O Globo
É preciso eleger alguém que compreenda o
potencial do Rio e queira fazer algo decente por um estado que vem sendo
saqueado ao longo do tempo
Quem mora no Rio e não pensa em se mudar
precisa considerar a possibilidade que se abre de abolir a triste tradição de
ver os governadores saindo do Palácio Guanabara para a cadeia.
As eleições nos dão uma chance, talvez a única, de nos livrarmos desse tipo de governo. É preciso eleger alguém que compreenda o potencial do Rio e queira também fazer algo decente por um estado que vem sendo saqueado ao longo do tempo.
Não tenho ilusões de que essa mudança possa
ser feita da noite para o dia. O último governador conseguiu adaptar alguns
setores da administração a sua perspectiva predadora. Isso é demonstrado na
sonegação da Refit — até setores do meio ambiente foram cooptados para o crime.
É possível que grande parte da administração tenha apodrecido.
É preciso um plano de trabalho cauteloso para
avançar nesse campo minado. Caso contrário, haverá colapso. Da mesma forma, não
será possível romper com todos na Assembleia Legislativa. É preciso manter
contato com alguns para ir se livrando progressivamente da máfia. Do contrário,
haverá paralisia.
Nesse ponto específico, a volta por cima
depende parcialmente de nós. Temos de escolher bem os deputados, acompanhar o
trabalho de quem elegemos. A própria imprensa, na medida em que se concentre
nos deputados, poderá ajudar a minoria, com apoio da opinião pública, a evitar
barbaridades e avançar alguns projetos indispensáveis.
O grande tema na recuperação é a segurança
pública. Para que tenhamos um trabalho de excelência e profissionalismo, será
preciso ir além do discurso de matar bandidos. O governador eleito terá de ser
capaz de convencer a sociedade de que a segurança pública exige investimentos
em salários, equipamento e formação.
O estado tem pouco recurso. Mas a importância
da segurança pública no Rio tem dimensão internacional. Brasília precisa ter
sensibilidade para o tema que se tornou um delicado item da política externa.
Mesmo antes disso, o sofrimento de milhões de
fluminenses, alguns sem gozar a liberdade nas áreas ocupadas pelo crime
organizado, já seria motivo mais que razoável para que os governos estadual,
federal e municipal se unissem.
A devastação moral, as dívidas crescentes, a
captura de setores da administração pelo crime, a insegurança urbana, tudo isso
é motivo para que todos os setores vivos e criativos do Rio se unam e tentem
uma volta por cima.
Sem a consciência de que temos uma chance e
de que é preciso embarcar nela, dificilmente as coisas acontecerão entregues
apenas ao domínio da política profissional.
O Rio chegou a este ponto porque grande parte
das forças criativas considera que não vale a pena acompanhar esse espetáculo
desagradável. Pois nossos olhos, nossa voz, nossa atenção podem ser o veículo
adequado para que os políticos realizem pelo menos um trabalho razoável. Não há
nada a perder, basta embarcar nessa última chance.

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