Revista Será?
No dia 13 de maio, o site The Intercept tornou pública a relação amistosa e de negócios entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro. Os diálogos entre os dois caíram como um míssil de proporções nucleares sobre a pré-candidatura do filho 01. A coordenação de sua pré-campanha, bem como seus principais aliados, foi pega de surpresa. E cada explicação era seguida da divulgação de novos elementos que a contradiziam, reforçando o clima de desconfiança. Do outro lado, o governo e seus apoiadores, por óbvio, demonstravam contentamento, e começaram a surgir avaliações de que seria o fim da linha para o senador, com a expectativa de uma queda vertiginosa nas primeiras pesquisas que captassem a reação do eleitorado ao fato.
Pois bem: menos de uma semana após a
divulgação das conversas telefônicas, no dia 19, a Atlas Intel apresentou o
resultado de uma pesquisa apontando, no cenário de segundo turno, uma queda de
6% nas intenções de voto de Flávio Bolsonaro em relação ao levantamento
realizado um mês antes. Já os números no cenário de primeiro turno indicavam
uma desidratação de 5,4%, percentual que praticamente se distribuiu entre os
outros cinco pré-candidatos de oposição, mantendo a situação de que haveria
segundo turno. Ou seja, o desastre anunciado acabou não se confirmando. Escrevo
este artigo antes da divulgação de uma nova pesquisa do Datafolha, prevista
para sexta-feira, dia 22, quando será possível verificar a evolução do quadro,
mas meu palpite é que trará números similares.
Na esteira desses fatos, João Santana, um dos
mais experientes profissionais do marketing eleitoral, publicou um vídeo no
Instagram (https://www.instagram.com/reel/DYVUFluRUwF/?igsh=NW1obTVzeDh5aWln),
trazendo uma provocação que me pareceu muito interessante e da qual reproduzo
um trecho a seguir:
“Será que a calcificação política definida
por Nunes e Traumann vai segurar, nos dias de hoje, o sonho presidencial dos
Bolsonaro? Isso vamos saber rapidamente, mas me parece que a tese da
calcificação não seja tão pétrea e tenha a porosidade natural de qualquer
esquema acadêmico que tenta aprisionar em armadura teórica a dinâmica
vertiginosa da política. Vamos ver também até onde o movimento do ‘enquanto tem
bambu, tem flecha’, de Lula, terá fôlego — e olha que haja flecha: Desenrola,
taxa das blusinhas, crédito para taxistas e motoristas de aplicativo,
subvenções da gasolina. Meu Deus, quantas futuras consequências. Aqui pra nós:
será que Lula, ao arriscar todas as fichas em um grande pacote de bondades
econômicas, não está esquecendo de outras armas simbólicas tão ou mais
importantes e repetindo o mesmo erro das tentativas frustradas de Bolsonaro em
2022?”
Correndo o risco de queimar a língua, minha
avaliação é que a premissa estabelecida por Felipe Nunes e Thomas Traumann em
seu livro Biografia do Abismo continua atualíssima e comandará o processo de
definição do voto da maioria do eleitorado. Utilizando a pesquisa Atlas Intel
como referência, pode-se inferir que a disputa continua polarizada entre Lula e
a oposição, não havendo espaço para uma candidatura alternativa que se
diferencie de ambos os lados. Assim, mais uma vez, a opção final se dará pela
rejeição. Trata-se de antipetismo versus antibolsonarismo.
A pergunta mais relevante neste momento é se
a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro sobreviverá aos novos escândalos, porque
os anteriores — rachadinha, mansão em Brasília — já foram precificados pelas
pessoas e não vinham sendo impeditivos para que ele fosse apoiado. A novidade é
a pecha de mentiroso que poderá vir a ser colocada sobre ele. Afinal, os
políticos de direita se jactam de serem os únicos a sempre falar a verdade.
Pois ouso afirmar que, se as próximas pesquisas não indicarem percentuais
inferiores a 25% de intenção de voto, a tendência do PL e de seus aliados será
superar o momento de perplexidade, arranjando desculpas para satisfazer os
seguidores fiéis e voltando a caminhar juntos com o pré-candidato. Minha
avaliação se baseia em dois motivos.
O primeiro é que nenhum outro nome tem a
capacidade de unificar o bolsonarismo, que, segundo diversos levantamentos,
representa de 15% a 20% do eleitorado. Esse percentual é um forte ponto de
partida para qualquer candidatura. Em termos de comparação, em todas as
eleições presidenciais desde 1989, o PT sempre manteve um piso próximo de 30%.
Ou seja: ruim com ele, pior sem ele. O segundo motivo está no quesito
atratividade. Nomes como Zema, Caiado e Aldo Rebelo, apesar de estarem
presentes no jogo político há bastante tempo e terem ocupado cargos de
destaque, não conseguem empolgar e seguem patinando.
Claro que figuras como Renan Santos e Augusto
Cury vão tentar se apresentar como os verdadeiros representantes da visão
antissistema, na base do “contra tudo o que está aí”, tentando repetir a
fórmula do bolsonarismo desde 2016 e, mais recentemente, de Pablo Marçal na
eleição de 2024 para a Prefeitura de São Paulo. Porém, não percebo potencial de
crescimento suficiente para colocá-los em vantagem competitiva.
Outra consequência possível é um aumento no
número de abstenções e votos nulos e brancos porque, como diversas pesquisas
têm mostrado, há uma parcela da sociedade, na faixa de 30%, muito descontente
com essa calcificação política, rejeitando tanto o PT quanto o bolsonarismo.
Desse grupo, cerca de 10% foram decisivos em 2022 para a vitória de Luiz Inácio
Lula da Silva, mas atualmente não sentem a mesma motivação.
Dessa forma, existe a real possibilidade de a
eleição ser decidida ainda no primeiro turno por uma pequena margem. Nesse
caso, considerando as últimas pesquisas, o favoritismo passa a ser do atual
mandatário. A conferir as cenas dos próximos capítulos.
*Orlando Thomé Cordeiro é consultor em estratégia.

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