sábado, 27 de junho de 2026

Cabo Verde, ‘nha cretcheu’, por Eduardo Affonso

O Globo

Não sou o único a torcer por aquilo que poucos esportes, além do futebol, ousam proporcionar: a chance de vitória do mais fraco

Copa do Mundo não é bem um evento destinado a quitar dívida histórica, fazer o acerto de contas entre colonizadores e colonizados ou reencenar, catarticamente, a vitória de Davi sobre Golias. Mas percebo que não sou o único a torcer por aquilo que poucos esportes, além do futebol, ousam proporcionar: a possibilidade de vitória do mais fraco.

Basta sair a lista das seleções classificadas, e já começo a embandeirar o coração com as cores de países onde nem imaginava haver estádios, gandulas, finta e catimba. Em 2026, os candidatos naturais seriam Curaçao e Haiti, mas como resistir a Cabo Verde, em sua estreia na competição?

Cabo Verde é um Brasilin, chei di ligria, chei di cor. Passei lá um carnaval, com direito a desfile de escola de samba, em Mindelo, e baile animado por marchinhas (“Cidade maravilhosa”, inclusive) e coladeiras. A Fifa não se enganou tanto assim ao situar a terra de Vozinha em Minas Gerais: quem conhece Cabo Verde não esquece jamais.

Não esquece a cachupa pobre (cozido de milho, feijão, mandioca, banana, couve e peixe), o grogue (aguardente de cana ainda mais forte que a cachaça), a morna (parente da nossa modinha). E se emociona depois ao reconhecer a doçura da mazurca cabo-verdiana na cena final de “Fale com ela” (Almodóvar tem ouvido apurado) ou a voz dolente de Cesária Évora no tango “Ausência”, de “Underground” (Emir Kusturica parece querer trazer a desoladora paisagem do país — só rotcha i mar — para a Bósnia destruída pela guerra, assim como Walter Salles para o Brasil pós-Collor, em “Terra estrangeira”).

O que Cabo Verde tem de árido (não há um único rio perene), o povo tem de hospitaleiro. Tanto que precisou inventar uma palavra para essa simpatia, essa afetuosidade. O adjetivo “amorável” virou morabe e fez-se morabeza: a arte do sorriso, da amabilidade, da gentileza. Da mesma raiz de saber e sabor, os cabo-verdianos criaram sabura: a sabedoria de ter prazer com as coisas simples, a delícia de viver com leveza, com alegria.

Percorri o arquipélago — ilhas do Sal, Santiago, São Vicente, Santo Antão — de avião, de barco, de carona, a pé. Aceitando convites para um café, uma garapa. Fotografando a pelada de meninos descalços numa ribeira seca, ouvindo histórias da repressão política, da tortura e da censura durante o regime marxista — uma época certamente sem morabeza e sem sabura alguma. E que não deixou sodade.

Tentei estudar o idioma local, mas nem era necessário. Na aldeia de São Pedro, a dona do bar reagiu, incrédula, quando pedi uma cerveja:

— Bô tá falá sima un novela!

Sim, para ela eu não falava a língua geral do Agualusa ou a língua brasileira do Marcos Bagno, mas aquele dialeto que ela ouvia na televisão: eu estava a falar que nem novela. Aprendi só o mais importante: nha cretcheu (querer + tcheu, que significa “muito”), uma forma de dizer minha querida, meu bem-amado (ama-se, por lá, em linguagem neutra).

Em campo, os “tubarões azuis” não se intimidaram com a Espanha nem com o Uruguai. E mostraram que não se deve subestimar um time cujos craques atendem por Sidny, Diney, Pico, Jamiro, Gilson, Ryan, Kevin, Jovane, Dailon e Vozinha.

Nesta Copa, por mais que torça pela escalação do Endrick, pela artilharia do Vini Jr. e pelo hexa, sou Cabo Verde desde criancinha.

 

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