quarta-feira, 17 de junho de 2026

Momento delicado para a campanha de Flávio, por Fernando Exman

Valor Econômico

Senador enfrenta uma fratura na sua base de apoio por causa da forma que lidou com a revelação de que havia pedido dinheiro a Daniel Vorcaro para financiar filme sobre o pai

Duas passagens da corrida presidencial de 2018, disputada entre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad, ajudam a explicar o momento sensível pelo qual passa a campanha de Flávio Bolsonaro. As pesquisas mostram o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ampliando a vantagem após o caso Master, segue o desconforto dos aliados de Flávio com o episódio “Dark Horse” e, para piorar, o Centrão tenta descolar-se da sua chapa.

Surfando no antipetismo e na repulsa da população à corrupção, Jair Bolsonaro percorreu em 2018 o país com um slogan bíblico: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”, dizia a todo momento, citando João 8:32. Pois Flávio enfrenta agora uma fratura na sua base de apoio justamente por causa da forma que lidou com a revelação de que havia pedido dinheiro a Daniel Vorcaro, dono do Master, para bancar o filme em homenagem ao seu pai.

Como diz um aliado, a discussão vai além de “se houve ou não corrupção, se é dinheiro público ou privado”. A questão é, também, ter mentido ou omitido. Há um dano intangível entre a imagem construída em 2018 pela família Bolsonaro e a que precisa ser trabalhada agora.

A outra conexão com a campanha de 2018 se refere à forma como foi lançada sua pré-candidatura. A comparação inevitável é com o anúncio da escolha do ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad por Lula, à época em que o presidente estava preso em Curitiba.

Em um ato solene, realizado em frente à carceragem e com a presença da militância, foi lida uma carta escrita por Lula para lançar Haddad e justificar sua decisão. Aproveitou-se para divulgar várias realizações de seu representante durante gestões petistas, e o candidato estava acompanhado de sua vice e lideranças partidárias. Deixou-se pouco espaço para contestação de correligionários e aliados.

O movimento de Flávio foi distinto. Alguns dias depois de visitar o pai na prisão, ele publicou nas redes sociais mensagem na qual informava que recebera a missão de dar prosseguimento ao projeto de seu grupo político. Havia uma disputa na família pelo posto. Centrão e mercado preferiam o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). E teve até quem duvidou da informação, mas o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, buscou acabar logo com a discussão: “Flávio me disse que o nosso capitão confirmou sua pré-candidatura. Então, se Bolsonaro falou, está falado”, escreveu nas redes sociais.

Vinte dias depois, Flávio leu em frente a um hospital em Brasília uma carta escrita à mão por seu pai reafirmando a decisão, antes de o ex-presidente ser submetido a uma cirurgia de correção de hérnia. Apenas Carlos Bolsonaro, seu irmão, estava com ele na fotografia que eternizou o momento.

Uma liderança do Centrão nota que Flávio deveria ter se cercado de aliados estratégicos, para dar corpo e legitimidade ao anúncio. E cita três personagens que não poderiam faltar naquela foto: o próprio Tarcísio, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG).

Até hoje aliados de Flávio lamentam o fato de o governador do maior colégio eleitoral do país não estar presente a todos os atos de campanha em São Paulo.

Michelle, por sua vez, construiu ampla rede de aliados durante o período que viajou pelo país presidindo o PL Mulher. Além de reduzir a resistência do público feminino em relação ao enteado, poderia garantir-lhe maior interlocução com os evangélicos. Já Nikolas Ferreira é um potente influenciador digital, referência entre jovens conservadores e importante puxador de votos em Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do Brasil.

Mas eles não foram convidados e ainda passaram a sofrer pesado “fogo amigo”. Há dúvidas sobre o nível de engajamento que terão durante a disputa.

É nesse contexto que Flávio Bolsonaro tenta dar uma chacoalhada na campanha. Nos últimos dias, sinalizou à parcela mais pobre da população com a manutenção do Bolsa Família. Disse que o programa social é “direito adquirido” e, portanto, não irá acabar. Nos bastidores, integrantes de seu comitê argumentam que será necessário calibrá-lo à frente, mas a ordem é evitar polêmicas agora.

Em uma piscadela para o mercado, foi confirmada a entrada da ex-presidente da Caixa Econômica Federal Daniella Marques na campanha. Ligada ao ex-ministro Paulo Guedes, ela passa a ser referência da equipe para os assuntos econômicos.

A estratégia é concentrar o debate sobre política fiscal na trajetória crescente da dívida pública e, ao mesmo tempo, evitar a antecipação de medidas impopulares.

Os bolsonaristas argumentam que a Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) estava em 71,68% do Produto Interno Bruto em dezembro de 2022 e passou para 80,19% do PIB em abril deste ano. O governo projeta que esse índice feche 2026 em 83,6%. Petistas rebatem, também com razão, que receberam o país com diversas bombas-fiscais de efeito retardado. Mas é fato que ambas as gestões terão dificuldades em contrapor as críticas sobre as diversas medidas eleitoreiras implementadas tanto em 2022 como agora.

Este é um debate fundamental, mas incapaz de mobilizar a militância bolsonarista ainda impactada pelas notícias do caso Master. Talvez uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que acabe com a prisão domiciliar de Jair Bolsonaro tenha esse condão.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário