Por Jamil Chade - CartaCapital
A impunidade aos crimes de Israel não atinge
apenas a Palestina, diz Francesca Albanese, relatora da ONU
Relatora especial da ONU para os territórios palestinos ocupados, a italiana Francesca Albanese paga um preço alto por sua coragem e independência. As denúncias dos crimes cometidos por Israel em Gaza levaram os Estados Unidos, aliado de primeira hora dos israelenses, a impor sanções econômicas e financeiras à advogada, uma “forma de morte civil”, segundo ela. Albanese sofre com as consequências, mas não se curva. E conta a própria história, das primeiras visitas à região às turbulências recentes, no livro Quando o Mundo Dorme: Histórias, Palavras e Feridas da Palestina, lançado no Brasil pela Editora Tabla. Apesar de ter assistido ao massacre e lidar com a desesperança, conforme afirma nesta entrevista, ela ainda acredita na possibilidade de uma convivência pacífica entre os dois povos. Mas a paz, observa, “exige responsabilização por violações, igualdade de direitos para todos, o fim da ocupação e do apartheid e a plena realização do direito do povo palestino à autodeterminação”.
CartaCapital: Como a senhora qualifica a expansão do controle territorial de Israel em Gaza?
Francesca Albanese: Testemunhamos não só uma expansão do controle
territorial ilegal sobre terras palestinas pela força. É o culminar de um
processo de décadas com o objetivo de consolidar o domínio sobre um povo cujo
direito à autodeterminação tem sido sistematicamente negado. Esse processo
envolveu uma série de graves violações do direito internacional, incluindo
deslocamento populacional, engenharia demográfica, ocupação ilegal, expansão de
assentamentos, deslocamento forçado, punição coletiva, apartheid, todos
proibidos pelo direito internacional, e outros atos que o arcabouço jurídico
internacional foi especificamente concebido para prevenir. Em contrapartida,
Israel se beneficiou de um clima de impunidade de longa data. A falha dos
Estados em fazer cumprir o direito internacional e manter suas obrigações
permitiu que violações cada vez mais graves se desenrolassem, culminando em
condutas que muitos especialistas, instituições e até mesmo tribunais
identificaram como o limiar do genocídio.
CC: E quais são as consequências?
FA: O que está em jogo vai além da Palestina. O projeto não se trata mais
apenas de controlar o território palestino. Cada vez mais, a situação parece
estar ligada a uma afirmação mais ampla de domínio regional. A devastação
infligida a partes do Líbano, as repetidas operações militares além da
Palestina e o confronto contínuo com o Irã sugerem um estágio avançado de um
projeto cujas ambições não se restringem mais ao território palestino ocupado.
Quer se descreva isso como hegemonia regional ou uma visão de um “Grande Israel”,
a realidade é que o uso de força militar esmagadora, combinado com a erosão das
restrições legais, ameaça não apenas os palestinos, mas a estabilidade de toda
a região e além. De uma perspectiva jurídica, a questão é simples: territórios
não podem ser adquiridos pela força, povos não podem ser deslocados ou apagados
para acomodar ambições territoriais, e nenhum Estado está isento das normas
criadas para proteger a humanidade do abuso de poder.
CC: O que Gaza significa para o direito internacional?
FA: Gaza, assim como o resto da Palestina e o Líbano, é o teste definitivo
para saber se o direito internacional se aplica igualmente a todos. Tornou-se
um espelho que reflete tanto a fragilidade da nossa ordem jurídica quanto o
estado da nossa consciência moral coletiva. Se o mundo não conseguir impedir um
genocídio, obrigar o perpetrador a cessar a sua conduta e garantir a
responsabilização, teremos de confrontar uma realidade perturbadora. Apesar de
todo o progresso jurídico alcançado desde os horrores do século XX, podemos
estar a falhar onde as gerações anteriores ao menos reconheciam que lhes
faltavam as ferramentas jurídicas necessárias. Disseram-nos que milhões
pereceram porque o racismo e as ideologias supremacistas operavam num mundo que
não possuía um quadro jurídico adequado para prevenir e punir tais crimes.
Hoje, essa desculpa já não existe. Temos a Convenção sobre o Genocídio. Temos o
direito penal internacional. Temos obrigações legais não só para punir o
genocídio, mas para o prevenir. Temos proibições contra a perseguição, o
apartheid, o deslocamento forçado, a punição coletiva e até mesmo a incitação
pública ao genocídio.
CC: Qual é a sua mensagem para o governo brasileiro em relação ao futuro do Estado da Palestina?
FA: Continuar a defender firmemente o direito internacional, apoiar a
autodeterminação palestina, que não se esgota na defesa da solução de dois
Estados, e contribuir ativamente para o fim da impunidade e para o avanço de
uma paz justa. Ou seja, uma paz baseada no respeito aos direitos do povo
palestino. Israel está hoje perante dois tribunais internacionais por
genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade. O Tribunal
Internacional de Justiça declarou a ocupação ilegal e determinou seu
desmantelamento total e incondicional, o que implica a retirada imediata das
tropas, o desmantelamento das colônias e o fim da exploração dos recursos
palestinos, enquanto os Estados são obrigados a não reconhecer como legal nada
que emane do empreendimento ilegal de Israel, que também configura
discriminação racial e apartheid, como examinou o tribunal, que esteja
destinado a impactar negativamente os direitos dos palestinos. Tudo isso
implica que Estados como o Brasil precisam romper laços econômicos, financeiros
e militares com Israel. Isso também implica garantir a responsabilização,
inclusive de empresas e entidades comerciais que lucram com ou permitem
violações. Requer a investigação e, quando apropriado, o processamento de
indivíduos suspeitos de crimes internacionais cometidos na Palestina,
independentemente da nacionalidade, incluindo aqueles que possam viajar para o
Brasil.
CC: Como as sanções aplicadas pelos EUA mudaram sua vida?
FA: Elas impuseram profundas restrições pessoais e profissionais. As
sanções tiveram consequências semelhantes a uma forma de morte civil. Perdi
minha independência financeira e, em muitos aspectos, passei a depender do
apoio de outros para assuntos cotidianos. É uma experiência profundamente
desorientadora. Mas elas expuseram algo muito maior do que o meu caso
individual, o alcance extraordinário das medidas coercitivas unilaterais
impostas pelos EUA e a vulnerabilidade das instituições internacionais à
pressão política. Os indivíduos deveriam parar e se perguntar: como é possível
que sanções impostas por um único Estado possam ter efeitos mundiais? A
resposta está na arquitetura das finanças globais. Na prática, grande parte do
sistema bancário internacional permanece sujeita, direta ou indiretamente, à
jurisdição e influência dos Estados Unidos. Isto deveria preocupar a todos,
independentemente do que pensem da Palestina, de mim ou do meu mandato.
“Estados como o Brasil precisam romper laços
econômicos, financeiros e militares com Israel”
CC: Como a senhora qualifica o comportamento da ONU?
FA: A ONU não é um bloco monolítico, e Gaza deixou isso abundantemente
claro. Diversos órgãos, incluindo especialistas independentes, a Comissão de Inquérito
e o Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos,
documentaram e condenaram violações graves com notável consistência. A eficácia
da organização tem sido, porém, limitada pelos interesses políticos de Estados
membros poderosos. Esta é, em última análise, uma crise de vontade política,
não de normas jurídicas. Particularmente trágico é o desmantelamento gradual do
sistema de proteção criado para os refugiados palestinos. A lenta erosão do
apoio à UNRWA não é apenas uma falha institucional, é uma falha de
responsabilidade para com uma das populações deslocadas há mais tempo no mundo.
A menos que os Estados membros ajam de forma decisiva, essa deterioração
continuará com consequências devastadoras, sem uma solução ou retorno fácil.
CC: Ainda é possível alcançar a paz entre Israel e Palestina?
FA: Sim. Mas a paz exige justiça. Exige responsabilização por violações, igualdade de direitos para todos, o fim da ocupação e do apartheid e a plena realização do direito do povo palestino à autodeterminação. Acima de tudo, exige o reconhecimento de que a paz não é a ausência de violência, é a presença de liberdade, dignidade e igualdade perante a lei. Não pode haver paz sustentável sem esses elementos. Em última análise, essa experiência reforçou minha convicção de que precisamos de um multilateralismo mais democrático e descolonizado. Uma ordem internacional não pode reivindicar legitimidade se suas regras forem aplicadas seletivamente, se alguns Estados estiverem efetivamente acima da lei ou se aqueles encarregados de defender as normas internacionais forem punidos por fazê-lo. Descolonizar o multilateralismo significa ir além das hierarquias de poder herdadas de outra era e construir instituições que sejam genuinamente representativas, responsáveis e capazes de proteger os seres humanos, em vez de privilégios. •
Publicado na edição n° 1417 de CartaCapital, em 17 de junho de 2026.

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