O Globo
É preciso cautela antes de fazermos
afirmações generalizantes sobre o conservadorismo entre os jovens
Muitos leitores já devem ter escutado que os
jovens da geração Z (que têm hoje entre 14 e 29 anos) são conservadores. A tese
partiu da observação de certos traços demográficos da preferência partidária
nos Estados Unidos, depois se expandiu para outros aspectos e se observou em
outros países, inclusive no Brasil.
A ideia encontrou respaldo em produtos culturais como as minisséries “Adolescência” e “Por dentro da machosfera” (ambas da Netflix), que mostraram a difusão da misoginia entre os jovens, além de episódios do noticiário policial como o estupro coletivo em Copacabana. Agora, um relatório da More in Common mostra que as evidências dessa tendência no Brasil são bastante ambivalentes. É preciso cautela antes de fazermos afirmações generalizantes sobre o conservadorismo entre os jovens.
A primeira análise internacional de grande
repercussão foi uma reportagem de janeiro de 2024, do prestigiado jornalista de
dados do Financial Times John Burn-Murdoch, mostrando que em muitos países a
distância ideológica entre homens e mulheres jovens aumentava. É um fato antigo
e conhecido: homens são mais de direita que as mulheres. Mas essa distância
ideológica entre os mais jovens aumentava desde os anos 2010 em países tão
diferentes quanto Alemanha, Coreia do Sul e Reino Unido.
Depois, duas pesquisas de novembro de 2025,
ambas realizadas on-line, uma da Fundação Friedrich Ebert, outra da AtlasIntel,
mostraram que, entre os jovens, a identificação com a direita é quase duas
vezes maior que com a esquerda.
A evidência mais impactante foi um estudo do
King’s College de Londres, de março deste ano — também baseado em painel
on-line —, analisando atitudes sobre gênero em 29 países, entre eles o Brasil.
Na média dos 29 países analisados, a pesquisa apontou uma espécie de escada
geracional invertida: os mais velhos apareciam sistematicamente como mais
igualitaristas que os mais jovens quando questionados se concordavam com
questões como “Uma esposa deve sempre obedecer ao marido” e “Fomos longe demais
na promoção da igualdade das mulheres a ponto de estarmos discriminando os
homens”.
No conjunto, os dados dessas pesquisas
sugerem que jovens são mais de direita que os mais velhos, homens jovens são
mais de direita que mulheres jovens e jovens defendem mais os papéis
tradicionais de gênero. Embora autodeclaração ideológica e atitudes sobre
gênero não sejam a mesma coisa, elas passaram a ser frequentemente combinadas
no debate público para sustentar a tese de uma geração Z mais conservadora.
Porém, pelo menos outras três pesquisas, com
amostras amplas e entrevistas presenciais, não confirmaram essa conclusão. A
pesquisa “Brasil invisível” da More in Common, realizada em 2025 com 10 mil
entrevistas presenciais, não encontrou nenhum padrão geracional ou de idade nas
atitudes em relação a gênero e sexualidade para 11 questões como “Os papéis de
homens e mulheres devem ser diferentes” e “O feminismo é uma ameaça para a
família”.
Séries de pesquisa de opinião internacionais
como Lapop e Latinobarómetro também não mostram maior distância ideológica
entre homens e mulheres jovens. Ao contrário do afastamento contínuo sugerido
por Burn-Murdoch, as séries presenciais mostram apenas um pico episódico em
2018 — talvez causado pela eleição naquele ano — que desaparece nos anos
seguintes. A distância ideológica entre homens e mulheres jovens no Brasil no
século XXI é tão pequena que, em quase todos os anos, está dentro da margem de
erro.
Os dados são muito contrastantes e sugerem
cautela para a generalização de que os jovens têm se tornado conservadores. Há
uma série de explicações para a divergência. A mais provável é que os dados
mostrando conservadorismo entre os jovens vêm de painéis web, que podem ter
viés de seleção — sobrerrepresentando jovens conservadores mais engajados. Por
esse motivo, as pesquisas presenciais que abordam entrevistados diretamente — e
têm menos viés de recrutamento — mostram um retrato diferente.
Nada disso é motivo para minimizar o risco
causado por grupos misóginos on-line como masculinistas ou red pills. Esses
grupos precisam ser monitorados e suas ações ilegais punidas.
A escala, porém, importa. Não há indício
robusto de que esse movimento seja de massa. Enfrentar a misoginia exige
compreender suas causas, mas também sua verdadeira dimensão. É melhor evitar
diagnósticos apressados que transformem indícios ambivalentes numa sentença
definitiva sobre toda uma geração.

A enquete presencial talvez iniba o jovem reacionário.
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