sexta-feira, 19 de junho de 2026

Desencontro entre partidos e sociedade, por Fernando Luiz Abrucio*

Valor Econômico

Sem reduzir essa barreira, será muito difícil melhorar a democracia brasileira

Desde a redemocratização, nunca houve um momento em que o desencontro entre os partidos e a sociedade fosse tão evidente e amplo como atualmente. As legendas partidárias não eram perfeitas, mas tiveram um papel muito importante desde a campanha das Diretas Já até as eleições de 2014. Depois disso, o corporativismo dos parlamentares e a construção de castas partidárias endinheiradas geraram um muro imenso que os separa dos cidadãos. Sem reduzir essa barreira, será muito difícil melhorar a democracia brasileira.

Na maior parte da história brasileira, a trajetória dos partidos foi construída de costas para a sociedade. Do Império à Revolução de 1930, as agremiações partidárias foram montadas de forma elitista ou por uma burocracia centralizada ou por oligarquias regionais, num país em que não havia um projeto de cidadania. Com o final do Estado Novo, montou-se uma primeira versão de democracia de massas, com maior competição partidária e ampliação dos grupos sociais com capacidade de afetar o jogo político. Essa experiência foi logo interrompida pelo golpe de 1964, que instalou um longo regime autoritário.

O ocaso do regime militar foi marcado pela atuação de diversos grupos sociais contra o autoritarismo. O novo sindicalismo, Igreja Católica, movimentos sociais urbanos e rurais, associações empresariais, as nascentes ONGs, universidades, entre os principais, estiveram presentes em eventos estratégicos, como as Diretas Já e a Constituinte. Mais do que isso, ajudaram na construção dos partidos, com suas lideranças concorrendo às eleições e ocupando cargos públicos.

Os primeiros 25 anos da redemocratização foram marcados por um entusiasmo pela participação popular e pela capacidade de uma parte importante da sociedade atuar em governos por toda a Federação, com experimentos inovadores em governos locais - o Bolsa Família e o Programa Saúde da Família surgiram em administrações municipais - e uma geração de especialistas com inserção social trabalhando no governo federal.

Os políticos tradicionais do clientelismo ainda eram hegemônicos, muitos com origem no antigo PDS, a legenda governista da ditadura militar. Mas foram obrigados a incorporar boa parcela da agenda definida pelas lideranças sociais que emergiram com a redemocratização. O equilíbrio entre esses dois grupos foi comandado pela competição entre PSDB e PT, com muitas negociações com o “atraso”, como dizia o presidente Fernando Henrique, mas gerando avanços incrementais importantes em diversas políticas públicas.

A crise do sistema partidário montado no início da redemocratização foi iniciada com as jornadas de junho de 2013. Sua eclosão se deu pela reivindicação por melhorias do Estado brasileiro, como se fosse uma denúncia sobre os limites do modelo modernizador montado pela dupla PSDB-PT - que tinha trazido muitos avanços, mas certamente havia problemas. Com o seu decorrer, porém, aquela grande mobilização inicial permitiu o aparecimento de novos grupos sociais, alguns deles claramente antidemocráticos.

A eleição de 2014 e a Operação Lava Jato amplificaram a crise dos partidos que eram então hegemônicos, atingindo particularmente o PT, o PSDB e o então PMDB. O discurso antissistema ganhou força, e seu principal beneficiário foi Jair Bolsonaro, que criou um grupo político forte - o bolsonarismo - com base nas redes sociais e também em setores populares, sendo eleito presidente da República em 2018. Vale reforçar que os grupos sociais que tinham se fortalecido com a redemocratização já não tinham mais, em sua maior parte, a força ou engajamento suficiente junto às agremiações partidárias.

Só que houve um paradoxo que marca até hoje o sistema político: se havia de um lado a emergência de um novo grupo político ao mesmo tempo popular e antissistêmico, por outro lado o Congresso Nacional reforçou as regras que protegiam seus componentes e ampliavam fortemente os recursos públicos para o financiamento das agremiações partidárias e o processo eleitoral.

Na verdade, após o fracasso inicial do governo Bolsonaro em jogar contra o sistema político, que poderia ter gerado um impeachment por conta da desastrosa e criminosa política bolsonarista na pandemia de covid-19, ocorreu um casamento entre estes dois vetores: a extrema direita manteve o domínio do jogo eleitoral mais geral, fechando as portas para a centro-direita, e uma parcela majoritária do Centrão ganhou grande poder com o emendismo e os novos fundos públicos. Formou-se uma aliança inusitada entre políticos golpistas e antidemocráticos com clientelistas muito fortalecidos e pouco afeitos à responsabilização política mais ampla.

A vitória de Lula em 2022 trouxe esperança de um retorno da “sociedade civil” da redemocratização à esfera pública. Durante a campanha, a conquista de vários apoios de grupos não petistas, uma espécie de frente ampla contra o bolsonarismo autoritário, reforçou essa possibilidade. Os resultados foram mistos e insuficientes, e é preciso entender as razões disso.

É evidente que voltaram à cena pública grupos alijados durante o mandato de Bolsonaro. Comunidades indígenas, quilombolas, movimento negro, organizações feministas, sindicatos de trabalhadores, ambientalistas, educadores, entre outros, foram chamados novamente a participar do debate e articulação das políticas públicas. A volta deles, no entanto, não tem a mesma intensidade e grandeza do período da redemocratização, o mesmo impacto sobre o sistema político, e nem mesmo consegue dar a força partidária que o PT teve no seu período áureo, especialmente durante os dois primeiros governos de Lula.

A questão não se esgota, contudo, na redução da força desses grupos. Uma parte significativa daqueles que tiveram um papel central na redemocratização não percebeu ainda que a sociedade brasileira passou por muitas modificações estruturais nos últimos anos, inclusive por conta do sucesso de políticas públicas gestadas por FHC e Lula. Ademais, houve transformações demográficas, no mundo do trabalho, no campo religioso, nas esferas de influência econômica e na constituição de uma esfera pública digital que mexeram com o balanço de poder entre os grupos sociais.

Soma-se a esses dois fatores a dificuldade do lulismo em mobilizar, para além das eleições em que há um “inimigo maior” (como o bolsonarismo autoritário e envolvido em falcatruas), setores da classe média e grupos de eleitores de centro ou independentes. Especialmente a partir da crise da Operação Lava Jato, a centro-esquerda liderada pelo PT não conseguiu mais se encontrar com esse eleitorado. O antipetismo virou uma caricatura, é verdade, mas também os petistas não conseguem sair de sua cartilha e incorporar as demandas de quem pensa diferente.

O desencontro da sociedade com o sistema partidário se relaciona, ainda, com o ocaso do PSDB como força relevante, resultante de muitos erros de suas lideranças e de sua visão muito pouco popular do processo democrático. Com essa decadência, o que poderia ser chamado de um centro partidário foi junto para o ralo. Sua reconstrução depende de uma dupla tarefa: reorganizar-se a partir da sociedade, mobilizando-a para além das eleições, e estruturar uma legenda partidária, não para ser algo que não cabe no bolsonarismo ou no lulismo, mas que tenha um projeto baseado em ideias e estratégia.

O muro colocado pelo sistema partidário à participação social mais ampla vincula-se tanto às regras que o encastelam perante o controle público, como pela dificuldade de juntar setores sociais num projeto democrático voltado aos desafios do século XXI num país muito mais complexo e ainda incompreendido por quem fez a redemocratização em seus capítulos mais bem-sucedidos. Ignorar ou menosprezar os novos grupos ou então tentar se grudar a eles apenas nos momentos mais próximos da eleição constitui um passo equivocado que não gerará um caminho consistente de convencimento e incorporação a uma visão democrática.

No fundo, está faltando às principais lideranças políticas e sociais compreender melhor o Brasil atual, a visão de seus diversos estratos populacionais, conversar com os diferentes e procurar denominadores comuns. Para isso, é preciso uma atividade constante de articulação, como vários atores realizavam entre os anos 1980 e 1990. Porém, a maioria dos partidos está bem distante dos espaços que formam opinião e talvez estejam muito petrificados nas posições e recursos obtidos dentro do sistema partidário.

Mesmo que toda essa articulação social se estabeleça, permanece o problema institucional. Os incentivos recentes do emendismo e da montanha de dinheiro aos partidos, somados a características históricas do sistema que favorecem o caciquismo e a falta de abertura à sociedade, precisam ser combatidos. E os dois movimentos, o da sociedade para os partidos e da reformulação destes, precisam ser feitos concomitantemente, com lideranças que busquem ser populares e com movimentos coletivos estratégicos de longo prazo. Esse caminho não será a tônica das eleições de 2026, mas procurar construí-lo seria a forma de evitar que o país mantenha o desencontro que impede sua transformação mais profunda.

*Fernando Abrucio, doutor em ciência política pela USP e professor da Fundação Getulio Vargas

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