O Estado de S. Paulo
Nunes Marques é aliado dos Bolsonaros, mas a AtlasIntel precisa se explicar
Ao suspender a última pesquisa AtlasIntel
sobre a eleição presidencial, o ministro do Supremo Nunes Marques, atual
presidente do TSE, nos deixa entre uma tese, ou princípio, e uma questão
direta, pontual. Em tese, a ingerência numa pesquisa legal e registrada é
condenável. No caso em foco, há margem para dúvidas.
A família Bolsonaro ataca pesquisas e institutos desde as eleições de 2018 e 2022, quando também fez dura campanha contra as urnas eletrônicas e, por fim, negou os próprios resultados. Aliás, Jair Bolsonaro acusa de fraude a eleição que ele próprio venceu. É inédito, incompreensível.
De outro lado, o ministro Nunes Marques foi
indicado para o Supremo pelo então presidente Bolsonaro e é apontado como o
mais bolsonarista da Corte, apesar de, nos seus votos e decisões, ir e vir de
acordo com os ventos.
Se for por aí, a suspensão da pesquisa é
preocupante, até suspeita, inclusive porque confirmou a queda de seis pontos,
de abril para maio, de Flávio Bolsonaro para o presidente Lula num segundo
turno. Se a pesquisa é boa para o candidato, vale; se não, não vale?
Há, porém, questionamentos não só na petição
do PL, partido de Flávio, e na liminar de Nunes Marques – a ser submetida ao
plenário do TSE hoje –, como também na resposta técnica e na metodologia da
AtlasIntel.
Uma das perguntas foi se, “diante das
informações divulgadas”, Flávio deveria manter a candidatura presidencial ou
desistir, o que parece uma questão legítima, aliás, usada por outros
institutos, mas o PL não acha.
O partido diz que os formulários usaram expressões
como “escândalo” e “evidências de envolvimento direto”, ao se referirem ao
áudio de Flávio pedindo dinheiro a Daniel Vorcaro, do Master, para um filme
sobre o pai. Isso teria influenciado os entrevistados quanto à intenção de voto
e à rejeição do senador.
Segundo o AtlasIntel, o questionário
principal da pesquisa foi concluído antes de, numa segunda etapa, sem
possibilidade de alterações nas respostas já formalizadas, os entrevistados
serem redirecionados para “uma página completamente separada do questionário”,
com o áudio de Flávio com Vorcaro, para registro de suas reações.
Em resumo, o PL acusa a pesquisa de associar
Flávio ao escândalo Master, Nunes Marques entende que há “suspeitas de indução
ao eleitor” e a AtlasIntel nega “contaminação metodológica”, argumentando, por
exemplo, que captou a mesma tendência de queda de Flávio que as demais
pesquisas.
Difícil apoiar incisivamente uma das três
posições, sem o debate entre os ministros do TSE e os entendidos na área, mas
uma coisa é certa: a campanha vai ser, ou já é, uma guerra. Nem as pesquisas e
a mídia passam incólumes. •

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