Folha de S. Paulo
Pesquisas medem efeitos de eventos que
independem de governantes
Torneio mitiga impacto das sórdidas
revelações do escândalo Vorcaro
Eventos fortuitos e alheios à ação dos governantes —como o desempenho da seleção na Copa— influenciam o comportamento dos agentes políticos? A democracia funciona quando os eleitores recompensam bons governantes e punem maus governantes. Mas se os cidadãos atribuem responsabilidade a governos por acontecimentos que não controlam, a racionalidade do processo democrático está em xeque. Autocratas mobilizam sucessos em eventos para alavancar popularidade, mas sua sobrevivência no cargo depende de força bruta e abuso de poder, não de eleições.
O debate está polarizado e teve início com um
estudo clássico sobre a campanha presidencial americana de 1916 que concluiu
que uma série de ataques de tubarão na costa de Nova Jersey teria reduzido o
apoio eleitoral ao presidente Woodrow Wilson nas localidades afetadas.
Eventos negativos geram respostas emotivas
–como quando pessoas descontam em seu pet as agruras de um dia desastroso. Seus
críticos afirmam que não se trata de irracionalidade, mas de política
da atenção. Eventos negativos deslocam itens positivos da agenda pública. E
vice-versa. Eventos positivos encobrem escândalos. Em casos de desastres há o
chamado efeito "rally round the flag" (união nacional), que pode
mitigar os efeitos negativos. E também um segundo mecanismo: o efeito
"limelight" (ribalta): o desastre joga luz sobre o incumbente. Este
hiperfoco expõe incompetência ou irregularidades, magnificando o desgaste. Em
raros casos, ocorre o contrário, e o comportamento supereficiente é premiado.
Assim, a racionalidade intrínseca ao punir e premiar pelo desempenho continua
lá. O que muda é apenas a centralidade da questão na agenda e/ou janela de
atenção.
Os efeitos acima são de primeira ordem, mas
há efeitos de segunda ordem, indiretos. Uma pesquisa investigou as
consequências políticas do 7 a 1, em
2014. Em vez de analisar o comportamento dos eleitores,
Carvalho et al focaram como o mercado financeiro reagiu ao resultado. Preços
de ativos incorporam expectativas sobre eventos futuros. Se investidores
acreditam que determinado acontecimento altera as perspectivas eleitorais, essa
informação é refletida nos mercados. Após o 7 a 1, ações de empresas vistas
como beneficiárias de uma eventual derrota de Dilma Rousseff apresentaram forte
valorização. A expectativa era que o desastre aumentaria as chances da oposição
nas eleições presidenciais. O mercado, em outras palavras, comportou-se como se
milhões de eleitores fossem responsabilizar o governo por um resultado
produzido dentro das quatro linhas.
Derrotas ou sucesso alteram o sentimento
público. Vitórias geram o conhecido efeito "feeling good", que
reforça o viés pró status quo. Derrotas deflagram sentimento difuso
pró-mudança.
Entre nós, as evidências de efeito direto não
parecem sólidas. Em 2002, o candidato do incumbente —Serra— perdeu as
eleições, embora a taça
tenha sido nossa. Mas a questão central é o contrafactual: a margem
de derrota teria sido ainda pior sem ela? O que é certo é que nos próximos dias
o efeito principal será o de mitigar o impacto das sórdidas revelações do
escândalo Vorcaro. E claro, a extensão da janela de atenção irá depender do
desempenho da seleção.
*Professor da Universidade Federal de Pernambuco e ex-professor visitante do MIT e da Universidade Yale (EUA)

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