O Estado de S. Paulo
Enfraquecido eleitoralmente por seus próprios
atos, Flávio Bolsonaro torna-se risco menor para a estabilidade institucional
A revelação de que políticos com
possibilidade de êxito na disputa dos mais altos postos eletivos da República
tiveram ou têm vínculos com gângsteres que atuavam com desenvoltura nos
melhores ambientes sociais e econômicos talvez cause a impressão de que, em
algum momento, este País perdeu o prumo. A essa sensação de degradação moral
podem somar-se outras, como a de que tal perda seja apenas a culminância de um
lento, longo, mas inexorável processo de estagnação econômica e social.
Dirigentes políticos eram generosamente financiados pela rede de corrupção que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro estendeu sob os olhos temporariamente complacentes do órgão incumbido de regular suas atividades. A decomposição ética de parte do sistema político desvelada pelas investigações da Polícia Federal (PF) a respeito de crimes cometidos pelo Banco Master, de Vorcaro, é mais uma entre muitas informações e situações que preocupam o cidadão já às voltas com as agruras cotidianas.
No plano global, terminada a visita histórica
a Pequim, da qual saiu menor do que entrou, o presidente norte-americano Donald
Trump continua a ameaçar o mundo com irresponsáveis bravatas belicosas e
anúncios que afetam a estabilidade da economia mundial, ainda fortemente
dependente do petróleo cujo fluxo internacional continua sob risco. Daí a
inflação (estimulada pela alta do petróleo e, consequentemente, dos alimentos)
mais ameaçadora num mundo que cresce menos. Em abril, o Índice Nacional de
Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), medida oficial da inflação brasileira
calculada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), subiu
0,67%, a maior variação para o mês desde 2022.
Analistas econômicos advertem para os riscos
em todo o planeta. “Por quanto tempo podemos conseguir combinar uma economia
resiliente com uma política caótica?”, perguntou-se Martin Wolf, o principal
colunista do jornal britânico Financial Times.
O cenário é ruim para um país como o Brasil,
que entre 2011 e 2021 viu seu Produto Interno Bruto (PIB) per capita reduzir-se
de 31,18% para 26,44% da média dos 19 países mais ricos, segundo a Organização
para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). É como se, na comparação
com o resto do mundo, em vez de permanecer na posição ruim em que já estava, tivesse
andado para trás.
Nem tudo, porém, é infortúnio. Recente estudo
da McKinsey Global Institute sobre o redesenho do comércio mundial provocado
pelas mudanças tarifárias impostas unilateralmente pelo governo Trump aponta
que as mudanças podem favorecer a posição brasileira no cenário internacional.
“Com perfil geopoliticamente mais neutro, o Brasil desponta como parceiro
confiável e competitivo neste momento em que novas alianças e relações
comerciais estão sendo firmadas”, diz o estudo. “Parece seguro afirmar,
contudo, que o distanciamento da relação comercial entre China e Estados Unidos
pode aproximar as duas potências do Brasil. Mais do que isso. Além das
oportunidades de curtíssimo prazo decorrentes do redirecionamento imediato da
demanda, há uma abertura para aproveitar o redesenho do mapa do comércio global
e se inserir de uma nova forma nas cadeias de produção.”
E, do ponto de vista da economia em geral,
até o Fundo Monetário Internacional (FMI) prevê que, apesar da guerra no Irã ou
por causa dela, o crescimento da economia brasileira pode ser até maior do que
o que estava sendo previsto antes do início do conflito. Para o resto do mundo,
a previsão foi reduzida.
Na indústria de transformação, o Brasil vem
perdendo posições na comparação com outros países e, no quesito do ritmo de
expansão da produção industrial, hoje ocupa a metade inferior numa lista de 83
países, segundo o Instituto de Estudos de Desenvolvimento Industrial (Iedi).
Mas o que antigos polos industriais do País veem como desindustrialização é
compensado (ainda que parcialmente) pela interiorização da produção
manufatureira, tendo a região Centro-Oeste se transformado na grande receptora
de novas fábricas.
No mercado de trabalho, que continua muito
ativo (o aumento do desemprego no primeiro trimestre é sazonal), um dado
estimulante é a redução do número de trabalhadores que estão há mais de dois
anos sem conseguir ocupação. No fim de março, eram 1,079 milhão de
trabalhadores nessa situação, 21,7% menos do que no primeiro trimestre de 2025.
Mas, para o futuro do País, seguramente o
mais reconfortante evento das últimas semanas é a constatação de que, há pouco
considerado fortíssimo candidato à Presidência da República, e em ascensão, o
senador Flávio Bolsonaro viu boa parte de suas possibilidades de vitória
escorrer pelos dedos depois da publicação de seu diálogo assombroso com o
ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ao longo do qual implora por uma ajuda financeira
daquele a quem trata com afeto por “irmão”. Enfraquecido eleitoralmente por
seus próprios atos, Flávio Bolsonaro torna-se risco menor para a estabilidade
institucional. É como se, da escuridão moral em que certos políticos
sobrevivem, surgisse alguma luz.

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