Correio Braziliense
O mundo já não vive a Guerra Fria, o Brasil é
uma democracia consolidada e as relações entre Brasília e Washington são
marcadas por intensa interdependência econômica
Desde a crise que culminou no golpe militar
de 1964, dificilmente um político brasileiro expôs de forma tão explícita sua
interlocução com autoridades dos Estados Unidos durante uma disputa política
interna quanto o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL).
Entretanto, o circunstâncias históricas são distintas. O mundo já não vive a
Guerra Fria, o Brasil é uma democracia consolidada e as relações entre Brasília
e Washington são marcadas por intensa interdependência econômica. Ainda assim,
os acontecimentos recentes recolocaram em debate a influência externa sobre os
rumos da política brasileira.
O episódio ganhou dimensão eleitoral após a visita de Flávio a Washington. Ali, reuniu-se com integrantes do governo Donald Trump, incluindo o secretário de Estado Marco Rubio, o vice-presidente J.D. Vance e o próprio presidente norte-americano. O encontro antecedeu duas decisões relevantes: a classificação do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas pelo governo dos EUA e a manutenção do processo que poderá resultar na imposição de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros.
Em carta enviada a Flávio, Rubio agradeceu o
apoio recebido na classificação das facções criminosas e escreveu que os
Estados Unidos reconhecem que "a violência e as sofisticadas redes
criminosas dessas facções ameaçam a segurança de cidadãos honestos em todo o
nosso hemisfério compartilhado". Acrescentou que Washington atua para
atingir "as redes financeiras, de drogas e de armas" dessas
organizações.
Rubio deixou claro que permanecem
"divergências substanciais" entre os dois países nas áreas de
comércio digital, sistemas de pagamento eletrônico, propriedade intelectual,
acesso ao mercado de etanol, combate ao desmatamento ilegal e tarifas
preferenciais. Mas agradeceu a Flávio pela "generosa oferta de colocar uma
equipe de transição à nossa disposição caso o senhor seja eleito".
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem elevado o tom
com a Casa Branca: "Nós somos muito grandes, temos muita história. E nós
não podemos aceitar o tratamento que os Estados Unidos deram ao Brasil nesta
semana". Acrescentou que "ninguém pode dizer que o Brasil se negou a
negociar com os Estados Unidos" e classificou Marco Rubio como "um
latino-americano frustrado". Dias depois, reforçou o discurso de defesa da
soberania nacional ao afirmar que o Brasil precisa estar preparado para um
mundo mais instável: "Eu não quero guerra, mas também não quero ser pego
de surpresa".
Há algumas semanas, Lula esteve na Casa
Branca. Foi uma tentativa de reconstruir a relação bilateral com Trump. O
encontro foi considerado cordial pelos dois governos e procurou reduzir tensões
comerciais e geopolíticas. Entretanto, a manutenção da investigação comercial
conduzida pelo USTR (singla em inglês do Escritório do Representante Comercial
dos Estados Unidos) e do chamado tarifaço demonstrou que a aproximação política
não alterou as prioridades econômicas de Washington.
Ofensiva de direita
Figura chave nas atuais relações Brasil-EUA ,
Rubio é filho de imigrantes cubanos e defensor de uma política externa dura
para a América Latina. Mantém intensa interlocução com lideranças de
extrema-direita e conservadoras do Brasil. Entretanto, sua carta também
evidencia que os governos dos EUA mudam, mas os interesses estratégicos
permanecem. Ao agradecer a Flávio, confirmou a continuidade das medidas
comerciais contra o Brasil.
Trump comemora a eleição de governos de
direita na América Latina, na expectativa de que isso contenha a presença
comercial da China. Estabeleceu-se um cinturão conservador nas fronteiras do
Brasil, agora formado por Argentina, Paraguai, Bolívia, Peru e Colômbia. A
comparação com 1964 é inevitável.
Naquele contexto de radicalização ideológica
provocado pela Guerra Fria, o então governador do antigo estado da Guanabara,
Carlos Lacerda, o principal líder civil da oposição ao presidente João Goulart,
em diversas viagens aos EUA encontrou-se com autoridades norte-americanas,
empresários e formadores de opinião para denunciar o governo brasileiro como
incapaz de conter o avanço do comunismo.
Sua intensa articulação internacional
transformou-se num dos elementos da crise política que desembocaria no golpe
militar de 31 de março de 1964. João Goulart ainda tentou neutralizar essa
ofensiva. Em abril de 1962, visitou Washington e reuniu-se com o presidente
John F. Kennedy. O objetivo era compatível com a democracia e preservar o apoio
financeiro norte-americano, mas não eliminou a crescente desconfiança da Casa
Branca em relação ao seu governo.
Documentos posteriormente desclassificados
revelaram que o governo Lyndon Johnson preparou a Operação Brother Sam, um
plano de apoio logístico aos militares brasileiros caso houvesse resistência ao
golpe: navios com combustível, munições e equipamentos foram deslocados para a
costa brasileira. A rápida queda do governo Goulart tornou desnecessário seu
emprego.
O caso brasileiro não foi isolado. Ao longo
das décadas de 1950, 1960 e 1970, a CIA também participou de golpes na
Argentina, na Bolívia, no Chile, no Paraguai, no Uruguai e no Peru. A
história parece querer se repetir, só não sabemos ainda se como farsa ou como
tragédia.

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