Folha de S. Paulo
Oposição crispada é um fenômeno limitado às
elites e à opinião pública informada
No segundo turno, candidatos têm de enfatizar
as diferenças que os separam
Até parece que são dois países vizinhos chamados Brasil. Em um deles —menos habitado— só se fala em eleições, especialmente as presidenciais. Jornalistas; acadêmicos e intelectuais em geral; lideranças políticas, no governo e na oposição; dirigentes empresariais e ativistas sociais; formadores de opinião; cidadãos interessados na vida pública, tutti quanti acompanham a cada semana o sobe e desce das pesquisas.
Gostando ou não, parecem acreditar que vivem
em um país maior e inapelavelmente cindido entre partidários da
centro-esquerda, dominada pela figura do presidente Lula, e os
defensores da direita, reunidos em torno do herdeiro de Jair Bolsonaro.
No outro Brasil, vive o imenso contingente das pessoas comuns, para as quais as eleições de outubro ainda estão muito longe e não concorrem com as premências do dia a dia.
Em entrevista a esta Folha, publicada
na segunda-feira (18), o cientista político Jairo Nicolau, da Fundação
Getúlio Vargas, argumenta que a chamada polarização, embora não sendo nem
ideológica nem programática, mobiliza afetos intensos. Mas não divide o
eleitorado. Segundo ele, a oposição crispada e intransigente entre campos
políticos opostos é um fenômeno limitado às elites e à opinião pública educada
e informada. Não penetra na imensa maioria da população, alheia à disputa e
cujo voto pode pender ou por um lado ou por outro.
De fato, quando questionados sobre em quem
votariam se o pleito fosse hoje, sem menção a possíveis candidatos, um número
expressivo de brasileiros diz não saber o que faria na boca da urna —39%
segundo a pesquisa Datafolha de
maio. Os que dão alguma resposta espontânea mencionam nomes conhecidos: o
presidente Lula (27%); o ex-presidente Jair Bolsonaro (3%); ou seu eventual
herdeiro político (18%).
Dificilmente um país polarizado de alto a
baixo teria um contingente tão expressivo de indecisos.
A polarização que mais uma vez poderá impelir a sociedade a escolher entre
esquerda moderada e direita extremada é na verdade resultado do desenho
institucional e de decisões das lideranças políticas.
A escolha de um presidente em eleições
majoritárias com dois turnos leva necessariamente à disputa final dois
candidatos, que têm de enfatizar as diferenças que os separam, sejam elas
programáticas, de caráter ou de estilo de liderança.
Por outro lado, decisões já tomadas neste ano
por lideranças à esquerda ou à direita têm produzido uma concentração de
candidaturas mesmo antes de serem homologadas pelas convenções partidárias. O
presidente Lula e o PT trabalharam para que não surgissem competidores no campo
da centro-esquerda.
Do outro lado da cerca, as forças da direita
tradicional aceitaram que o bolsonarismo, embora minoritário, se impusesse. Ao
lançar dois pré-candidatos politicamente indistinguíveis de Flávio
Bolsonaro —os ex-governadores Ronaldo
Caiado e Romeu Zema—, e
desprezando a candidatura centrista de Eduardo Leite, o PSD de Gilberto
Kassab só fez adubar a liderança de extrema direita.
Muita coisa ainda pode acontecer, mas se de
novo o crispado confronto se der entre a moderação progressista e o extremismo
de direita, não se culpe o suposto ânimo sectário da maioria dos brasileiros.

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