domingo, 24 de maio de 2026

Uma demanda de limpeza ética, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Com os velhos caciques, o Rio de Janeiro era uma feitoria político-social; hoje, uma malfeitoria estrutural

Essa é a saga ominosa de 30 anos de governos cariocas finalizados na prisão

"Malandro demais se atrapalha", rezam as rodas de brasilidade, onde sabedoria é experiência vivida. Isso se revela na profilaxia administrativa operada pelo governo interino do Rio de Janeiro. Pode-se rir ou chorar ao tomar conhecimento, por exemplo, de que o ex-governador Cláudio Castro tinha criado uma Subsecretaria de Gastronomia, com nada menos do que uma "Superintendência de Demandas Cotidianas". E dirigida por ninguém menos que Pazuello, o general-ministro bolsonarista da pandemia.

Malandro, porém, se atrapalha mesmo. Tantas fez e cargos inventou o ex-governador para multiplicar favores a prefeitos, legisladores e dono de refinaria que o pote de espertezas transbordou como vaso sanitário. Garantido pelo STF, o interino Ricardo Couto comanda uma reorganização que já limpou um terço das secretarias e cerca de 1.700 cargos comissionados. A maioria não precisava sequer comparecer ao trabalho. Inexistente, por sinal, como dita a lei da malandragem.

Em princípio, seria chover no molhado qualquer análise das engrenagens de um desgoverno, considerando-se que a corrosão da função pública transparece sem filtros no apodrecimento ético dos dirigentes. Podre, aliás, não é metáfora gratuita: assim o mercado financeiro chama papel sem nenhum valor. Cláudio Castro investiu neles R$ 1 bilhão do fundo de pensão do estado para ajudar o Banco Master.

Abismo chama abismo. Essa é a saga ominosa de 30 anos de governos cariocas finalizados na prisão, com desenredo especial pelo oxímoro Castro: inelegível, mas aspirante ao Senado. Ele tornou mais visível o epílogo de um longo e ruinoso percurso político, não só no nível das finanças públicas, mas também das consequências sociais das gestões corruptas. A varredura atual é alvissareira, embora provisória e assediada por clãs, ávidos por uma marcha-a-ré.

Com os velhos caciques, o Rio era uma feitoria político-social. Hoje, uma malfeitoria estrutural. No balanço das governanças impolíticas, transparece um estado afetado por déficit fiscal insanável e pela voracidade de grupos em torno da apropriação dos recursos públicos. Não mais caciquismo político, e sim uma malandragem tóxica constituída por clãs, híbridos de famílias com delinquentes. Cargos oficiais são criados e canibalizados por interesses temporários. Uma subsecretaria de bem-comer e por que não uma superintendência de demandas gourmets? Malandro sugeriu, fez-se.

Há disso tudo noutras regiões, mas o Rio virou laboratório de graves patologias sociais. Primeiro, a síndrome dos territórios, demarcados por milhares de barricadas e defendidos com armas de guerra e mercenários de know-how ucraniano. Bicheiros, milicianos, traficantes e policiais dão-se as mãos ou se engalfinham ante o pano de fundo cenográfico da mídia que envelopa a cidade. Depois, o tecido social criminogênico que, desde "zonas de influência" ilegalistas, favorece o recrutamento para a bandidagem e a malignidade dos clãs políticos, cujos rebentos almejam no Estado-nação o status de malandros federais.

É desanimador. Mas, como no mito, Hércules limpou com rios as estribarias do rei, a sujeira moral e cívica acumulada no Rio poderia ser lavada em urnas reais. Quando a sociedade civil acordasse.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.