O Globo
Quem acorda às 4 da manhã para garantir o pão
dos filhos não pode colocar a vida em pausa até que os indicadores melhorem
O Brasil é um país curioso. Quando a economia vai mal, a conta chega rapidamente à mesa do trabalhador. Quando melhora, os efeitos demoram a aparecer no supermercado, no crediário e no bolso de quem acorda cedo para fazer a vida acontecer. Nos últimos meses, o Banco Central iniciou um movimento de redução da taxa básica de juros. A Selic caiu para 14,25%, mas continua entre as mais altas do mundo. As projeções apontam desaceleração da economia, com crescimento em torno de 1,9%. Os números recomendam cautela, mas a experiência cotidiana dos brasileiros revela outra coisa: a sensação de que o esforço tem custado cada vez mais caro.
Porque juros, no Brasil, nunca foram apenas
assunto para economistas. Aparecem na reforma adiada, no sofá que deixa de ser
comprado, no comerciante que não consegue financiar a reposição do estoque, no
pequeno empreendedor que desiste de contratar, no jovem que interrompe os
estudos porque o orçamento apertou. Num país tão desigual, o custo do dinheiro
também é desigual. Quem possui patrimônio atravessa períodos de juros elevados
com mais proteção. Há aplicações financeiras, reservas e margem para esperar
tempos melhores. Quem vive do salário, do pequeno comércio ou do
empreendedorismo cotidiano enfrenta outra realidade: o cálculo permanente. Faz
conta para comprar, para investir, para parcelar, para sonhar.
Nas favelas e periferias, isso aparece com
nitidez. A economia popular não é movida a grandes operações financeiras.
Acontece na manicure que atende em casa, no mototaxista, na marmita vendida na
vizinhança, na costureira, no pequeno comércio e no celular transformado em
ferramenta de trabalho. São milhões de brasileiros sustentando famílias com
criatividade, disciplina e disposição para o risco, mas sem acesso adequado ao
crédito. Quando os juros permanecem altos, o recado implícito é simples: espere
para crescer, adie o investimento, reduza os planos. Mas quem vive da própria
iniciativa não tem o privilégio da espera. Quem acorda às 4 da manhã para
garantir o pão dos filhos não pode colocar a vida em pausa até que os
indicadores melhorem.
Isso não significa ignorar a importância do
controle da inflação. Os mais pobres sofrem quando os preços escapam do
controle. Responsabilidade fiscal importa. A questão é que prudência não pode
se transformar em imobilismo. O Brasil precisa discutir como ampliar o crédito
produtivo, reduzir custos para quem gera emprego, fortalecer mecanismos de
garantia a pequenos empreendedores e investir em educação e inovação.
Estabilidade econômica não deve ser um fim em si mesmo. Precisa servir para
ampliar oportunidades e melhorar a vida.
O país que mais empreende por necessidade não
pode continuar oferecendo à população um dos custos de crédito mais altos do
planeta. Existe uma inteligência prática nas ruas, uma capacidade
extraordinária de resolver problemas complexos com recursos escassos, que
esbarra num sistema incapaz de transformar esforço em prosperidade. Talvez uma
das questões centrais do Brasil contemporâneo esteja justamente aí. O problema
não é apenas que o dinheiro custa caro. É que, para milhões de brasileiros, o
futuro ficou caro demais. No fim das contas, a discussão sobre juros é uma
discussão sobre quem o país escolhe financiar. Se protegeremos quem já dispõe
de tempo e patrimônio ou se criaremos condições para destravar a potência de
quem trabalha, empreende e tenta transformar esforço em mobilidade.

Pois é,Preto Zezé!
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