sábado, 16 de maio de 2026

Sem meia conversa entre Flávio e Vorcaro, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Flávio Bolsonaro primeiro disse que era mentira, confrontado com a informação verídica de que pedira – e levara – dinheiros de Daniel Vorcaro para bancar o filme sobre Jair Bolsonaro. Depois, ante a exposição de suas mensagens, teve de admitir a verdade; isso após seis meses de omissões e mentiras sobre suas relações com o miliciano comprador de burocratas e autoridades. Comportamento idêntico ao de Dias Toffoli: o ministro que, tendo sido sócio da rede vorcárica no tal hotel, ocultou a sociedade e permaneceu como relator do caso no STF.

A bateção bolsonarista de cabeças foi intensa e pública, até que Flávio plantasse a versão que ora prospera – a do “contrato de confidencialidade”. Não podia falar a respeito do lance porque impedido formalmente, o que o levaria a mentir, faz dois meses, declarando-se “sem nenhum contato pessoal” com o banqueiro. Um senador da República que subordina o contrato com a democracia representativa, o mandato, a um acordo entre privados que produzira o pagamento de cerca de US$ 10 milhões – por meio de empresa laranja metida com PCC e máfia italiana – a um fundo nos EUA gerido pelo advogado de Eduardo Bolsonaro.

Operação que deixaria de ser fedida – sob a suspeita de que haveria sobras de caixa – com a apresentação dos registros formais do fluxo de remessas-entradas da bufunfa toda, totalmente transferida à produtora do filme.

Nunca se tratou de filho pedindo dinheiro para produção sobre o pai. Experimentasse você pedir dinheiro a Vorcaro para bancar homenagem a papai. Era um senador da República, filho de ex-presidente e cotado como candidato à Presidência, alguém influente sobre essa escolha; alguém a ser agradado. Vide Ciro Nogueira, de oposição também, cujo mandato foi, segundo a PF, instrumentalizado a serviço de interesses vorcáricos.

Estamos ante uma questão ainda – ainda – de natureza político-comunicacional, sob a qual a pergunta decisiva permanece a mesma. O que Vorcaro contratava, ao contratar o escritório de advocacia? O que comprava, ao comprar parte do resort?

Pode Flávio fazer essas perguntas? No que Vorcaro investia, ao investir no filme?

Existe o padrão vorcárico de estabelecimento de relações. Inexiste a hipótese de que alguém acreditasse – em novembro de 2025, à véspera da prisão do cara – em que o dinheiro “privado” de Vorcaro fosse limpo, proveniente que era de traficâncias com fundos de pensão e da venda de créditos fraudulentos.

Flávio fala como se suas conversas com o sujeito fossem restritas a dezembro de 2024. Começaram em dezembro de 24; se intensificaram em 2025, à medida que a situação do Master se degradava, chegando àqueles termos íntimos (“Irmão, estou e estarei contigo sempre. Não tem meia conversa entre a gente.”) depois de as investigações sobre o banco se tornarem públicas, o que ocorrera entre agosto e setembro de 25.

Naquele momento, o senador da República deveria ter feito cessar o contrato-contato e revelado a existência do acordo e as razões por que o encerrava. Prevaleceu o homem de negócios.

 

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