O Globo
Políticos seguem mesma cartilha: normalizar o
anormal e atacar a investigação
O senador Jaques Wagner se diz indignado com a operação da Polícia Federal que expôs sua proximidade com Augusto Lima, sócio de Daniel Vorcaro. Em entrevista, o ex-governador da Bahia acusou os investigadores de armarem uma “patacoada” para prejudicá-lo. “Fica-se criminalizando qualquer tipo de relacionamento. Óbvio que de vez em quando eu pego carona. O que a polícia tem que comprovar, e não vai, é a relação de troca”, disse à Folha de S.Paulo.
Além das caronas aéreas, a PF descobriu que
Wagner pediu a Lima que comprasse um apartamento de R$ 2,5 milhões para sua
filha. Depois da operação, o senador disse que planejava reembolsar o
empresário. “Eu sei que é nebuloso, que todo mundo vai... mas objetivamente,
está no meu nome?”, defendeu-se. “O caminho dos corruptos não é esse de fazer
um sexo explícito”, prosseguiu.
Wagner confirmou que recorreu ao sócio de
Vorcaro em busca de ingressos para a neta assistir a um show de Taylor Swift
nos Estados Unidos. De acordo com a investigação, os bilhetes de camarote
custaram R$ 63 mil. “Estão achando que ele ele me comprou porque arrumou dois
ingressos. Eu poderia pedir coisa mais importante, né?”, desconversou o
petista. O argumento ecoa o discurso de outras autoridades flagradas na teia do
Banco Master.
Na semana anterior, o deputado Hugo Motta
admitiu que voou no jatinho de Vorcaro para Portugal, onde participou do
convescote anual do ministro Gilmar Mendes. Segundo a PF, ele e o senador Ciro
Nogueira se hospedaram num hotel cinco estrelas de Lisboa. Tudo pago pelo dono
do Master. “Não vejo também problema nenhum. Ele não me pediu nada em troca”,
disse Motta à CNN Brasil.
O presidente da Câmara já conhecia a
generosidade do banqueiro. Antes do Gilmarpalooza, foi convidado para uma boca
livre em Nova York, com direito a degustação de uísque e charutos ao custo de
R$ 5 milhões. Segundo a PF, Motta também pediu a Vorcaro que liberasse um
empréstimo de R$ 22 milhões à empresa da cunhada. Questionado, ele se limitou a
dizer que a transação ocorreu “dentro da legalidade”.
Quando as investigações revelaram que Flávio
Bolsonaro pediu R$ 61 milhões ao dono do Master, a pretexto de financiar um
filme sobre o pai, o senador também negou irregularidades. “Não tem
absolutamente nada de errado”, disse. Onipresente nas farras e viagens de
Vorcaro, Ciro Nogueira tem preferido evitar entrevistas. Em março, sua
assessoria afirmou que ele “não mantém nem nunca manteve qualquer conduta
inadequada”.
Os políticos enrolados no esquema do Master
parecem seguir a mesma estratégia de defesa. Todos tentam dar ar de normalidade
a relações anormais, como se não houvesse problema em pedir e receber favores,
mordomias e outras benesses de endinheirados.
Quando são pegos com a boca na botija, eles
acusam a PF de “espetacularização”. “Eu acho que o chefe da Polícia Federal tem
que tomar conta”, disse Wagner. Na reunião com Lula, o senador desfiou um
rosário de queixas contra os investigadores. Mas foi ele quem perdeu o cargo de
líder do governo.

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