O Globo
Alta da inflação e desaceleração do PIB
complicam cenário eleitoral do atual governo, que deve evitar medidas com
efeitos colaterais na economia
O índice de atividade econômica do Banco Central, divulgado ontem, mostrou que em março o país não cresceu. Encolheu, na verdade. Mesmo com a queda de 0,7% da economia em março, o Brasil teria crescido 1,3% no primeiro trimestre por essa medida do BC. O IBGE deve divulgar em duas semanas um resultado mais fraco do que isso. O começo do ano foi puxado pelo agronegócio, que está diante de temores sobre o que será o resto de 2026, em que os custos aumentam e os preços internacionais caem. Na pesquisa Focus de ontem, o mercado elevou a projeção para a Selic no fim do ano.
A guerra atingiu a economia no período
eleitoral, o que significa que a maré de más notícias para o governo é forte.
Para se ter uma ideia, a previsão dos economistas dos bancos e consultorias é
de que a taxa de juros terminará o ano em 13,25%. Antes do conflito, a projeção
era 12% e alguns acreditavam em mais cortes. A crise geopolítica diminuiu em
1,25 ponto percentual a queda que ocorreria. Ou, como o mercado financeiro
gosta de dizer, 125 pontos-base de juros a mais de Selic. Isso é aumento da
dívida pública e menos estímulo econômico.
Neste primeiro trimestre, o país não deve ter
crescido os 1,3% da prévia do PIB divulgada ontem, em relação ao último
trimestre do ano passado. Talvez fique em 1% como prevê o Itaú e o Santander,
com projeção de 1,8% na comparação anual. O Bradesco estima alta de 0,9% do PIB
no trimestre e 1,6% em relação ao mesmo período do ano passado. No relatório
que encerrou abril, o Bradesco reafirma a avaliação de que a guerra deve
terminar ao longo do segundo trimestre. Mas admite que está havendo um repasse
maior para os preços.
A economia cresceu acima de 3% em 2023 e
2024. No ano passado, o PIB subiu 2,3%. Este ano, as projeções indicam menos de
2% e pode ser menor, dependendo da duração do confronto de Estados Unidos e
Israel contra o Irã. Já se sabia que o país cresceria menos do que em 2025,
porque mesmo em queda, os juros permaneceriam altos demais levando a economia a
desacelerar o ritmo. Mas, agora, nem esse pequeno relaxamento monetário
ocorrerá. Teremos cortes a conta-gotas e que vão parar mais cedo que o
imaginado.
A inflação, que
segundo todas as projeções ficaria no intervalo de flutuação da meta, foi
reavaliada. Agora, a previsão do mercado é de que terminará o ano em 4,92%,
acima do teto da meta, em 4,5%. Há cinco semanas está sendo previsto este
estouro da meta e o índice projetado só cresce.
A safra será recorde este ano. Mais um ano em
que o total de grãos colhidos será maior do que na safra anterior, mas o
produtor olha para o futuro imediato e tem vários medos: teme os custos que
subiram, teme a falta de suprimento de insumos, teme o recuo do preço
internacional de commodities agrícolas e até a queda do dólar ameaça o
exportador. Tudo efeito da guerra.
A valorização do real é boa, porque reduz a
pressão inflacionária. A queda dos preços de soja, milho e trigo pode aliviar a
inflação de alimentos. Para o produtor, contudo, como
mostrou a reportagem de Vinícius Neder ontem no GLOBO, é um problema,
porque ele tem que enfrentar custos maiores e retornos menores, tanto pelo
preço do produto, quanto pela taxa de câmbio que reduz o valor recebido em
reais pelas exportações.
O El Niño é uma ameaça à parte. Com sua capacidade
de desorganizar o clima e o regime de chuvas, pode afetar diretamente a
agricultura. O fenômeno pode ser mais forte e chegar mais cedo.
Um quadro como esse é muito complicado para
quem está disputando a reeleição. O que o governo não pode agora é tomar
decisões insensatas, na tentativa de forçar um ritmo maior de expansão da
economia. Já foram adotadas muitas medidas que resultam em maior gasto e talvez
mais atividade econômica, mas este não pode ser o objetivo.
No caso, por exemplo, do Desenrola, o governo
precisava mesmo entrar no meio da negociação entre bancos e endividados de
baixa renda porque estes não tinham capacidade de sair do problema sozinhos. A
isenção do imposto de renda até R$ 5 mil era uma medida justa e nem por isso as
pesquisas mostram que teve ganho político. Bondades eleitorais costumam
produzir mais efeito colateral negativo do que benefícios. A inflação subindo
costuma tirar votos do incumbente.

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