quarta-feira, 24 de junho de 2026

Memórias do inferno, por Bernardo Mello Franco

O Globo

"Anatomia do caos", de Dandara Ferreira, reconstitui atuação de Bolsonaro a favor do vírus

Em depoimento ao Senado, o taxista Márcio Antônio Silva lembrou a última vez que viu o filho, morto aos 25 anos. O corpo do rapaz estava embrulhado num saco plástico, seguindo os protocolos da pandemia.

“Minha dor não é mimimi”, desabafou o pai enlutado. Representava milhares de famílias ofendidas por um presidente que fazia piada com a tragédia, recusava-se a comprar vacinas e chamava cidadãos de “frouxos” e “maricas”.

A emoção de Márcio humaniza a pauleira de “Anatomia do caos”, que estreia semana que vem nos cinemas. O documentário de Dandara Ferreira reconstitui os passos da CPI da Covid, que propôs o indiciamento de Jair Bolsonaro e outros 77 suspeitos de crimes na emergência sanitária.

Durante seis meses, a comissão recolheu provas de delitos variados, de charlatanismo a trambiques com dinheiro público. A investigação expôs políticos, empresários e médicos que afrontaram a ciência em troca de lucro e poder.

Algumas cenas da CPI resumem o desgoverno da época. Nomeado ministro da Saúde sem saber o que era o SUS, o general Eduardo Pazuello se atrapalhou com os papéis e ficou em silêncio por 13 segundos diante das câmeras. Sem a cola, não tinha ideia do que dizer.

Em outro momento, o então ministro da Controladoria-Geral da União, Wagner Rosário, chamou a senadora Simone Tebet de “descontrolada”. Apelou ao machismo por falta de resposta para as suspeitas de corrupção.

O documentário expõe buracos na estratégia de Flávio Bolsonaro de se apresentar como o “Bolsonaro que toma vacina”. O senador aparece tumultuando a investigação e gargalhando de perguntas sobre os malfeitos do pai.

O filme também revela rusgas e divergências entre integrantes da CPI. Num dos diálogos, os senadores Randolfe Rodrigues e Humberto Costa dizem que Renan Calheiros daria “tiro no pé” ao convocar o empresário Luciano Hang, que se vestia de Zé Carioca para bajular o capitão.

A comissão cumpriu seu papel, mas o relatório acabou engavetado pelo procurador Augusto Aras. Há nove meses, o ministro Flávio Dino mandou a Polícia Federal instaurar um novo inquérito, que segue inconcluso. O taxista Márcio morreu em 2022, sem ver qualquer punição pelas mais de 700 mil mortes no país.

 

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