domingo, 7 de junho de 2026

Era no tempo do Lalau, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Em testemunho inédito, ex-presidente narra manobras do Congresso para sangrar o orçamento na República Velha

Esqueça o Brasil polarizado de hoje. Em 1914, a eleição presidencial teve um único candidato: Wenceslau Braz. O mineiro foi ungido pela política do café com leite, pacto de oligarquias rurais que dirigia a República Velha. Sem adversários após a desistência de Ruy Barbosa, só precisou vencer a própria insegurança para assumir o poder.

“Me julgava pequenino ante tamanha responsabilidade”, confessa, em depoimento que chega às livrarias nos 60 anos de sua morte. “Convicção de meu pouco preparo ou comodismo, o certo é que o posto mais alto jamais aspirei”, justifica-se.

As memórias póstumas logam luz sobre o nono presidente brasileiro, que era ridicularizado pela imprensa e descrito como azarado e indeciso. No texto, “Seu Lalau” se apresenta como um político de pouca ambição, mas com alma de estadista.

“Assumi o cargo sem compromissos senão aqueles que a honra e o patriotismo impõem”, assegura. Ele descreve a rotina no Catete como uma vida de sacrifícios. “É de ver-se quanto trabalhei, que esforço supremo empreguei para cumprir o penoso dever! Dia e noite dediquei-me ao serviço público, despreocupado de mim e de minha família”, valoriza.

Wenceslau foi vice do antecessor, o marechal Hermes da Fonseca. Com medo de ser visto como traíra, prometeu ficar longe do Rio para evitar “intrigas e mexericos”. “Toda oposição aspira atirar o vice-presidente contra o presidente”, explica.

Eleito chefe de governo, ele diz ter encontrado uma calamidade nas finanças. “Fiquei estarrecido! Sem dinheiro, sem crédito, quase sem renda e devendo os cabelos da cabeça, eis a situação!”, exclama. Passou a tesourar gastos, incluindo os do palácio. “Minhas filhas ou andavam de bond ou de taxis pagos pelo meu bolso”, orgulha-se.

O mineiro viveu tempos turbulentos. Seu mandato coincidiu com a Primeira Guerra Mundial, a gripe espanhola e a Greve Geral de 1917. Ele não escreve uma linha sobre o levante operário, que mandou reprimir com violência. Ao narrar a vida de industrial após deixar a política, diz que tratava os trabalhadores “como amigos, quase como filhos”.

A entrada na política se deu pela via do familismo. O “venerando pai”, Francisco Braz, era chefe conservador no interior de Minas. “Fui político, muito político desde meus 12 anos”, escreve Wenceslau. Aos 24, ele se elegeu deputado estadual graças à máquina operada pelo clã. “Prestígio no estado não tenho, nem poderia ter”, admitiu a um amigo. Sua cidade natal, São Caetano da Vargem Grande, viraria Brazópolis em homenagem ao patriarca.

O ex-presidente rascunhou as memórias num caderno de capa dura, “para conhecimento de meus descendentes.” O documento ficou guardado por seis décadas, até que os herdeiros autorizaram a publicação sob o título “Esboço de minha vida política”. No posfácio, o historiador Francisco Alambert observa que o ex-presidente, “certamente sem se dar conta, descreve o passo a passo da política de compadrio, favorecimento e concentração de poder” que marcou a Primeira República.

O Brasil mudou muito, mas não mudou em tudo. Ao relembrar embates com o Congresso, Wenceslau critica as “caudas orçamentárias”, antepassadas do orçamento secreto. “Não se pode imaginar os escândalos que houve”, afirma. O ex-presidente diz que os parlamentares criavam dificuldades para emplacar emendas pouco republicanas, que causavam “verdadeiras sangrias no pobre Tesouro”. “Despesas sumptuárias, favores pessoais, eram por essa forma aprovados”, conta.

 

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