"É numa tal linha de pensamento que se há de fazer a determinação das reformas e transformações constituintes da revolução brasileira. Isto é, não pela dedução a priori de algum esquema teórico preestabelecido; de algum conceito predeterminado da revolução. E sim pela consideração, análise e interpretação da conjuntura econômica, social e política real e concreta, procurando nela sua dinâmica própria que revelará tanto as contradições presentes, como igualmente as soluções que nela se encontram imanentes e que não precisam ser trazidas de fora do processo histórico e a ele aplicadas numa terapêutica de superciência que paira acima das contingências históricas efetivamente presenciadas. A análise e determinação adequadas daquelas contradições nos devem revelar desde logo — sob pena de se infirmar a análise e interpretação efetuadas que se revelariam em tal caso falhas ou insuficientes —, devem revelar por si e sem mais indagações as soluções que naturalmente implicam e em consequência comportam e justificam." (Caio Prado Júnior, A Revolução Brasileira).
A série “Brasil 70: a saga do tri”, que
a Netflix lançou há duas semanas da abertura da Copa do Mundo de
2026, tenta furar um mosaico de “bolhas de interesses” a silenciar as ruas
brasileiras quando o tema é a confiança num bom desempenho da seleção
brasileira. Então, trata-se de uma produção muito didática para que as novas
gerações entendam o sentido da frase “a falta de confiança é um sentimento
reacionário” nas bocas do jornalista João Saldanha (Rodrigo Santoro numa
lindíssima atuação).
Trata-se, sobretudo, de uma aula sobre o que um dia foi o chamado “futebol arte” antes de termos passado pela chamada “era Dunga”. Nas quatro linhas de campo, assim como nas linhas das alianças políticas, os brasileiros tinham uma alma com características semelhantes, pois se deixavam maravilhar com as invenções dos dribles de futebol e com os grandes lances da política. O melhor exemplo dessa interseção da “invenção” no futebol e na política foi a escolha de um reconhecido militante comunista para assumir o comendo da Seleção Canarinho nos “anos de chumbo” da Ditadura Militar.
Vamos a algumas considerações sobre a
história do futebol brasileiro para contextualizar o leitor. Em 1966 – ano que
o historiador comunista Caio Prado Júnior lançou o então muito debatido
livro A Revolução Brasileira – o estilo de jogo do chamado futebol brasileiro
foi considerado como morto e superado pelo nível europeu. A Copa do Mundo
de 1966 ocorreu na Inglaterra (país que se consagrou campeão) e o Brasil foi
eliminado na primeira fase e com uma contusão traumática de Pelé (Lucas
Agrícola sem retrancas na atuação). Ele, o grande jogador santista de todos os
tempos, assume a responsabilidade pelo fracasso e anuncia precocemente seu
afastamento dos jogos da seleção. Assim como se diz em muitas interpretações
que o “centro político” morreu na política brasileira com as polarizadas
rotulações, naqueles anos anunciavam que Edson Arantes do Nascimento teria
acabado na carreira do futebol
Então, assim que assume o comando da Seleção
Brasileira, eis que João Saldanha (um dos mais ferozes críticos da atuação de Pelé
em campo) procura o jogador santista e anuncia que ele é fundamental para um
elenco de jogadores em forma de uma “grande aliança”. As linhas da grande
política da Frente Democrática se fazia nascer nos gramados da Vila Belmiro. Ou
seja, em cinco episódios temos um personagem forte que se compromete a lutar
pelo Brasil, apesar dos governantes buscarem a manipulação da sociedade
brasileira. Saldanha não se deixa conduzir pelo sectarismo do “não torço pelo
Brasil” como se fosse a antecipação impolítica da “era da desconfiança”,
identificada por Pierre Rosanvallon no século XXI com seu viés para reforçar o
populismo. Estar na torcida da seleção brasileira em tempos de ditadura seria
uma disputa pela hegemonia da “alma brasileira” que está muito bem caracterizada
nas diversificadas crenças e superstições dos nossos torcedores (muitos
presentes na série).
O melhor caracterizado como esse espírito
lusitano das crenças no futebol é o técnico substituto Mário Jorge Lobo Zagallo
(Bruno Mazzeo, nos brinda com uma maravilhosa e diplomática atuação no quarto
episódio), com a sua imagem de Santo Antônio, que soube muito bem celebrar o
número treze no imaginário brasileiro com a contagem das letras de suas frases
semelhantes a profecias do padre Antônio Vieira.
Numa série em que o espectador lida com o que
foi o chamado “fantasma do marcanazzo” em referência ao suposto “frango” do
goleiro cruzmaltino no 2 a 1 na final da Copa de 1950, o espectro que rondou
politicamente na saga do Tricampeonato foi o jornalista gaúcho “João sem Medo”.
O roteiro muito didaticamente explica os esquemas táticos, a técnica dos
melhores momentos da participação brasileira no Mundial do México, destacam os
lances dos gols de uma forma de levar aqueles que adoram mais o futebol se
emocionar. Cada episódio é a possibilidade de uma demonstração de que não
podemos abaixar a cabeça diante dos desafios dos jogos e da política que estão
por vir.
*Vagner Gomes é Doutorando no PPGCP-UNIRIO.

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