O Estado de S. Paulo
A decisão do governo Luiz Inácio Lula da
Silva de determinar o retorno de delegados da Polícia Federal (PF) cedidos a outros
órgãos, inclusive gabinetes de magistrados, gerou controvérsia. O momento da
medida coincide com o avanço das investigações do escândalo do Caso Master, que
já alcançam figuras da oposição, mas também nomes do próprio governo Lula.
Seria uma tentativa de interferência política na PF? Mais importante do que especular sobre intenções é compreender os incentivos que surgem quando corrupção e eleições se encontram.
Grande parte da literatura sobre corrupção
busca responder se eleitores punem políticos envolvidos em escândalos. Uma
questão igualmente relevante, mas menos estudada, é como governantes reagem
quando instituições de controle passam a produzir informações capazes de
comprometer suas chances de reeleição.
Polícia Federal, Ministério Público, Tribunais
de Contas e demais órgãos de fiscalização desempenham papel central na
democracia porque reduzem a assimetria de informação entre governantes e
eleitores. Sua função não é escolher os vencedores ou os perdedores nas
eleições, mas produzir informações para que os eleitores possam fazê-lo. O
problema é que essa atividade produz inevitáveis consequências políticas.
Em pesquisa que realizei sobre os Tribunais
de Contas estaduais, encontrei evidências de que a atuação dos órgãos de
controle é fortemente influenciada pelos incentivos gerados pela competição
política.
Governantes submetidos a maior incerteza
eleitoral tendem a aceitar e fortalecer mecanismos independentes de
fiscalização. Já quando os riscos de perder o poder diminuem, os incentivos
para ampliar sua autonomia também se reduzem.
A lógica é simples. Instituições de controle
geram benefícios coletivos para a democracia, mas podem impor custos políticos
aos governantes. Quando investigações atingem adversários, sua atuação costuma
ser celebrada. Quando alcançam aliados, surgem pressões e tentativas de limitar
seu alcance.
Esse fenômeno não é exclusivo do Brasil nem
de um governo específico. Trata-se de uma tensão inerente às democracias. Por
isso, o verdadeiro teste da autonomia institucional não ocorre quando os órgãos
de controle investigam opositores. O teste acontece quando suas investigações
se aproximam do governo.
É justamente nesses momentos que a
independência se torna mais necessária.
Se organizações de controle funcionam apenas quando suas ações são politicamente convenientes, deixam de cumprir sua principal missão republicana: garantir que ninguém esteja acima da fiscalização, especialmente aqueles que estão no governo.

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