segunda-feira, 18 de maio de 2026

Política ou cancelamento? Por Denis Lerrer Rosenfield*

O Estado de S. Paulo

A política no sentido nobre do termo se define pelo diálogo, pela persuasão, pelo não emprego da coerção e da violência

As universidades, sobretudo as públicas, federais e estaduais, têm sido vítimas da intolerância e do apagamento das diferenças, senão da violência. Perdem elas com isso a sua função primordial de debate de ideias, de respeito à diversidade e de exercício da racionalidade. E foram tomadas por grupelhos, autodenominados políticos, que destroem prédios, proíbem aulas e palestras discordantes de seus pontos de vista partidários e dogmáticos. É o dogma transformado em “verdade”. Há maior perversão acadêmica do que essa?

De nada adianta essas agremiações falarem de liberdade de expressão e manifestação se pretendem dizer com isso que só elas podem agir dessa forma, negando aos demais o mesmo direito que pretendem reivindicar. Tal postura apenas revela uma infração básica ao princípio da não contradição, princípio esse basilar da racionalidade e do exercício do pensamento. Pode a universidade conviver com a ausência mesma de razão?

Não convém tampouco esquecer que essas universidades são financiadas por recursos ditos públicos, oriundos de impostos e tributos, de modo que os contribuintes têm toda a razão de indignar-se com uma deturpação desse tipo. Não devem eles, ou não deveriam, ser apropriados por agremiações estudantis ou corporativas que se autoproclamam as representantes da universidade. Ela faz parte da sociedade que a financia e a ela deveria responder, não pertencendo a um segmento isolado de aparelhos partidários e ideológicos. É legítimo, portanto, o pagador de impostos perguntar-se: é isso que estão fazendo com o meu dinheiro?

A política no sentido nobre do termo se define pelo diálogo, pela persuasão, pelo não emprego da coerção e da violência, tendo como parâmetro diversas concepções sobre o significado do bem comum. Pressupõe, neste sentido, a liberdade de expressão, o respeito à diferença, independentemente de sexo, etnia, religião ou posicionamentos ideológicos. Pode-se – e deve-se – discutir a melhor forma de exercício da liberdade, de redução das desigualdades, de maior ou menor presença do Estado na vida econômica ou social, de maior protagonismo da sociedade em seu conjunto internamente dividido. Pode-se – e deve-se – debater acerca da melhor forma de constituição da sociedade, sem privilégios entre os cidadãos. O exemplo de uma cena pública livre deveria ser dado pela academia, pois se não o fizer transmitirá a mensagem de uma aversão à verdade.

Logo, a mensagem propriamente política da universidade está sendo perdida. A sua cena pública está sendo capturada pelo dogma ideológico, pela recusa ao pensamento, pela afirmação violenta de credos partidários. A cena pública, propriamente livre em sua diversidade e posicionamentos, tem sido acaparada por agremiações, partidos ou sindicatos, que procuram cancelar tudo o que lhes pareça ser crítico em relação às suas próprias convicções. Em vez do reconhecimento da diferença, observa-se a afirmação de uns em detrimento de outros, criando uma noção bizarra da igualdade, a de que todos devem acatar os dogmas que lhes são impostos. Todos são “iguais” sempre e quando não exponham livremente as suas divergências.

Anátemas tornam-se corriqueiros. Ser de direita veio a significar ser “fascista”, sendo que os seus detratores não cessam, porém, de praticar o “fascismo”, o totalitarismo, tão ao gosto dessa esquerda. Ser empresário tem a acepção de alguém que é portador de uma espécie de vício, denominado lucro que ganha em seu negócio. Não deveria surpreender que setores universitários se recusem a cooperar com empresas que todavia, mediante impostos, não deixam de ser seus financiadores. Se alguém prospera na vida rural, é imediatamente considerado “latifundiário”, aliás inexistente no Brasil, visto que toda grande propriedade rural é altamente produtiva, produtora de alimentos e exemplo internacional. Se alguém é judeu, deve ser imediatamente excluído do convívio universitário, numa prática antissemita retomada atualmente por essa esquerda. Prefere o terror islâmico, que, em seus países de origem, assassina e reprime milhares de mulheres, jovens, homens e idosos. Se a pessoa é evangélica, é falsamente identificada ao dízimo, na verdade, uma contribuição voluntária, como se fossem vítimas do engano e de crenças falsas. Só a dos perseguidores é a “verdadeira”, iluminados pela ignorância ideológica.

Liberdade de expressão só serve para eles, e não para os que pensam por si mesmos. Se não conseguem se impor pelo diálogo e pela persuasão recorrem à violência via ocupação de salas de aula, prédios universitários, impedimento da livre circulação de pessoas e ideias. Para não serem identificados, alguns recorrem a capuzes, procurando esconder aquilo que são na verdade: os intolerantes. Se são reprimidos, produzem o mais hilário dos argumentos, o de que são eles as vítimas da violência, quando, na verdade, são os seus autores e instigadores. Passa a imperar, então, a política deformada do cancelamento. 

*Professor de Filosofia na UFRGS.

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