quinta-feira, 18 de junho de 2026

Mendonça vira ‘líder da minoria’ no STF, por Carolina Brígido

O Estado de S. Paulo

Mesmo com delação de Daniel Vorcaro rejeitada, ministro mostrou que não dará alívio a autoridades

André Mendonça pode até integrar uma ala minoritária no Supremo Tribunal Federal (STF) pelas ideias que defende e pelos votos que profere. Mas, na última terça-feira, saiu da sessão da Segunda Turma consolidado como líder da minoria na Corte, para pegar emprestado um termo do Congresso Nacional.

Por três votos a um, o colegiado confirmou a decisão do relator das investigações sobre o Banco Master de manter presos o pai e o primo de Daniel Vorcaro. Com apenas quatro ministros votantes, Mendonça só precisava de dois aliados para sair vencedor.

O relator contou com uma dose de sorte. No Supremo, Mendonça tem dois apoiadores fiéis, que concordam com ele em matéria penal: Kassio Nunes Marques e Luiz Fux. Coincidentemente, os dois integram a Segunda Turma.

Depois que Dias Toffoli se declarou impedido para julgar o caso Master, o caminho de Mendonça rumo à maioria ficou menos tortuoso. Apenas Gilmar Mendes defendeu que os investigados fossem transferidos para a prisão domiciliar. Nas sessões de turma, Gilmar costuma fazer uma dobradinha com Toffoli. Desta vez, ficou isolado.

Gilmar, porém, não facilitou para Mendonça. Fez críticas quanto à condução das investigações e comparou os métodos aos da Lava Jato. No fim, o relator falou mais alto. Alegou que não prendia ninguém para forçar acordo de delação e defendeu sua posição com a voz empostada de pastor evangélico. Aproveitou para falar do caso Master como nunca tinha feito antes em público. Revelou que a defesa “perdeu o pudor” ao propor uma delação seletiva. “Falaram na minha cara isso. Eu disse: ‘Não faço questão de delação. Agora, delação seletiva? Comigo, não!’”

Gilmar representa um grupo do Supremo insatisfeito com o rumo das investigações do Master. Alexandre de Moraes e Toffoli fazem coro ao colega. Os dois tiveram ligações com Vorcaro expostas ao longo das investigações. Mas, como relator do escândalo do Master, Mendonça pode abdicar da maioria numérica dos ministros do Supremo. Ter vitória garantida na Segunda Turma é suficiente, porque é lá que as questões referentes ao Banco Master serão julgadas.

Não satisfeito com a votação na turma, Mendonça mirou a aprovação da opinião pública ao divulgar, pouco antes do julgamento, novas provas da investigação que reforçavam a necessidade de manter o pai e o primo de Vorcaro atrás das grades.

Ou seja: o ministro está disposto a incomodar colegas do STF e a classe política em meio ao período eleitoral. A recusa à delação de Vorcaro fez Brasília respirar aliviada por apenas um dia. O clima tenso voltou a assombrar os três Poderes a partir do julgamento de terça-feira.

 

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