segunda-feira, 1 de junho de 2026

A Saga do Tri: a Frente Democrática de 70, por Vagner Gomes*

"É numa tal linha de pensamento que se há de fazer a determinação das reformas e transformações constituintes da revolução brasileira. Isto é, não pela dedução a priori de algum esquema teórico preestabelecido; de algum conceito predeterminado da revolução. E sim pela consideração, análise e interpretação da conjuntura econômica, social e política real e concreta, procurando nela sua dinâmica própria que revelará tanto as contradições presentes, como igualmente as soluções que nela se encontram imanentes e que não precisam ser trazidas de fora do processo histórico e a ele aplicadas numa terapêutica de superciência que paira acima das contingências históricas efetivamente presenciadas. A análise e determinação adequadas daquelas contradições nos devem revelar desde logo — sob pena de se infirmar a análise e interpretação efetuadas que se revelariam em tal caso falhas ou insuficientes —, devem revelar por si e sem mais indagações as soluções que naturalmente implicam e em consequência comportam e justificam." (Caio Prado Júnior, A Revolução Brasileira).

A série “Brasil 70: a saga do tri”, que a Netflix lançou há duas semanas da abertura da Copa do Mundo de 2026, tenta furar um mosaico de “bolhas de interesses” a silenciar as ruas brasileiras quando o tema é a confiança num bom desempenho da seleção brasileira. Então, trata-se de uma produção muito didática para que as novas gerações entendam o sentido da frase “a falta de confiança é um sentimento reacionário” nas bocas do jornalista João Saldanha (Rodrigo Santoro numa lindíssima atuação).

Trata-se, sobretudo, de uma aula sobre o que um dia foi o chamado “futebol arte” antes de termos passado pela chamada “era Dunga”. Nas quatro linhas de campo, assim como nas linhas das alianças políticas, os brasileiros tinham uma alma com características semelhantes, pois se deixavam maravilhar com as invenções dos dribles de futebol e com os grandes lances da política. O melhor exemplo dessa interseção da “invenção” no futebol e na política foi a escolha de um reconhecido militante comunista para assumir o comendo da Seleção Canarinho nos “anos de chumbo” da Ditadura Militar. 

Vamos a algumas considerações sobre a história do futebol brasileiro para contextualizar o leitor. Em 1966 – ano que o historiador comunista Caio Prado Júnior lançou o então muito debatido livro A Revolução Brasileira – o estilo de jogo do chamado futebol brasileiro foi considerado como morto e superado pelo nível europeu.  A Copa do Mundo de 1966 ocorreu na Inglaterra (país que se consagrou campeão) e o Brasil foi eliminado na primeira fase e com uma contusão traumática de Pelé (Lucas Agrícola sem retrancas na atuação). Ele, o grande jogador santista de todos os tempos, assume a responsabilidade pelo fracasso e anuncia precocemente seu afastamento dos jogos da seleção. Assim como se diz em muitas interpretações que o “centro político” morreu na política brasileira com as polarizadas rotulações, naqueles anos anunciavam que Edson Arantes do Nascimento teria acabado na carreira do futebol

Então, assim que assume o comando da Seleção Brasileira, eis que João Saldanha (um dos mais ferozes críticos da atuação de Pelé em campo) procura o jogador santista e anuncia que ele é fundamental para um elenco de jogadores em forma de uma “grande aliança”. As linhas da grande política da Frente Democrática se fazia nascer nos gramados da Vila Belmiro. Ou seja, em cinco episódios temos um personagem forte que se compromete a lutar pelo Brasil, apesar dos governantes buscarem a manipulação da sociedade brasileira. Saldanha não se deixa conduzir pelo sectarismo do “não torço pelo Brasil” como se fosse a antecipação impolítica da “era da desconfiança”, identificada por Pierre Rosanvallon no século XXI com seu viés para reforçar o populismo. Estar na torcida da seleção brasileira em tempos de ditadura seria uma disputa pela hegemonia da “alma brasileira” que está muito bem caracterizada nas diversificadas crenças e superstições dos nossos torcedores (muitos presentes na série).

O melhor caracterizado como esse espírito lusitano das crenças no futebol é o técnico substituto Mário Jorge Lobo Zagallo (Bruno Mazzeo, nos brinda com uma maravilhosa e diplomática atuação no quarto episódio), com a sua imagem de Santo Antônio, que soube muito bem celebrar o número treze no imaginário brasileiro com a contagem das letras de suas frases semelhantes a profecias do padre Antônio Vieira.

Numa série em que o espectador lida com o que foi o chamado “fantasma do marcanazzo” em referência ao suposto “frango” do goleiro cruzmaltino no 2 a 1 na final da Copa de 1950, o espectro que rondou politicamente na saga do Tricampeonato foi o jornalista gaúcho “João sem Medo”. O roteiro muito didaticamente explica os esquemas táticos, a técnica dos melhores momentos da participação brasileira no Mundial do México, destacam os lances dos gols de uma forma de levar aqueles que adoram mais o futebol se emocionar. Cada episódio é a possibilidade de uma demonstração de que não podemos abaixar a cabeça diante dos desafios dos jogos e da política que estão por vir.

*Vagner Gomes é Doutorando no PPGCP-UNIRIO.

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