O Estado de S. Paulo
Se Lula e Flávio Bolsonaro tivessem um pingo de patriotismo, abdicariam de suas candidaturas
Os últimos números da economia, divulgados
pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), indicam um
crescimento de 2% do Produto Interno Bruto (PIB) para 2026, resultado puxado
pelo agronegócio e pelo consumo das famílias.
Em bom português, deverse-ia dizer nada, mas dentro da série de 19 meses iniciada no terceiro trimestre de 2021, o tom dos comentaristas é positivo, qualificando tal resultado como “de expansão”. Mas, cada um a seu modo, todos fazem severas ressalvas. A primeira, de que dificilmente o PIB crescerá 2% em 2027, devido ao cenário internacional adverso, graças aos diversos efeitos Trump, às incertezas criadas pela guerra no Oriente Médio e, não menos importante, no plano doméstico, à continuação da polarização política nas eleições de outubro.
Décadas atrás, o que hoje designamos como
“polarização” era sinônimo de um sistema bipartidário. Os estudiosos
norte-americanos, em particular, não se cansavam de nos aconselhar a incentivar
tal sistema, e não deixavam de ter razão, de um lado, porque não poderiam ter
imaginado uma figura como Trump, de outro, porque o sistema brasileiro, uma vez
abertas as comportas, se tornou o mais fragmentado do mundo. Ninguém mais sabe
ao certo quantos partidos temos hoje e a quantos poderemos chegar em poucos
anos.
Tampouco analisaram certos riscos que os
sistemas bipartidários (como qualquer sistema partidário) envolvem. Não deram
atenção ao que pode acontecer quando o “polo” mais forte tem como projeto o
esmagamento do adversário (como aconteceu durante décadas na Argentina desde a
ascensão de Perón, devolvendo um dos países mais ricos do mundo a um reles
subdesenvolvimento; o período de Isabelita Perón foi uma matança indescritível)
ou quando, carecendo de uma verdadeira vocação política, levam a hostilidade
mútua a limites impensáveis (como aconteceu no Brasil no período de Getúlio
Vargas e Carlos Lacerda).
Se Lula e Flávio Bolsonaro tivessem um pingo
de patriotismo, abdicariam de suas candidaturas, que são os motores da
polarização política e a garantia do afundamento definitivo do Brasil no fundo
do poço. Sabemos, no entanto, que nenhum dos dois é patriota a esse ponto, e
também que os políticos eletivos dificilmente trabalharão em tempo integral
durante a Copa do Mundo. Nada farão de relevante em busca de uma candidatura de
centro, moderada e competente. Lula, todos sabemos, é como uma biruta de
aeroporto. Concluindo seu terceiro mandato, já nos prometeu no mínimo dez
revoluções (escudado em seu PT, que ninguém sabe a que veio) e 20 milagres
econômicos, mas o que de fato entregou foi um país incapaz de elevar sua taxa
de investimento bruto, estacionada em pífios 16,5% ao ano, uma das mais baixas
do mundo.
Como acertadamente observa Rolf Kuntz, “o
Brasil completou mais três meses como se fosse um país rico e investindo como
se já estivesse muito bem servido de máquinas, equipamentos, instalações
produtivas e infraestrutura” (Estadão, 30/5, B2). A esta lista eu acrescentaria
escolaridade e qualificação da mão de obra.
Estamos a quatro meses da eleição
presidencial, número um tanto falso se, de fato, a aversão dos políticos ao
trabalho for mais alta durante a Copa do Mundo. Dada a exiguidade do tempo, os
mais prejudicados pela copa – candidatos que poderiam encarnar um centro
respeitável – serão provavelmente o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, bem
avaliado no quesito segurança pública, e Romeu Zema, embora tenha a vantagem de
governar Minas Gerais, o segundo maior eleitorado do País.
Assim, noves fora, tudo faz crer que o Brasil
tem uma elevada chance de viver mais alguns anos sob o jugo da inútil
polaridade Flávio Bolsonaro x Lula, sem esquecer que o clã Bolsonaro
provavelmente terá diversos sucessores. Flávio foi aos Estados Unidos e obteve
de Trump o que este queria fazer de um jeito ou de outro; Lula distribuiu
bastante dinheiro público para os necessitados, o que deve ser bom para estes e
para a economia, mas nada tem a ver com a lisura do pleito. Ou seja, é possível
que continuemos com uma polaridade inútil.
Fiz referência aos sistemas de dois partidos,
mas não mencionei o mais importante deles, o da Inglaterra. Sublinhar suas
qualidades exigiria muito mais espaço do que o que me cabe nesta página.
Lembrarei apenas que ele associa uma monarquia centenária ao sistema
parlamentarista de governo, sem hostilidades descabeladas. Está mais do que
demonstrado, estatisticamente, que o formato mais instável e disfuncional é o
que associa o sistema presidencialista de governo a uma estrutura partidária
muito fragmentada.
Nós até que tentamos instituir um sistema
(semi) parlamentarista durante a elaboração da Constituição de 1988. Desde
então, o que já era ruim piorou bastante, uma vez que hoje mal se pode falar em
sistema de partidos. O que temos é uma inútil polaridade na disputa
presidencial e, no Legislativo, uma maçaroca chamada “centro”, que recompensa
centenas de parlamentares que só pensam no erário. Ou seja, uma inútil
polaridade.
“Maravilhosa essa mulher, me emocionei na
entrevista dela. Também tenho medo de trem, e ela foi movida pelo medo,
parabéns Deus abençoe os dois” CLEIDE PIRES
“Uma querida, que ao invés de pegar o celular
para gravar o trem matando o senhor, resolveu vencer seu trauma naquele momento
e salvar uma vida” LEANDRO MONTEIRO
“Ela merece medalha de todos nós, meu respeito a quem é responsável pela formação de tanta gente, e pelo ato heroico” LINDBERG TEIXEIRA
*Sócio-Diretor da Augurium Consultoria, membro da Academia Paulista de Letras, é autor de ‘Seis gigantes que retornam’ (São Paulo, Editora Edicon)

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