O Globo
Em testemunho inédito, ex-presidente narra
manobras do Congresso para sangrar o orçamento na República Velha
Esqueça o Brasil polarizado de hoje. Em 1914,
a eleição presidencial teve um único candidato: Wenceslau Braz. O mineiro foi
ungido pela política do café com leite, pacto de oligarquias rurais que dirigia
a República Velha. Sem adversários após a desistência de Ruy Barbosa, só
precisou vencer a própria insegurança para assumir o poder.
“Me julgava pequenino ante tamanha responsabilidade”, confessa, em depoimento que chega às livrarias nos 60 anos de sua morte. “Convicção de meu pouco preparo ou comodismo, o certo é que o posto mais alto jamais aspirei”, justifica-se.
As memórias póstumas logam luz sobre o nono
presidente brasileiro, que era ridicularizado pela imprensa e descrito como
azarado e indeciso. No texto, “Seu Lalau” se apresenta como um político de pouca
ambição, mas com alma de estadista.
“Assumi o cargo sem compromissos senão
aqueles que a honra e o patriotismo impõem”, assegura. Ele descreve a rotina no
Catete como uma vida de sacrifícios. “É de ver-se quanto trabalhei, que esforço
supremo empreguei para cumprir o penoso dever! Dia e noite dediquei-me ao
serviço público, despreocupado de mim e de minha família”, valoriza.
Wenceslau foi vice do antecessor, o marechal
Hermes da Fonseca. Com medo de ser visto como traíra, prometeu ficar longe do
Rio para evitar “intrigas e mexericos”. “Toda oposição aspira atirar o
vice-presidente contra o presidente”, explica.
Eleito chefe de governo, ele diz ter
encontrado uma calamidade nas finanças. “Fiquei estarrecido! Sem dinheiro, sem
crédito, quase sem renda e devendo os cabelos da cabeça, eis a situação!”,
exclama. Passou a tesourar gastos, incluindo os do palácio. “Minhas filhas ou
andavam de bond ou de taxis pagos pelo meu bolso”, orgulha-se.
O mineiro viveu tempos turbulentos. Seu
mandato coincidiu com a Primeira Guerra Mundial, a gripe espanhola e a Greve
Geral de 1917. Ele não escreve uma linha sobre o levante operário, que mandou
reprimir com violência. Ao narrar a vida de industrial após deixar a política,
diz que tratava os trabalhadores “como amigos, quase como filhos”.
A entrada na política se deu pela via do
familismo. O “venerando pai”, Francisco Braz, era chefe conservador no interior
de Minas. “Fui político, muito político desde meus 12 anos”, escreve Wenceslau.
Aos 24, ele se elegeu deputado estadual graças à máquina operada pelo clã.
“Prestígio no estado não tenho, nem poderia ter”, admitiu a um amigo. Sua
cidade natal, São Caetano da Vargem Grande, viraria Brazópolis em homenagem ao
patriarca.
O ex-presidente rascunhou as memórias num
caderno de capa dura, “para conhecimento de meus descendentes.” O documento
ficou guardado por seis décadas, até que os herdeiros autorizaram a publicação
sob o título “Esboço de minha vida política”. No posfácio, o historiador
Francisco Alambert observa que o ex-presidente, “certamente sem se dar conta,
descreve o passo a passo da política de compadrio, favorecimento e concentração
de poder” que marcou a Primeira República.
O Brasil mudou muito, mas não mudou em tudo.
Ao relembrar embates com o Congresso, Wenceslau critica as “caudas
orçamentárias”, antepassadas do orçamento secreto. “Não se pode imaginar os
escândalos que houve”, afirma. O ex-presidente diz que os parlamentares criavam
dificuldades para emplacar emendas pouco republicanas, que causavam
“verdadeiras sangrias no pobre Tesouro”. “Despesas sumptuárias, favores
pessoais, eram por essa forma aprovados”, conta.

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