terça-feira, 9 de junho de 2026

Flávio Bolsonaro e as pesquisas, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Nunes Marques é aliado dos Bolsonaros, mas a AtlasIntel precisa se explicar

Ao suspender a última pesquisa AtlasIntel sobre a eleição presidencial, o ministro do Supremo Nunes Marques, atual presidente do TSE, nos deixa entre uma tese, ou princípio, e uma questão direta, pontual. Em tese, a ingerência numa pesquisa legal e registrada é condenável. No caso em foco, há margem para dúvidas.

A família Bolsonaro ataca pesquisas e institutos desde as eleições de 2018 e 2022, quando também fez dura campanha contra as urnas eletrônicas e, por fim, negou os próprios resultados. Aliás, Jair Bolsonaro acusa de fraude a eleição que ele próprio venceu. É inédito, incompreensível.

De outro lado, o ministro Nunes Marques foi indicado para o Supremo pelo então presidente Bolsonaro e é apontado como o mais bolsonarista da Corte, apesar de, nos seus votos e decisões, ir e vir de acordo com os ventos.

Se for por aí, a suspensão da pesquisa é preocupante, até suspeita, inclusive porque confirmou a queda de seis pontos, de abril para maio, de Flávio Bolsonaro para o presidente Lula num segundo turno. Se a pesquisa é boa para o candidato, vale; se não, não vale?

Há, porém, questionamentos não só na petição do PL, partido de Flávio, e na liminar de Nunes Marques – a ser submetida ao plenário do TSE hoje –, como também na resposta técnica e na metodologia da AtlasIntel.

Uma das perguntas foi se, “diante das informações divulgadas”, Flávio deveria manter a candidatura presidencial ou desistir, o que parece uma questão legítima, aliás, usada por outros institutos, mas o PL não acha.

O partido diz que os formulários usaram expressões como “escândalo” e “evidências de envolvimento direto”, ao se referirem ao áudio de Flávio pedindo dinheiro a Daniel Vorcaro, do Master, para um filme sobre o pai. Isso teria influenciado os entrevistados quanto à intenção de voto e à rejeição do senador.

Segundo o AtlasIntel, o questionário principal da pesquisa foi concluído antes de, numa segunda etapa, sem possibilidade de alterações nas respostas já formalizadas, os entrevistados serem redirecionados para “uma página completamente separada do questionário”, com o áudio de Flávio com Vorcaro, para registro de suas reações.

Em resumo, o PL acusa a pesquisa de associar Flávio ao escândalo Master, Nunes Marques entende que há “suspeitas de indução ao eleitor” e a AtlasIntel nega “contaminação metodológica”, argumentando, por exemplo, que captou a mesma tendência de queda de Flávio que as demais pesquisas.

Difícil apoiar incisivamente uma das três posições, sem o debate entre os ministros do TSE e os entendidos na área, mas uma coisa é certa: a campanha vai ser, ou já é, uma guerra. Nem as pesquisas e a mídia passam incólumes. •

 

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