Revista Veja
Quando a política e o estresse psicológico se encontram
A coincidência cronológica é demasiado precisa para ser fortuita. Em 2013, ano em que as “jornadas de junho” inauguraram o ciclo de polarização permanente no Brasil, a Pesquisa Nacional de Saúde registrava prevalência de 7,6% de depressão diagnosticada entre adultos. Em 2019, o índice foi a 10,2% — 16,3 milhões de pessoas. Em 2022, no inquérito Covitel, da UFPel, chegou a 13,5%. Em seis anos, alta de 34%. Em uma década, quase dobrou. Nesse período, o país atravessou Lava-Jato, impeachment, recessão histórica, eleição de 2018, pandemia, eleição de 2022 e o 8 de Janeiro.
Pode ser coincidência. A hipótese, contudo,
merece exame. Há quatro vetores convergentes. O primeiro é institucional. A
partir de 2013, a Pentarquia do Poder (Executivo, Congresso, STF,
agências e mercado/mídia) deixou de operar em colisão controlada e passou ao
conflito aberto, espetacularizado, permanente. A imprevisibilidade
institucional, antes restrita a momentos de crise, tornou-se condição normal de
funcionamento. O cidadão perdeu a sensação de que as regras do jogo são
estáveis. Essa erosão da previsibilidade é, em si, um estressor crônico.
O segundo vetor é econômico. A recessão de 2015-2016 — queda de quase 7% do PIB, a maior da história republicana — produziu desemprego estrutural, endividamento das famílias e queda persistente de renda. A literatura epidemiológica é robusta: desemprego prolongado é preditor confirmado de depressão. A camada pandêmica veio depois, somando-se a tudo. A Organização Mundial da Saúde estimou alta global de 25% na prevalência de ansiedade e depressão apenas no primeiro ano da covid-19.
“A democracia não funciona sem cidadãos
psiquicamente disponíveis para o debate”
O terceiro vetor é a insegurança. Não a
estatística criminal em si, que recuou em relação ao pico de 2017, mas o medo
difuso que se instalou no cotidiano. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança
Pública, o país teve 46 328 mortes violentas
intencionais em 2024 — taxa de 21,7 homicídios por 100 000 habitantes —,
mantendo o Brasil entre os países mais violentos do
mundo fora de zonas de guerra. Em dezembro de 2025, a segurança
ultrapassou a economia como a segunda maior preocupação
nacional, atrás apenas da saúde. Vive-se em estado de alerta de baixa
intensidade, e o organismo paga o preço.
O quarto vetor é o substrato comum: a
arquitetura algorítmica das redes sociais. A exposição contínua à indignação
programada (e à circulação de imagens de violência, que amplifica os vetores
anteriores) mantém o organismo em estado permanente de defesa, com produção de
cortisol e adrenalina. O sistema nervoso não foi desenhado para operar em
alerta perpétuo. A implicação política, incontornável: nenhuma democracia
funciona sem cidadãos psiquicamente disponíveis para o debate.
A polarização deixou de ser só um problema
político. Tornou-se questão de saúde pública. Os quatro vetores convergem sobre
o mesmo corpo social, e nele se inscrevem. Quando a Classificação Internacional
de Doenças da OMS registra a depressão sob o código F32, e quando 13,5% dos
brasileiros nele se enquadram, a fadiga democrática deixa de ser metáfora para
ganhar número de catálogo médico. Esse é o ponto em que o sofrimento social
difuso vira estatística clínica — e em que a política, queira ou não, terá de
responder a ele também como tal.
Publicado em VEJA de 29 de maio de 2026, edição nº 2997

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