Valor Econômico
Desdobramentos das investigações envolvendo Daniel Vorcaro revelaram que a Polícia Federal parece não ter partido político de estimação
No princípio era o Verbo. Desde a Bíblia, as
palavras movem o mundo. Por isso, “quem tiver uma história e souber narrá-la,
estará no poder”. A afirmação é da escritora Olga Tokarczuk, no discurso com o
qual recebeu o Prêmio Nobel de Literatura relativo a 2018.
Pois a Operação Compliance da Polícia Federal
(PF), que investiga as fraudes financeiras relacionadas ao Banco Master, e
assombra o mundo político, desafia advogados e investigados a emplacar a melhor
defesa, ou mais do que isso, a melhor narrativa.
Na quinta-feira (18), após a operação que teve como alvo o líder do governo e amigo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, senador Jaques Wagner (PT-BA), as principais lideranças trocaram análises, informações e versões sobre o episódio que atingiu o Palácio do Planalto e a pré-campanha do petista à reeleição.
Um líder influente que transita em todos os
grupos, do governo à oposição, disse que uma das consequências mais importantes
dessa ação policial foi desmontar o argumento de que Lula teria colocado a
Polícia Federal no encalço de aliados do Centrão. “Cai por terra a narrativa de
alguns políticos que viam essas operações como um movimento do governo contra o
Centrão”, avaliou, em conversa com a coluna.
Um dos defensores dessa tese, em conversas
reservadas com aliados, é o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP).
Até onde se tem conhecimento, ele não é investigado no caso Master. Mas ele se
irritou com a operação, em fevereiro deste ano, que investigou o aporte
suspeito de R$ 400 milhões do fundo Amapá Previdência (Amprev) no Master. Um
dos alvos foi o então diretor da Amprev, Jocildo Lemos, que teria sido indicado
para a função por Alcolumbre. O presidente do Senado negou a indicação.
Mas a apuração da PF não teve como foco
apenas a previdência dos servidores dos Amapá. Esse braço das investigações envolve
mais de R$ 1 bilhão em recursos de institutos previdenciários dos servidores do
Rio de Janeiro, do Amazonas, e de alguns municípios paulistas, aplicados no
Master.
Quando a PF saiu em campo em Macapá, reduto
de Alcolumbre, aliados levaram a Lula a informação de que o presidente do
Senado se queixava de suposta perseguição policial. Mas segundo esses aliados,
o petista ponderava que não tinha o que fazer, já que até o seu primogênito, o
empresário Fábio Luís Lula da Silva, teve o nome implicado nas apurações sobre
as fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
De fato, os desdobramentos das investigações
envolvendo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro revelaram que, ao contrário das
queixas de políticos de todos os matizes, a Polícia Federal parece não ter
partido político de estimação. Com o levantamento do sigilo de provas
determinado pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça,
relator do caso Master, já se tornaram públicos elementos das investigações que
recaem sobre o presidente do Progressistas (PP), senador Ciro Nogueira (PI), o
presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), e agora,
sobre o líder do governo. O presidenciável do PL, senador Flávio Bolsonaro
(RJ), também apareceu envolvido no caso, como mostrou a imprensa.
Nesse contexto, outro líder advertiu,
contudo, que se a PF tem autonomia plena para investigar até mesmo o influente
líder do governo, a realidade é que ninguém estaria blindado e, portanto, todos
na República podem ser pegos de calças curtas. Estão todos vulneráveis.
Outra avaliação que circulou entre lideranças
políticas na quinta-feira foi de que, se o caso Master tem de atingir alguém da
base de Lula, o quanto antes isso acontecer, melhor. O cálculo é de que, se for
inevitável, melhor que aconteça agora, a quatro meses das eleições, do que no
momento decisivo do voto. Políticos experientes lembram que o eleitor só decide
o voto a poucas semanas do pleito.
Um argumento é de que o tempo cura tudo, até
mesmo escândalos políticos. Se as denúncias contra Wagner se tornaram públicas
no meio de junho, teriam tudo para perder fôlego com a sucessão de fatos para
distrair a atenção do eleitor. No Nordeste, reduto de Wagner, é tempo das
concorridas festas juninas. Logo depois, entram na programação as rodadas
finais da Copa do Mundo. Mesmo se o Brasil pendurar as chuteiras antes, haverá
futebol arte para nos entreter, com craques como Lionel Messi e Kylian Mbappé.
Em contrapartida, o mesmo raciocínio vale
para as denúncias que emparaderam Flávio Bolsonaro, e que deram fôlego para
Lula nas pesquisas. A rodada mais recente da Quaest mostrou que o senador do PL
perdeu pontos valiosos entre os eleitores independentes, e até mesmo no
eleitorado cativo da oposição, como os evangélicos, após a revelação do áudio
em que chama Vorcaro de “irmão”, e cobra dele o repasse de recursos para o
filme “Dark Horse”, sobre a trajetória de seu pai.
Mas na visão de uma liderança governista,
haveria uma diferença essencial nas conexões de Flávio Bolsonaro com o Master,
e de Jaques Wagner com o banco, que blindaria a campanha lulista. “Em relação
ao Flávio, é no CPF dele”, resumiu, lembrando que é o senador que aparece no
áudio e nas mensagens com Vorcaro. Por outro lado, é Jaques Wagner o governista
envolvido na investigação, um aliado da linha de frente, mas não é Lula. Como
ensinou a vencedora do Nobel, o melhor narrador terá o poder.

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