O Estado de S. Paulo
A amizade é uma instituição social com enorme
poder no campo jurídico-político. No Brasil e nas sociedades de raiz ibérica, a
amizade que contraria filiações ideológicas e éticas talvez seja uma
instituição básica, e sua ausência das análises poderia ser um traço de sua
importância.
Não há melhor comprovação desse palpite do que a cínica racionalização de Daniel Vorcaro de que tudo foi feito por amizade. Como se a suposta inocência das simpatias pessoais não tivesse a carga de fraude que permeia a “política” dos políticos certos de que seguir a lei é caretice.
O episódio Daniel Vorcaro desvenda, mais uma
vez, como laços matrimoniais e de parentesco concorreram para mascarar o modo
pelo qual a força da reciprocidade contida na amizade torna tudo possível.
Como, aliás, ensinam os velhos axiomas: “Aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei”
e “Tenho todas as coragens, menos a de negar o pedido de um amigo”.
A amizade tem um elemento perturbador: a escolha individual que não cabe no universo do parentesco nem na impessoalidade da lei. No mundo da casa, como revelei no livro A Casa & a Rua, de 1985, não há escolha. Somos obrigados a conviver com a nossa parentela. A amizade, porém, é uma escolha. O saudoso antropólogo americano Eric Wolf chamava atenção para a “amizade expressiva”, contrária à “amizade instrumental”. A primeira seria fundada em afeição mútua; a segunda, voltada para obter recursos e navegar no universo político. Essa distinção mostra o pragmatismo americano, porque todo elo humano significativo implica dar e receber.
O caso Vorcaro é mais um exemplo do
patrimonialismo ibérico estudado por Wolf. Nele, há um viés ausente do
individualismo americano, pois a amizade – instrumental ou interesseira – é um
laço no qual a relação canibaliza e comanda os atores. A amizade licencia
qualquer coisa. No fundo, é o papel de amigo que legitima a fusão ambígua de
republicanismo com familismo. A lei diz “não”, mas a amizade dá um “jeitinho”.
Vorcaro fala em amizade para justificar suas generosas mesadas, festas e
viagens.
Tudo isso nos leva ao entendimento dos
mecanismos sociais do que classificamos como “corrupção” – essa burla da norma
universal e igualitária rompida pelos favores das amizades. Trata-se de um caso
óbvio no qual a lei e a institucionalidade são dobradas pela ética da amizade,
cuja presença no nosso sistema político foi pouco avaliada. Talvez, ouso dizer,
porque essa ponte entre lei e amizade seja muito mais comum do que gostaríamos
que fosse.
O uso da simpatia pessoal para roubar ainda é
um obstáculo para a prática de um sistema fundado na igualdade. Nele, a
distinção de Wolf entre o expressivo e o instrumental não faz parte da
consciência dos que, como eventuais donos do poder, “fazem” política. Contudo,
a grande questão da delação de Vorcaro tem uma aterrorizante dimensão: será que
ele, por amizade, comprou a República?
*É Antropólogo, escritor e autor de ‘Carnavais, malandros e heróis’

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