O Globo
A revelação das conversas entre Flávio
Bolsonaro e Vorcaro pode representar um plot twist num processo eleitoral que
promete ser de muita emoção
A notícia do financiamento de Daniel Vorcaro ao senador Flávio Bolsonaro é uma bomba com poder de implodir sua pré-campanha. E tem essa força pelo volume de dinheiro para o financiamento do filme sobre Jair Bolsonaro, pelos abundantes diálogos em que Flávio Bolsonaro cobra Vorcaro, pela exibição de intimidade com o banqueiro das falcatruas, pelas mensagens de visualização única e pela incapacidade do senador de reagir quando tudo foi revelado. Ele deu resposta fraca. Na verdade não seria um filme sobre um personagem qualquer, mas sim uma peça da campanha eleitoral.
O dia de ontem foi efervescente. Seus
desdobramentos serão fundamentais para esta campanha, que está chegando num ponto
decisivo. O episódio deve afetar o eleitor independente e pode impactar também
os da direita não bolsonarista. Se Flávio Bolsonaro desidratar, pode haver
troca de candidato, dizem os analistas. Contudo, a janela da
desincompatibilização se fechou, não poderá ser o governador de São Paulo que
era o plano B do bolsonarismo. Por exclusão, o nome de Michelle
Bolsonaro voltou a ser falado. Ela teria que enfrentar a desconfiança
do seu próprio marido, que quer como candidato um parente sanguíneo. O nome
dela não foi testado pelas últimas pesquisas.
Faltam quatro meses e 20 dias para as
eleições, mas ainda 57% estão indecisos diante do quadro eleitoral, segundo a
pesquisa Genial/Quaest divulgada ontem, antes do incêndio na campanha de Flávio
Bolsonaro. Na espontânea, quando não há a apresentação do nome de possíveis
candidatos, esse é o percentual dos que ainda não se decidiram.
A pesquisa mostrou uma melhora importante do
presidente Lula.
O saldo negativo entre os que o aprovam e os que o desaprovam caiu de 9% para
3%. A principal alta foi entre eleitores que se dizem independentes. Lula melhorou
em todos os segmentos, e recuperou a aprovação entre mulheres e eleitores de
renda média.
Para a maioria dos brasileiros o pleito ainda
não começou, mas está diminuindo o percentual de indecisos. Há duas pesquisas
eram 69%, 12 pontos a mais do que o da pesquisa atual. Entre os independentes,
80% ainda não se decidiram. O país permanece com polaridades definidas. Entre
os que votaram em Bolsonaro, 90% desaprovam o governo Lula, entre os que
votaram em Lula 83% aprovam.
O retrato que a pesquisa trouxe mostra que a
direita não conseguiu se descolar da extrema direita e ganhar
musculatura. Ronaldo
Caiado e Romeu Zema não
têm desempenho relevante em intenção de voto, continuam em torno de 4%. Isso é
resultado da incapacidade da direita buscar o centro e se afastar das pautas
radicais dos bolsonaristas.
Esta semana a oposição ameaçou votar a PEC da
Anistia, mas ficou claro que ela sabe que está jogando para a sua plateia. O PL
da Dosimetria surgiu exatamente por não haver condições políticas e jurídicas
de aprovar uma anistia. “Anistia agora é chance zero, a menos que a extrema
direita ganhe a eleição. Neste cenário, o Congresso aprova em semanas, mas
teríamos um debate dificílimo no Supremo”, me disse uma autoridade que
acompanha esse tema de perto.
A decisão do ministro Alexandre
de Moraes de suspender a aplicação da dosimetria não quer dizer
rejeição à lei propriamente dita. A maioria do STF vê com muito boa vontade a
ideia de manter o que o Congresso decidiu, a redução das penas. A suspensão foi
apenas uma decisão técnica, porque existe arguição de inconstitucionalidade
sobre a PEC, e isso precisa ser julgado.
O roteiro do Brasil não economiza na emoção e
por isso a eleição ocorrerá com a Justiça Eleitoral sendo comandada pelos dois
ministros indicados pelo ex-presidente, que era inimigo da urna eletrônica e
estimulou entre seus seguidores a dúvida sobre o processo eleitoral. A posse no
tribunal foi um retrato da tensa diversidade política brasileira, com o detalhe
do caprichoso roteirista de colocar bem próximas a mulher do condenado e a
mulher do juiz que o condenou, Michelle Bolsonaro e Viviane Barci de Moraes.
Nenhuma das duas vive tempos fáceis.
O ministro Kassio
Nunes Marques poderá dormir tranquilo em um ponto: sua presidência não
será atacada, solapada, difamada como foi a presidência de Alexandre de Moraes,
na eleição de 2022. Isso não acontecerá pelo simples motivo de que o presidente
atual, Lula da Silva, acredita no processo eleitoral brasileiro. Mas é certo
que esta eleição será de muitas emoções, revelações e desafios. Ontem foi dia
de reviravolta ou de um plot twist no roteiro.

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