domingo, 3 de maio de 2026

Pisando com cuidado, por Dorrit Harazim

O Globo

Humilhante situação para um país hospedeiro de Copa do Mundo ser alvo de tantas reticências

Cidadãos americanos residentes no exterior ou temporariamente longe de casa habituaram-se a receber informes atualizados sobre as condições de segurança em terras estrangeiras. Os avisos postados por suas embaixadas e consulados contêm avaliações do Departamento de Estado sobre possíveis riscos à segurança de seus expatriados. Não raro um informe alerta sobre alguma situação de violência no Rio de Janeiro. Mas, em geral, o fluxo constante desses informes foca mais em países sem lei ou conturbados, de regimes fechados ou considerados inimigos.

Dias atrás, contudo, a prática se inverteu de forma inédita: 128 grupos civis de Direitos Humanos dos Estados Unidos, encabeçados pela centenária União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU, na sigla em inglês), emitiram um alerta de viagem para jogadores, torcedores e jornalistas com planos de assistir à Copa do Mundo que começa agora em junho.

O texto divulgado elenca o histórico de violações praticadas pelo governo Trump contra estrangeiros e minorias raciais e dá conselhos práticos para visitantes reduzirem eventuais sustos e humilhações. A ACLU, sozinha, com 1,1 milhão de membros, tem mais de 500 advogados fixos e milhares de advogados voluntários em todos os estados do país. Aos estimados 10 milhões de visitantes que circularão pelas 11 cidades-sedes americanas da Copa, as entidades civis elencaram basicamente seis riscos.

O primeiro da lista é a negação arbitrária de entrada, com risco de prisão, detenção ou deportação do cidadão estrangeiro. O Serviço de Alfândega e Proteção de Fronteiras tem ampla discricionariedade para admitir, deter ou negar a entrada de qualquer indivíduo, mesmo se portador de visto legal. As restrições e limitação total à entrada de nacionais de 19 países, em vigor desde janeiro deste ano, estão mantidas, e as restrições parciais a outros 20 (quase todos africanos) também.

Um item capaz de encrencar desavisados é a triagem invasiva de mídias sociais e buscas em dispositivos eletrônicos no controle de entrada. Desde que o governo Trump instituiu triagens de mídias sociais para determinadas categorias de solicitação de visto, a nova política monitora especificamente conteúdos considerados “antiamericanos” ou “antissemitas”. Como já destacado por mais de 90 entidades da sociedade civil em carta à Fifa de julho de 2025, indivíduos que expressam opiniões políticas divergentes da atual administração, inclusive em apoio aos direitos palestinos, estão em risco de detenção arbitrária e deportação. A remoção de informações confidenciais do celular, a desativação do reconhecimento facial ou senhas de impressão digital são recomendadas.

O documento também alerta sobre riscos de tratamento “cruel, desumano ou degradante” a quem for despachado para algum centro de detenção ou custódia federal onde, segundo dados de fevereiro, 68.289 pessoas estão mantidas. Só neste ano foram registradas 17 mortes sob custódia do ICE. No ano passado, foram 32.

Diante de quadro tão movediço, as entidades signatárias recomendam ao torcedor estrangeiro que conheça seus direitos constitucionais e proteções caso precise interagir com as autoridades policiais. Manuais como o Immigrants Rights, da ACLU, Immigration Arrests at Airports, do National Immigration Law Center, ou How to Stay Safe Around ICE, da Anistia Internacional EUA, podem ajudar.

— Alertem familiares e/ou colegas de confiança sobre planos de viagem, incluindo datas e destinos. Baixem o aplicativo ReadyNow!, da Human Rights First, para notificar contatos de confiança em caso de detenção — aconselha o documento.

Para os jornalistas estrangeiros que farão a cobertura da Copa, é recomendado consultar os recursos do Repórteres sem Fronteiras enquanto estiverem em território americano, ou digitar “hello” para o número +1-206-590-6191 do chatbot de segurança do Comitê para a Proteção de Jornalistas.

Falta explicar como seguir as recomendações de cautela se a violação começar pelo confisco do próprio celular.

Humilhante situação para um país hospedeiro de Copa do Mundo ser alvo de tantas reticências. Ainda mais para uma nação que, neste ano, comemora com ímpeto trumpiano seus 250 anos de democracia em construção. É claro que, quando a bola começar a rolar, os 104 jogos entre 48 seleções proporcionarão ao mundo um bem-vindo ritual de distração das feiuras do cotidiano. Afinal, é o esporte em geral, e a Copa do Mundo em particular, que consome nossos recursos mais valiosos: o tempo, esse bem fugidio, tão escasso e não renovável, e a inesgotável emoção humana.

O mundo parecerá ainda mais feio quando a festa acabar.

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