O Globo
Humilhante situação para um país hospedeiro
de Copa do Mundo ser alvo de tantas reticências
Cidadãos americanos residentes no exterior ou temporariamente longe de casa habituaram-se a receber informes atualizados sobre as condições de segurança em terras estrangeiras. Os avisos postados por suas embaixadas e consulados contêm avaliações do Departamento de Estado sobre possíveis riscos à segurança de seus expatriados. Não raro um informe alerta sobre alguma situação de violência no Rio de Janeiro. Mas, em geral, o fluxo constante desses informes foca mais em países sem lei ou conturbados, de regimes fechados ou considerados inimigos.
Dias atrás, contudo, a prática se inverteu de
forma inédita: 128 grupos civis de Direitos Humanos dos Estados Unidos,
encabeçados pela centenária União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU, na
sigla em inglês), emitiram um alerta de viagem para jogadores, torcedores e
jornalistas com planos de assistir à Copa do Mundo que começa agora em junho.
O texto divulgado elenca o histórico de
violações praticadas pelo governo Trump contra estrangeiros e minorias raciais
e dá conselhos práticos para visitantes reduzirem eventuais sustos e
humilhações. A ACLU, sozinha, com 1,1 milhão de membros, tem mais de 500
advogados fixos e milhares de advogados voluntários em todos os estados do
país. Aos estimados 10 milhões de visitantes que circularão pelas 11
cidades-sedes americanas da Copa, as entidades civis elencaram basicamente seis
riscos.
O primeiro da lista é a negação arbitrária de
entrada, com risco de prisão, detenção ou deportação do cidadão estrangeiro. O
Serviço de Alfândega e Proteção de Fronteiras tem ampla discricionariedade para
admitir, deter ou negar a entrada de qualquer indivíduo, mesmo se portador de
visto legal. As restrições e limitação total à entrada de nacionais de 19
países, em vigor desde janeiro deste ano, estão mantidas, e as restrições
parciais a outros 20 (quase todos africanos) também.
Um item capaz de encrencar desavisados é a
triagem invasiva de mídias sociais e buscas em dispositivos eletrônicos no
controle de entrada. Desde que o governo Trump instituiu triagens de mídias
sociais para determinadas categorias de solicitação de visto, a nova política
monitora especificamente conteúdos considerados “antiamericanos” ou
“antissemitas”. Como já destacado por mais de 90 entidades da sociedade civil
em carta à Fifa de julho de 2025, indivíduos que expressam opiniões políticas
divergentes da atual administração, inclusive em apoio aos direitos palestinos,
estão em risco de detenção arbitrária e deportação. A remoção de informações
confidenciais do celular, a desativação do reconhecimento facial ou senhas de
impressão digital são recomendadas.
O documento também alerta sobre riscos de
tratamento “cruel, desumano ou degradante” a quem for despachado para algum
centro de detenção ou custódia federal onde, segundo dados de fevereiro, 68.289
pessoas estão mantidas. Só neste ano foram registradas 17 mortes sob custódia
do ICE. No ano passado, foram 32.
Diante de quadro tão movediço, as entidades
signatárias recomendam ao torcedor estrangeiro que conheça seus direitos
constitucionais e proteções caso precise interagir com as autoridades
policiais. Manuais como o Immigrants Rights, da ACLU, Immigration Arrests at
Airports, do National Immigration Law Center, ou How to Stay Safe Around ICE,
da Anistia Internacional EUA, podem ajudar.
— Alertem familiares e/ou colegas de
confiança sobre planos de viagem, incluindo datas e destinos. Baixem o
aplicativo ReadyNow!, da Human Rights First, para notificar contatos de
confiança em caso de detenção — aconselha o documento.
Para os jornalistas estrangeiros que farão a
cobertura da Copa, é recomendado consultar os recursos do Repórteres sem
Fronteiras enquanto estiverem em território americano, ou digitar “hello” para
o número +1-206-590-6191 do chatbot de segurança do Comitê para a Proteção de
Jornalistas.
Falta explicar como seguir as recomendações
de cautela se a violação começar pelo confisco do próprio celular.
Humilhante situação para um país hospedeiro
de Copa do Mundo ser alvo de tantas reticências. Ainda mais para uma nação que,
neste ano, comemora com ímpeto trumpiano seus 250 anos de democracia em
construção. É claro que, quando a bola começar a rolar, os 104 jogos entre 48
seleções proporcionarão ao mundo um bem-vindo ritual de distração das feiuras
do cotidiano. Afinal, é o esporte em geral, e a Copa do Mundo em particular,
que consome nossos recursos mais valiosos: o tempo, esse bem fugidio, tão
escasso e não renovável, e a inesgotável emoção humana.
O mundo parecerá ainda mais feio quando a festa acabar.

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