segunda-feira, 22 de junho de 2026

Juros altos, país caro, por Preto Zezé

O Globo

Quem acorda às 4 da manhã para garantir o pão dos filhos não pode colocar a vida em pausa até que os indicadores melhorem

O Brasil é um país curioso. Quando a economia vai mal, a conta chega rapidamente à mesa do trabalhador. Quando melhora, os efeitos demoram a aparecer no supermercado, no crediário e no bolso de quem acorda cedo para fazer a vida acontecer. Nos últimos meses, o Banco Central iniciou um movimento de redução da taxa básica de juros. A Selic caiu para 14,25%, mas continua entre as mais altas do mundo. As projeções apontam desaceleração da economia, com crescimento em torno de 1,9%. Os números recomendam cautela, mas a experiência cotidiana dos brasileiros revela outra coisa: a sensação de que o esforço tem custado cada vez mais caro.

Porque juros, no Brasil, nunca foram apenas assunto para economistas. Aparecem na reforma adiada, no sofá que deixa de ser comprado, no comerciante que não consegue financiar a reposição do estoque, no pequeno empreendedor que desiste de contratar, no jovem que interrompe os estudos porque o orçamento apertou. Num país tão desigual, o custo do dinheiro também é desigual. Quem possui patrimônio atravessa períodos de juros elevados com mais proteção. Há aplicações financeiras, reservas e margem para esperar tempos melhores. Quem vive do salário, do pequeno comércio ou do empreendedorismo cotidiano enfrenta outra realidade: o cálculo permanente. Faz conta para comprar, para investir, para parcelar, para sonhar.

Nas favelas e periferias, isso aparece com nitidez. A economia popular não é movida a grandes operações financeiras. Acontece na manicure que atende em casa, no mototaxista, na marmita vendida na vizinhança, na costureira, no pequeno comércio e no celular transformado em ferramenta de trabalho. São milhões de brasileiros sustentando famílias com criatividade, disciplina e disposição para o risco, mas sem acesso adequado ao crédito. Quando os juros permanecem altos, o recado implícito é simples: espere para crescer, adie o investimento, reduza os planos. Mas quem vive da própria iniciativa não tem o privilégio da espera. Quem acorda às 4 da manhã para garantir o pão dos filhos não pode colocar a vida em pausa até que os indicadores melhorem.

Isso não significa ignorar a importância do controle da inflação. Os mais pobres sofrem quando os preços escapam do controle. Responsabilidade fiscal importa. A questão é que prudência não pode se transformar em imobilismo. O Brasil precisa discutir como ampliar o crédito produtivo, reduzir custos para quem gera emprego, fortalecer mecanismos de garantia a pequenos empreendedores e investir em educação e inovação. Estabilidade econômica não deve ser um fim em si mesmo. Precisa servir para ampliar oportunidades e melhorar a vida.

O país que mais empreende por necessidade não pode continuar oferecendo à população um dos custos de crédito mais altos do planeta. Existe uma inteligência prática nas ruas, uma capacidade extraordinária de resolver problemas complexos com recursos escassos, que esbarra num sistema incapaz de transformar esforço em prosperidade. Talvez uma das questões centrais do Brasil contemporâneo esteja justamente aí. O problema não é apenas que o dinheiro custa caro. É que, para milhões de brasileiros, o futuro ficou caro demais. No fim das contas, a discussão sobre juros é uma discussão sobre quem o país escolhe financiar. Se protegeremos quem já dispõe de tempo e patrimônio ou se criaremos condições para destravar a potência de quem trabalha, empreende e tenta transformar esforço em mobilidade.

 

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