domingo, 28 de junho de 2026

Farras, caronas e patacoadas, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Políticos seguem mesma cartilha: normalizar o anormal e atacar a investigação

O senador Jaques Wagner se diz indignado com a operação da Polícia Federal que expôs sua proximidade com Augusto Lima, sócio de Daniel Vorcaro. Em entrevista, o ex-governador da Bahia acusou os investigadores de armarem uma “patacoada” para prejudicá-lo. “Fica-se criminalizando qualquer tipo de relacionamento. Óbvio que de vez em quando eu pego carona. O que a polícia tem que comprovar, e não vai, é a relação de troca”, disse à Folha de S.Paulo.

Além das caronas aéreas, a PF descobriu que Wagner pediu a Lima que comprasse um apartamento de R$ 2,5 milhões para sua filha. Depois da operação, o senador disse que planejava reembolsar o empresário. “Eu sei que é nebuloso, que todo mundo vai... mas objetivamente, está no meu nome?”, defendeu-se. “O caminho dos corruptos não é esse de fazer um sexo explícito”, prosseguiu.

Wagner confirmou que recorreu ao sócio de Vorcaro em busca de ingressos para a neta assistir a um show de Taylor Swift nos Estados Unidos. De acordo com a investigação, os bilhetes de camarote custaram R$ 63 mil. “Estão achando que ele ele me comprou porque arrumou dois ingressos. Eu poderia pedir coisa mais importante, né?”, desconversou o petista. O argumento ecoa o discurso de outras autoridades flagradas na teia do Banco Master.

Na semana anterior, o deputado Hugo Motta admitiu que voou no jatinho de Vorcaro para Portugal, onde participou do convescote anual do ministro Gilmar Mendes. Segundo a PF, ele e o senador Ciro Nogueira se hospedaram num hotel cinco estrelas de Lisboa. Tudo pago pelo dono do Master. “Não vejo também problema nenhum. Ele não me pediu nada em troca”, disse Motta à CNN Brasil.

O presidente da Câmara já conhecia a generosidade do banqueiro. Antes do Gilmarpalooza, foi convidado para uma boca livre em Nova York, com direito a degustação de uísque e charutos ao custo de R$ 5 milhões. Segundo a PF, Motta também pediu a Vorcaro que liberasse um empréstimo de R$ 22 milhões à empresa da cunhada. Questionado, ele se limitou a dizer que a transação ocorreu “dentro da legalidade”.

Quando as investigações revelaram que Flávio Bolsonaro pediu R$ 61 milhões ao dono do Master, a pretexto de financiar um filme sobre o pai, o senador também negou irregularidades. “Não tem absolutamente nada de errado”, disse. Onipresente nas farras e viagens de Vorcaro, Ciro Nogueira tem preferido evitar entrevistas. Em março, sua assessoria afirmou que ele “não mantém nem nunca manteve qualquer conduta inadequada”.

Os políticos enrolados no esquema do Master parecem seguir a mesma estratégia de defesa. Todos tentam dar ar de normalidade a relações anormais, como se não houvesse problema em pedir e receber favores, mordomias e outras benesses de endinheirados.

Quando são pegos com a boca na botija, eles acusam a PF de “espetacularização”. “Eu acho que o chefe da Polícia Federal tem que tomar conta”, disse Wagner. Na reunião com Lula, o senador desfiou um rosário de queixas contra os investigadores. Mas foi ele quem perdeu o cargo de líder do governo.

 

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