sexta-feira, 19 de junho de 2026

Ação da PF areja relação de Lula com Centrão, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Desdobramentos das investigações envolvendo Daniel Vorcaro revelaram que a Polícia Federal parece não ter partido político de estimação

No princípio era o Verbo. Desde a Bíblia, as palavras movem o mundo. Por isso, “quem tiver uma história e souber narrá-la, estará no poder”. A afirmação é da escritora Olga Tokarczuk, no discurso com o qual recebeu o Prêmio Nobel de Literatura relativo a 2018.

Pois a Operação Compliance da Polícia Federal (PF), que investiga as fraudes financeiras relacionadas ao Banco Master, e assombra o mundo político, desafia advogados e investigados a emplacar a melhor defesa, ou mais do que isso, a melhor narrativa.

Na quinta-feira (18), após a operação que teve como alvo o líder do governo e amigo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, senador Jaques Wagner (PT-BA), as principais lideranças trocaram análises, informações e versões sobre o episódio que atingiu o Palácio do Planalto e a pré-campanha do petista à reeleição.

Um líder influente que transita em todos os grupos, do governo à oposição, disse que uma das consequências mais importantes dessa ação policial foi desmontar o argumento de que Lula teria colocado a Polícia Federal no encalço de aliados do Centrão. “Cai por terra a narrativa de alguns políticos que viam essas operações como um movimento do governo contra o Centrão”, avaliou, em conversa com a coluna.

Um dos defensores dessa tese, em conversas reservadas com aliados, é o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP). Até onde se tem conhecimento, ele não é investigado no caso Master. Mas ele se irritou com a operação, em fevereiro deste ano, que investigou o aporte suspeito de R$ 400 milhões do fundo Amapá Previdência (Amprev) no Master. Um dos alvos foi o então diretor da Amprev, Jocildo Lemos, que teria sido indicado para a função por Alcolumbre. O presidente do Senado negou a indicação.

Mas a apuração da PF não teve como foco apenas a previdência dos servidores dos Amapá. Esse braço das investigações envolve mais de R$ 1 bilhão em recursos de institutos previdenciários dos servidores do Rio de Janeiro, do Amazonas, e de alguns municípios paulistas, aplicados no Master.

Quando a PF saiu em campo em Macapá, reduto de Alcolumbre, aliados levaram a Lula a informação de que o presidente do Senado se queixava de suposta perseguição policial. Mas segundo esses aliados, o petista ponderava que não tinha o que fazer, já que até o seu primogênito, o empresário Fábio Luís Lula da Silva, teve o nome implicado nas apurações sobre as fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

De fato, os desdobramentos das investigações envolvendo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro revelaram que, ao contrário das queixas de políticos de todos os matizes, a Polícia Federal parece não ter partido político de estimação. Com o levantamento do sigilo de provas determinado pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, relator do caso Master, já se tornaram públicos elementos das investigações que recaem sobre o presidente do Progressistas (PP), senador Ciro Nogueira (PI), o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), e agora, sobre o líder do governo. O presidenciável do PL, senador Flávio Bolsonaro (RJ), também apareceu envolvido no caso, como mostrou a imprensa.

Nesse contexto, outro líder advertiu, contudo, que se a PF tem autonomia plena para investigar até mesmo o influente líder do governo, a realidade é que ninguém estaria blindado e, portanto, todos na República podem ser pegos de calças curtas. Estão todos vulneráveis.

Outra avaliação que circulou entre lideranças políticas na quinta-feira foi de que, se o caso Master tem de atingir alguém da base de Lula, o quanto antes isso acontecer, melhor. O cálculo é de que, se for inevitável, melhor que aconteça agora, a quatro meses das eleições, do que no momento decisivo do voto. Políticos experientes lembram que o eleitor só decide o voto a poucas semanas do pleito.

Um argumento é de que o tempo cura tudo, até mesmo escândalos políticos. Se as denúncias contra Wagner se tornaram públicas no meio de junho, teriam tudo para perder fôlego com a sucessão de fatos para distrair a atenção do eleitor. No Nordeste, reduto de Wagner, é tempo das concorridas festas juninas. Logo depois, entram na programação as rodadas finais da Copa do Mundo. Mesmo se o Brasil pendurar as chuteiras antes, haverá futebol arte para nos entreter, com craques como Lionel Messi e Kylian Mbappé.

Em contrapartida, o mesmo raciocínio vale para as denúncias que emparaderam Flávio Bolsonaro, e que deram fôlego para Lula nas pesquisas. A rodada mais recente da Quaest mostrou que o senador do PL perdeu pontos valiosos entre os eleitores independentes, e até mesmo no eleitorado cativo da oposição, como os evangélicos, após a revelação do áudio em que chama Vorcaro de “irmão”, e cobra dele o repasse de recursos para o filme “Dark Horse”, sobre a trajetória de seu pai.

Mas na visão de uma liderança governista, haveria uma diferença essencial nas conexões de Flávio Bolsonaro com o Master, e de Jaques Wagner com o banco, que blindaria a campanha lulista. “Em relação ao Flávio, é no CPF dele”, resumiu, lembrando que é o senador que aparece no áudio e nas mensagens com Vorcaro. Por outro lado, é Jaques Wagner o governista envolvido na investigação, um aliado da linha de frente, mas não é Lula. Como ensinou a vencedora do Nobel, o melhor narrador terá o poder.

 

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