O Globo
Voltou-se contra Ciro Nogueira o “tic tac”
que ele usava contra a esquerda. Caso Master o atingiu e afundou planos de
Flávio Bolsonaro de tê-lo na vice
O senador Ciro Nogueira quando era ministro-chefe da Casa Civil de Jair Bolsonaro, naquela administração que preparava um golpe de Estado, começou a postar nas redes sociais uma mensagem enigmática imitando o som de um relógio. Tic, tac, tic, tac. Não se sabe tudo o que ele queria dizer com essa contagem do tempo. Agora, o relógio corre contra ele. Os indícios apresentados pela Polícia Federal, retirados do celular de Daniel Vorcaro, são robustos o suficiente para sustentar que Ciro recebeu vantagens indevidas e em troca usou seu mandato para lançar uma “bomba atômica” a favor do banqueiro.
O projeto do político do PP do Piauí marcava
a diferença entre vida e morte do banco de Vorcaro. Não era apenas uma ajuda
nos negócios. O texto, se aprovado, salvaria o Master da aguda crise de
liquidez na qual se afundava. O centro do modelo de negócios do empresário era
ter ativos de altíssimo risco e captar com produtos que pagavam alta
rentabilidade. Os poupadores eram atraídos pela taxa de remuneração, mas
evidentemente tinham o temor de que os títulos não fossem honrados. Aí entrava
o uso do Fundo Garantidor de Créditos como o argumento final. Se o banco
quebrar, o Fundo paga. Mas paga quanto? Até R$ 250 mil. Esse limite encurtava o
horizonte das loucuras bancárias de Daniel Vorcaro. Subir para R$ 1 milhão de
garantia dava a ele muito mais capacidade de captação.
O amigo da vida fez a proposta redentora. O
deputado Filipe Barros (PL-PR) também apresentou projeto com o mesmo teor. No
caso do senador, os indícios mostram que, mais do que defender um projeto do
interesse do encrencado banqueiro, Ciro aceitou receber um texto feito por ele.
“Saiu exatamente como mandei”, escreveu Vorcaro. Se a emenda 11 fosse aceita e
aprovada, a vantagem para o dono do Master estaria na Constituição.
Ciro Nogueira foi leal a Jair Bolsonaro,
atestou Flávio
Bolsonaro, quando afirmou que gostaria de tê-lo como vice em sua chapa.
“Tem todas as credenciais para ser o Ciro. O perfil do Ciro é nordestino, de um
partido grande e forte. Tem ali a lealdade que ele sempre teve ao presidente
Bolsonaro no ministério dele. Portanto, sem dúvida, hoje é um nome que está
colocado”.
A quinta fase da Operação Compliance Zero é
demolidora para o senador. Pelo que a Polícia Federal trouxe aos autos, a
amizade dele com o controlador do banco liquidado era irrigada por muitas
vantagens. Segundo a PF, Ciro comprou por R$ 1 milhão uma fatia de empresa de
Vorcaro que valia R$ 13 milhões, e teria recebido pagamentos mensais de R$ 300
mil a R$ 500 mil. Ficou em Nova York em hotéis caros pagos por cartão do
ex-dono do Master. Tinha uma firma sem funcionários com a qual fazia transações
financeiras com empresas e fundos ligados ao banqueiro. Morava gratuitamente em
imóvel de alto padrão.
Os diálogos são inequívocos. Leo Serrano, um
operador de Vorcaro: “Só uma pergunta rápida: eh pros meninos continuarem
pagando conta dos restaurantes Ciro/Flávia até sábado?”. Vorcaro: “Sim. Depois
leva meu cartão para St.Barths”. O primo do banqueiro, atualmente preso, Felipe
Vorcaro: “Oi, Daniel, é para seguir com pagamento de 300 k para o pessoal que
investiu na BRGD”. Vorcaro: “Sim”. A BRGD é a empresa de Vorcaro na qual Ciro
adquiriu participação. Essa pergunta foi feita outras vezes por Felipe. Daniel
Vorcaro sempre disse sim: “tem que enviar, muito importante”. Vorcaro, em
novembro de 2025: “Caro eu no meio dessa guerra atrasou dois meses Ciro?”.
Felipe Vorcaro: “Vou ver se dou um jeito aqui. Vamos continuar com os 500k ou
pode ser os 300k?”.
Ciro Nogueira tem muito a explicar: diálogos
no celular, documentos que confirmam a investigação, provas de que ele
retribuiu com a “instrumentalização do seu mandato parlamentar”, como diz a
decisão do ministro André
Mendonça que autorizou a busca e apreensão nos endereços do senador.
Há consequências concretas desta fase da
Compliance Zero. Ficam afastadas as dúvidas sobre foro, com o senador
investigado o assunto é mesmo da alçada do Supremo Tribunal Federal. O impacto
do caso Master sobre a extrema direita é direto. A delação premiada de Vorcaro
pode não ser homologada. Como publiquei no blog, investigadores dizem que o
atual cenário é de não aceitação, porque até agora ele não trouxe “nada de
produtivo para o processo”, como me foi dito. A chapa dos sonhos de Flávio
Bolsonaro não vai se materializar. O relógio continuará contando as horas, mas
contra o senador Ciro Nogueira.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.