O Globo
"Anatomia do caos", de Dandara
Ferreira, reconstitui atuação de Bolsonaro a favor do vírus
Em depoimento ao Senado, o taxista Márcio
Antônio Silva lembrou a última vez que viu o filho, morto aos 25 anos. O corpo
do rapaz estava embrulhado num saco plástico, seguindo os protocolos da
pandemia.
“Minha dor não é mimimi”, desabafou o pai
enlutado. Representava milhares de famílias ofendidas por um presidente que
fazia piada com a tragédia, recusava-se a comprar vacinas e chamava cidadãos de
“frouxos” e “maricas”.
A emoção de Márcio humaniza a pauleira de “Anatomia do caos”, que estreia semana que vem nos cinemas. O documentário de Dandara Ferreira reconstitui os passos da CPI da Covid, que propôs o indiciamento de Jair Bolsonaro e outros 77 suspeitos de crimes na emergência sanitária.
Durante seis meses, a comissão recolheu
provas de delitos variados, de charlatanismo a trambiques com dinheiro público.
A investigação expôs políticos, empresários e médicos que afrontaram a ciência
em troca de lucro e poder.
Algumas cenas da CPI resumem o desgoverno da
época. Nomeado ministro da Saúde sem saber o que era o SUS, o general Eduardo
Pazuello se atrapalhou com os papéis e ficou em silêncio por 13 segundos diante
das câmeras. Sem a cola, não tinha ideia do que dizer.
Em outro momento, o então ministro da
Controladoria-Geral da União, Wagner Rosário, chamou a senadora Simone Tebet de
“descontrolada”. Apelou ao machismo por falta de resposta para as suspeitas de
corrupção.
O documentário expõe buracos na estratégia de
Flávio Bolsonaro de se apresentar como o “Bolsonaro que toma vacina”. O senador
aparece tumultuando a investigação e gargalhando de perguntas sobre os
malfeitos do pai.
O filme também revela rusgas e divergências
entre integrantes da CPI. Num dos diálogos, os senadores Randolfe Rodrigues e
Humberto Costa dizem que Renan Calheiros daria “tiro no pé” ao convocar o
empresário Luciano Hang, que se vestia de Zé Carioca para bajular o capitão.
A comissão cumpriu seu papel, mas o relatório
acabou engavetado pelo procurador Augusto Aras. Há nove meses, o ministro
Flávio Dino mandou a Polícia Federal instaurar um novo inquérito, que segue
inconcluso. O taxista Márcio morreu em 2022, sem ver qualquer punição pelas
mais de 700 mil mortes no país.

Pois é,Seu José!
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