alternativa a não ser se adaptar. No mínimo, é preciso aumentar a oferta de eletropostos e garantir ao cidadão que possa rodar em segurança, independentemente da tecnologia de seu automóvel.

Para o PT, o futuro é o passado

Por O Estado de S. Paulo

Manifesto divulgado no congresso do partido recicla a retórica da ‘herança maldita’ e subordina o discurso de futuro ao objetivo central do lulopetismo: garantir a reeleição de Lula

Aprovado no 8.º Congresso Nacional do PT, sob aplausos de sua ao mesmo tempo assustada e tinhosa militância, o manifesto do partido foi apresentado como uma bússola para o País. Nada mais petista do que o que se viu naquele encontro, realizado em Brasília. O documento tem título curioso – “Construindo o futuro” –, ao projetar-se para adiante enquanto revisita longamente o passado sob domínio da legenda. Combina, de forma previsível, o triunfalismo em torno do que Lula teria realizado com o alerta de tom sombrio sobre o que pode nos acontecer caso ocorra o que, para a companheirada, seria impensável: sua derrota em outubro. Fala em longo prazo com retórica inflamada, mas permanece preso ao curtíssimo prazo – a reeleição do presidente. O futuro, aqui, não passa de um nome elegante dado a uma necessidade imediata.

A leitura do manifesto não tarda a revelar o roteiro conhecido. Logo de saída, o PT se entrega ao que sabe fazer como poucos: um longo, minucioso e quase obsessivo arrazoado comparativo entre o terceiro mandato de Lula e a gestão de Jair Bolsonaro. Páginas e páginas são dedicadas a reiterar a velha cantilena de que o País foi entregue em frangalhos, devastado, destruído, uma terra arrasada que só agora estaria sendo reconstruída sob a liderança iluminada do lulopetismo. Há, evidentemente, fatos que não podem ser ignorados. O governo Bolsonaro promoveu desmontes relevantes, sobretudo em educação, ciência e meio ambiente, com custos reais. Também é justo reconhecer resultados pontuais do atual governo. Mas nada disso autoriza o exagero de pintar o Brasil pré-2023 como cenário apocalíptico.

É nesse ponto que emerge o velho vício petista, cultivado desde 2003 como tradição: a “herança maldita”. A lógica é simples. Se o governo vai bem, o mérito é do PT; se vai mal, a culpa é sempre do antecessor. Foi Fernando Henrique Cardoso ontem, é Jair Bolsonaro hoje, será qualquer outro amanhã. Trata-se de um expediente tão repetido que já não convence além dos convertidos. Ao recorrer mais uma vez a essa muleta retórica, o partido revela menos sobre o passado que critica e mais sobre o presente que tenta justificar.

Esse padrão se completa com o maniqueísmo de sempre. Na cosmologia petista, o mundo segue dividido entre o bem (o próprio partido) e o mal, ocupado por qualquer adversário. Não há nuances nem autocrítica, apenas a reafirmação de uma superioridade moral que, de tanto repetida, já perdeu eficácia. O problema é que o tempo passou. Lula está em seu terceiro mandato, o PT acumula décadas no centro do poder, e a insistência em se apresentar como vítima de heranças alheias soa cada vez mais deslocada. Um governo que ainda precisa se explicar pelo passado revela, por contraste, a dificuldade de sustentar um legado próprio.

Quando o manifesto se volta ao futuro, o quadro pouco muda. A lista de propostas é extensa, mas familiar. Passa por reindustrialização conduzida pelo Estado, protagonismo estatal em setores estratégicos, planejamento econômico robusto e soberania produtiva. Tudo embalado em linguagem atualizada, mas ancorado no repertório de sempre. É o desenvolvimentismo clássico reapresentado como novidade. Falta-lhe, sobretudo, concretude. Nesse vazio, cresce a impressão de que o governo Lula 3 ainda não encontrou suas próprias marcas. Administra, reage, ajusta, mas não imprime direção clara. Longe de dissipar essa percepção, o manifesto acaba por cristalizá-la.

Não por acaso, o texto surgiu “amaciado”, desidratado de temas espinhosos. Evitam-se conflitos, suavizam-se formulações, calibram-se palavras, de modo a conciliar a grita habitual da militância do partido enquanto seus morubixabas tentam compensar as agruras políticas do atual mandato à construção de alianças convenientes País afora. O objetivo é não criar ruídos desnecessários, para não comprometer o projeto central. Qual projeto? A reeleição, naturalmente.

No fim, o manifesto cumpre o papel involuntário de expor o esgotamento de uma fórmula e escancara a dificuldade do lulopetismo de sair de si mesmo. O futuro que anuncia não chega a ser uma promessa. É, quando muito, uma reprise, cuidadosamente empacotada, mas reconhecível desde as primeiras linhas.

A Opep em xeque

Por O Estado de S. Paulo

Saída dos Emirados Árabes é desafio para o cartel do petróleo, cujo poder de controlar preços já vinha sendo minado pela emergência de potências produtoras como EUA, Venezuela e Brasil

Um dos principais produtores de petróleo do mundo, os Emirados Árabes Unidos acabam de anunciar que estão deixando a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). O anúncio é um golpe para a organização – um cartel liderado pela Arábia Saudita que ao longo de décadas busca influenciar os preços do petróleo por meio da determinação de cotas de produção.

Fundada nos anos 1960, a Opep viveu o auge de seu poder na década de 1970. À época, havia bem menos países produtores da commodity, o que permitiu ao cartel, em 1973, embargar o envio de petróleo aos EUA, então altamente dependente de importações de membros da Opep.

Nos últimos anos, porém, o surgimento de novos atores capazes de produzir volumes consideráveis da commodity foi diminuindo o poder do cartel. Apenas nas Américas, Brasil, Guiana e EUA converteram-se em grandes países produtores. Hoje, os EUA são os maiores produtores mundiais de petróleo, à frente da Arábia Saudita.

Foi nesse contexto que os Emirados Árabes Unidos resolveram retirar-se, de forma contundente, da Opep. Fora do cartel, o país pretende ampliar sua produção para 5 milhões de barris diários até 2027.

Em 2019, o Catar já havia deixado a Opep, mas sem causar o ruído provocado pela decisão emiradense. Pequeno produtor de petróleo, o Catar escolheu priorizar a sua produção de gás natural.

Já a saída de um membro da estatura dos Emirados Árabes pode levar a novas debandadas da Opep. Por ora, no entanto, a saída não exerce impacto relevante nem sobre os preços nem sobre a produção de petróleo, uma vez que o conflito entre EUA, Israel e Irã reduziu significativamente as atividades produtivas de países do Golfo Pérsico, como os próprios Emirados e a Arábia Saudita.

Contudo, se há um vencedor claro nessa história, ele é obviamente o presidente dos EUA, Donald Trump, que inúmeras vezes pressionou a Opep a ampliar sua produção petrolífera para que o preço da commodity caísse.

Trump chegou a acusar a Opep de produzir pouco petróleo para inflar os preços, ajudando a Rússia, grande produtora associada ao cartel, a financiar sua campanha de agressão à Ucrânia. Ao romper com a Opep, os Emirados Árabes Unidos emitem um sinal de que não estão alinhados à Rússia, mas ao próprio Trump.

Além disso, os Emirados Árabes Unidos escalam a disputa cada vez menos silenciosa com a Arábia Saudita pela capacidade de liderar os países do Golfo, grupo que também inclui Irã, Iraque, Kuwait, Bahrein, Catar e Omã.

É difícil antever as implicações dessa rivalidade sobre o delicado alinhamento entre os países do Golfo, especialmente os árabes. O que é certo, porém, é que a demanda por energia não para de crescer e, a despeito do aumento considerável de fontes renováveis, o petróleo segue sendo um ativo de grande importância em todo o mundo.

No ano passado, a Agência Internacional de Energia (AIE) estimou que a demanda global por petróleo seguirá crescendo até 2050, revertendo previsão feita no ano anterior de que o pico do interesse por petróleo se daria já em 2030.

Abalada pela deserção dos Emirados Árabes Unidos, a Opep também deve preocupar-se com o aumento da produção na Venezuela, detentora das maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo. Formalmente membro do cartel, a Venezuela agora encontra-se sob influência direta de Trump e certamente não se orientará pelas cotas da organização.

É verdade que o petróleo pesado venezuelano é mais difícil de refinar que o produzido em países do Golfo. Contudo, ele se encontra em uma região bem menos propensa a crises geopolíticas como a que se desenrola atualmente no Estreito de Ormuz, por onde circula 20% da produção mundial de petróleo.

A conta é simples: refinar o petróleo venezuelano sai mais barato que depender da produção de uma região altamente instável como o Golfo Pérsico.

Antes uma potência global por força do seu poder regional praticamente indisputável, a Opep, que em outros tempos submetia o mundo a seus desígnios, agora é tragada por suas disputas internas e por uma produção de petróleo cada vez mais diversa.

Vitória da ciência brasileira

Por O Estado de S. Paulo

Pesquisadores da USP clonam porco para transplante e põem Brasil no cenário internacional

A ciência brasileira está em festa: nasceu em Piracicaba, no interior paulista, após quase quatro meses de gestação, saudável e com 1,7 quilo, o primeiro porco clonado na América Latina criado para fornecer órgãos e tecidos aos seres humanos. Trata-se de um feito sem precedentes na área do chamado xenotransplante, a técnica de transplantes entre espécies.

Os porcos são os animais ideais para isso: são domesticados, reproduzem-se bem em cativeiro, têm ninhadas grandes e o tamanho e funcionamento dos seus órgãos e tecidos são semelhantes aos dos humanos. Promissora, a ideia é ter um plantel para atender às demandas do SUS por rim, córnea, coração e pele.

Programar geneticamente um porco não é uma tarefa fácil. Mas cientistas da Universidade de São Paulo (USP), liderados pelo cirurgião Silvano Raia (pioneiro dos transplantes de órgãos no País, falecido no dia 28 passado), pela geneticista Mayana Zatz e pelo imunologista Jorge Kalil, superaram esse obstáculo. Foram necessários, para isso, quase seis anos de muita dedicação, com frustrações no meio do caminho.

E essa conquista não se limita a uma jornada que começou em 2019 e acabou em março de 2026, com o nascimento do porco: a programação genética do animal, com a inativação de três genes que causam rejeição, e a inserção de sete genes humanos que facilitam a compatibilidade, decorre do conhecimento científico produzido e acumulado ao longo de décadas em pesquisas genômicas no Brasil.

Essa clonagem, aliás, é um bom exemplo de como as mentes brilhantes brasileiras podem ir muito longe, sobretudo quando o setor público e a iniciativa privada juntam esforços na busca de soluções para o bem comum.

Isso porque a pesquisa da USP contou com uma bem-sucedida cooperação entre a instituição e uma indústria farmacêutica, promovida pelo Programa de Apoio à Pesquisa em Parceria para Inovação Tecnológica (Pite), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). A EMS patrocinou o projeto a fundo perdido. E o resultado alcançado prova que vale muito a pena investir em ciência no Brasil.

Tudo isso projeta o País no cenário internacional como um player científico de peso. A programação genética de um porco para torná-lo compatível com transplante em humanos representa o desenvolvimento e o domínio de uma tecnologia estratégica em solo nacional que até então avançava a passos largos nos EUA e na China.

Detentor dessa tecnologia, o Brasil não dependerá desses países, o que lhe dará, além da autossuficiência, uma incontestável liderança regional, com a ambição de projetar São Paulo como a capital latino-americana do xenotransplante.

E, não menos importante, dominar essa técnica de clonagem trará ganhos às contas do SUS, responsável pelo maior programa público de transplantes do mundo, que não dependerá de importações.

Como se vê, é a ciência brasileira a serviço da saúde pública e, mais importante, a serviço da vida. Num futuro não muito distante, esse avanço representará mais do que tecnologia: significará esperança a milhares de pacientes da fila do transplante de órgãos e tecidos no Brasil.

Dívida bruta passa de 80% do PIB, e governo dá sinal errado

Por Valor Econômico

A guerra trará grandes ganhos com as receitas decorrentes do aumento dos preços do petróleo, que poderão ser usados para subsidiar gastos

A dívida bruta do governo central ultrapassou em março, pela primeira vez desde julho de 2021, os 80% do Produto Interno Bruto. É uma consequência lógica da inexistência, ao longo de mais de três anos do governo Lula, de saldos positivos na conta de receitas e despesas e dos gigantescos juros que incidem sobre débitos crescentes. Em março, o déficit foi de R$ 80,7 bilhões, grande parte dele decorrente do pagamento, no mês, de R$ 70,4 bilhões em precatórios, cuja quitação recaiu em julho no ano passado. Precatórios são recursos injetados na economia e sua antecipação pode ser atribuída ao esforço geral do Planalto para evitar a desaceleração do PIB em um ano eleitoral.

O calendário eleitoral também é um óbvio motivo para que o governo tenha antecipado para abril e maio, como já ocorreu, o pagamento do 13º salário dos aposentados e pensionistas do INSS - são mais R$ 78,2 bilhões que ingressarão na economia antes da eleição. Somados aos precatórios, são R$ 142,6 bilhões, ou 1,1% do PIB, que poderão ter como destino o consumo.

A piora dos resultados em março não deve impedir o governo de fechar as contas dentro da meta fiscal, cujo piso, sempre adotado, prevê apenas um déficit primário zero. Mas a degradação do endividamento ganha dinâmica própria com a carga crescente de juros que incide sobre um montante de débitos cada vez maior. De março de 2025 até março passado, a carga de juros mensal subiu de R$ 75,2 bilhões para R$ 118,9 bilhões, segundo estatísticas do Banco Central. Em 12 meses, os encargos financeiros atingiram R$ 1,08 trilhão, depois de terem ultrapassado a casa do R$ 1 trilhão em dezembro. E continuam subindo.

Na dívida mobiliária interna, que corresponde a 72% da dívida bruta total, o governo acumula taxas de 13,4% em março. Os dados da execução do Tesouro também de março acrescentam outros números preocupantes. O custo médio das emissões em oferta pública da dívida mobiliária interna está subindo e passou de 13,81% em dezembro a 13,92% em março.

Como os demais consumidores e empresas, mas com uma dívida muito maior, o Tesouro paga as maiores taxas de juros reais em quase duas décadas, uma carga insuportável que exige um esforço fiscal significativo para ser estabilizada. De início, o novo regime fiscal apresentado pelo governo Lula parecia que poderia a médio prazo freá-la e depois diminuí-la. Com a mudança das regras antes mesmo de sua vigência, o esforço fiscal tornou-se indigente e, mesmo assim, cheio de exclusões de gastos para fins de cumprimento da meta.

A dívida bruta deveria se estabilizar em 2028 no esquema inicial. Com o expansionismo fiscal, e o decorrente aumento dos juros para conter seus efeitos inflacionários na economia, soou o alarme de que o governo poderia ter de enfrentar um shutdown em 2027, pelo avanço das despesas obrigatórias sobre as demais. O Congresso deu um providencial auxílio ao futuro governo, evitando que a conta de precatórios voltasse integralmente ao cômputo da meta: parcelou seu pagamento em 10 anos. Ainda assim, a dívida bruta seguirá crescendo por todo o resto da década até pelo menos 2033.

O avanço do endividamento bruto do governo Lula crescerá perto de 10 pontos percentuais do PIB em quatro anos, uma proeza só realizada antes pelo governo de Dilma Rousseff. Em termos correntes, são cerca de R$ 1,29 trilhão de acréscimo de débitos em valores de hoje. O déficit nominal em 12 meses encerrados em março foi de 9,41%, um dos maiores do mundo.

A guerra de EUA e Israel contra o Irã teve, entre seus efeitos negativos, o recrudescimento da inflação, que obrigou o Banco Central a ser mais cauteloso ainda no ritmo de corte de juros. Se o conflito não terminar logo, a taxa ao fim do ciclo de afrouxamento deverá estar ao redor de 13%, e não os 12% estimados inicialmente (Focus), o que significa, caso a Selic fique nesse patamar, mais R$ 57,9 bilhões em 12 meses em dívidas. O crescimento do PIB tem ajudado a tornar menos ruim o endividamento, retirando 0,5 ponto percentual da equação, na qual é o denominador.

A guerra, porém, trará grandes ganhos com as receitas decorrentes do aumento dos preços do petróleo. Os dados da arrecadação federal de maio mostraram um acréscimo de R$ 5,7 bilhões em relação a março de 2025. No trimestre, os ganhos de receitas são mais expressivos, R$ 19,44 bilhões. Os resultados de abril devem ser ainda melhores, porque os preços subiram mais e se mantiveram acima dos US$ 100 o barril na semana final do mês. Estes recursos adicionais, que são divididos com Estados e municípios, no entanto, serão usados para abater aumentos de gasolina e outros combustíveis caso o Congresso aprove o projeto de lei que permitirá ao governo calibrar a tributação por meio de decretos. Parte dele pelo menos, a que não se refere ao aumento do diesel, cujos efeitos econômicos são amplos e que devem na medida do possível ser contidos, poderá ser usada para evitar que o consumidor desembolse mais dinheiro com seus veículos, um sinal errado em momento de alta de preços. Mas que pode render dividendos eleitorais.

Caatinga: é preciso preservar a única floresta 100% brasileira

Por O Povo (CE)

Enquanto regiões semiáridas no Chile, na Ásia e na África compartilham climas semelhantes, a biodiversidade da Caatinga é expressiva. São mais de 3.150 espécies de plantas (720 endêmicas), 386 de peixes e 548 de aves, além dos répteis, anfíbios e insetos

Mais que uma paisagem de troncos esbranquiçados sob o sol escaldante, a Caatinga é um monumento à resiliência e à biodiversidade. É a única floresta exclusivamente brasileira e uma das regiões semiáridas mais diversas do planeta. O Dia da Caatinga, celebrado em 28 de abril, dá margem para que se reflita, de forma mais atenta, acerca desse bioma.

Ocupando cerca de 10,1% do território nacional e presente em nove estados — com o Ceará sendo o único totalmente inserido em seus domínios —, a Caatinga abriga 28 milhões de pessoas. Esse contingente humano depende vitalmente dos serviços ecossistêmicos do bioma: desde a regulação climática até a provisão de alimentos e matérias-primas.

A exclusividade da Caatinga é sua maior joia. Enquanto regiões semiáridas no Chile, na Ásia e na África compartilham climas semelhantes, a biodiversidade da Caatinga é expressiva. São mais de 3.150 espécies de plantas (720 endêmicas), 386 de peixes e 548 de aves, além dos répteis, anfíbios e insetos. Um laboratório natural de adaptação, onde a vida prospera entre rochas e solos variados.

No entanto, este patrimônio agoniza. Dados do MapBiomas revelam que 86% dos municípios da Caatinga perderam vegetação nativa nos últimos 40 anos. A expansão da pastagem e um crescimento de 1.636% na área agrícola desde 1985 pressionam o bioma a um limite perigoso. Hoje, 62% da Caatinga já é suscetível à desertificação. Além disso, perdeu 21% de sua superfície de águas naturais.

A gravidade do cenário foi reafirmada por dados recentes. Conforme o portal EcoNordeste, o balanço preliminar da Operação Caatinga Resiste, divulgado em 20 de março de 2026, expôs a supressão vegetal sem autorização. Em dez dias — entre 9 e 19 de março — a força-tarefa coordenada nacionalmente pelo Ministério Público de Sergipe (MPSE) identificou 10.434 hectares de desmatamento ilegal distribuídos por nove estados.

A fiscalização, que focou em 324 alertas de monitoramento remoto, revelou que o crime ambiental tem epicentros claros: Pernambuco, Ceará e Piauí lideram os índices de degradação. As irregularidades variam desde a total falta de licenças para o corte de vegetação nativa até inconsistências no Cadastro Ambiental Rural (CAR).

Apesar de sua magnitude, a proteção legal da caatinga ainda é tímida. No Ceará, o bioma é menos protegido por Unidades de Conservação do que outros ecossistemas. Essa lacuna ignora que a vegetação nativa é a melhor defesa contra o colapso ambiental.

Pesquisa recente do Instituto Ipsos aponta que 71% dos brasileiros exigem ações mais intensas contra as mudanças climáticas. O desejo da população é por um protagonismo maior de governos e empresas.

Lembrar o Dia da Caatinga deve ser um compromisso contínuo. Preservar a Caatinga em pé não é apenas um ato de amor à natureza, mas uma estratégia de sobrevivência econômica e social. 

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