Folha de S. Paulo
Governismo acha que pode se sair bem por
direita estar afundada na onda de bandalheira
Acordões têm substituído política do pega
para matar, vigente desde 2016
A
temporada de festas juninas está no auge. A diversão com a Copa está
grande, com histórias de muitos países e jogadores para distrair a metade do
país que se interessa pelo assunto. O
time do Brasil ainda disputa a competição.
Em breve, parte do país entra em férias,
pequena, é verdade, mas os povos do poder político entram em recesso em julho.
A campanha eleitoral começa, na prática, em agosto.
Enfrentar escândalo é um perigo, cada vez menor, pois o país parece anestesiado pela recorrência ideologicamente ecumênica de bandalheiras. No entanto, o prejuízo tende a ser menor em momentos de distração ainda maior, como neste, de festa, Copa e férias.
O entorno político de Luiz Inácio Lula da Silva
conta que diversão e diversionismos possam
atenuar o impacto do caso de Jacques Wagner (PT-BA), líder do governo no
Senado. Petistas graúdos, mas nem todos, também acham que a oposição não vai
fazer a caveira do senador petista ou malhar Wagner além do protocolo e do
interesse comedido, pois as direitas têm mais culpas no cartório Master e
cadáveres em outros armários. Quanto a isso, note-se o mutismo ou a reação contida
da oposição ao petismo, entrincheirado na Bahia. Além do mais, apesar do
dinheiro vivo achado com Wagner, faltaram evidências letais ou, então, mais
espetaculares, tais como mensagens ou áudios de declaração de amor
fraterno, que
queimaram ainda mais o filme dos senadores Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e Ciro
Nogueira (PP-PI).
Note-se ainda a reação à batida
da Polícia Federal no banco Digimais, de Edir Macedo, mais uma
evidência de podridão na nova finança. Quase todo o mundo paralelo do sistema
político fez cara de paisagem. Claro que o fato de Macedo ter milhões de fiéis,
TVs e um partido nuclear do centrão contribui para evitar exaltações políticas
em relação ao caso.
Também preocupa relativamente menos o pessoal
do Planalto a perspectiva de que o petismo-lulismo ainda possa vir a sangrar
mais por causa das ligações
da cúpula petista da Bahia com a turma de Daniel Vorcaro. O outro lado,
bolsonarismo e agregados, correria mais riscos, se diz.
Entende-se, claro, a lógica política baixa.
Essa mentalidade, além do mais, deriva também do sistema de acordões ou de
breves coalizões para tirar adversários do jogo, vigente pelo menos desde a
deposição de Dilma Rousseff. Esse sistema "pega para matar" operou
para derrubar a presidente e colocar Lula na prisão, não importam argumentos
jurídicos, existissem ou não. Acordões e outras tentativas de manipular o
sistema de escolha de lideranças do país também serviram para tirar Lula da
cadeia, dado o estrago Jair Bolsonaro, e
para enterrar evidências da Lava Jato, mais do que reagir à picaretagem do
lavajatismo.
O extenso envolvimento do sistema político
(Executivo, Legislativo e Judiciário) com corrupção e outros crimes serve de
vacina para a formação de coalizões demagógicas e hipócritas para liquidar
oponentes. Se existe possibilidade de destruição mútua assegurada, melhor não
atacar.
A esquerda, porém, deveria acordar. Em tese,
prega que um outro mundo é possível, para dizer a coisa de modo sarcástico. Em
termos práticos, deveria lembrar que, vez e outra, os poderes políticos e
econômicos se juntam para cortar a cabeça da esquerda, se não da democracia. Se
não fosse por motivos de decência, a esquerda e o centro democrático deveriam
lembrar que são as partes fracas do acordão.
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