quarta-feira, 27 de maio de 2026

Sociologia política do bate-boca, por Roberto DaMatta*

O Estado de S. Paulo

Mamãe era taxativa: “Jamais bata boca”. Essa gritaria dos mal-educados. O mesmo conselho surge nos jornais, revelando como o bate-boca é maleducado: ele expressa a falta de controle de dois “superiores” que se confrontam e nenhum deles pode ser inferiorizado, exceto no grito. O bate-boca é uma ferramenta aristocrática, prima do “você sabe com quem está falando?”. Exprime a perturbação diante do direito de discordar. Se sou superior, como alguém ousa reagir aos meus argumentos?

Todo mundo parece ter ouvido mamãe, pois continuamos a classificar dissidências como bate-bocas, como falta de educação, quando o certo é o justo oposto. Nada mais normal do que a dissidência entre pessoas numa democracia. Desclassificar discussões é típico de sistemas construídos por “gente que se lava”, como o nosso.

Creio que foi precisamente isso o que alavancou Jair Bolsonaro, pois um dos pontos críticos de sua figura era que ele exibia o furor dos bate-bocas.

De um ponto de vista sociológico, bate-bocas mostram ausência de projetos partidários, pois a nossa política depende muito mais de pessoas e relações do que de algum ideal. Banalizou-se o falar em democracia exercendo um óbvio personalismo e um deslavado populismo. Aliás, falar em conflito de interesses é um ato subversivo diante do dilema do conflito de interesses ignorado pelo STF.

Numa outra dimensão, o bate-boca é negacionista, pois seu intuito é calar o adversário pelo grito, essa voz de comando própria de sociedades anti-igualitárias. O berro e o discurso são modalidades nas quais o ouvinte deve apenas ouvir. Escutar é primo do obedecer, pois o ouvir sem dialogar é sinal de inferioridade.

A boca faz par com o ouvido, de onde vem o puxão de orelha, destinado aos “mal-ouvidos”, esses independentes mal-educados. Como sabemos, o silêncio é irmão do “calar a boca”, o exato oposto do falar alto típico do mandonismo.

Daí vem a associação do falar alto como protocolo de superioridade social e do ouvir calado como ato de obediência. Escravos apenas escutavam. O direito de expressão não existe nas sociedades patrimonialistas. Nelas, o deputado, o ministro, o magistrado e o presidente falam. Nós, o povo, ouvimos.

O falar alto tem como gêmeo o gritar – esse agressivo emblema de revolta. Muitos povos se tornaram independentes com um grito sinalizador de ruptura com seus colonizadores. O nosso hino nacional enfatiza o ouvir e descreve um majestoso lugar a ser amado; no caso americano, enfatiza-se o enxergar num discurso de construção e luta.

E para que não digam que teorizo no ar, lembro que a “elite” está em pânico porque Daniel Vorcaro – aquele que fazia todo mundo ficar com água na boca por suas orgias e mesadas – pode “botar a boca no trombone” e fazer com que tudo, democraticamente, venha a “cair na boca do povo”. Valha-nos Deus! 

*É Antropólogo, escritor e autor de ‘Carnavais, malandros e heróis’

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