Valor Econômico
Senador enfrenta uma fratura na sua base de
apoio por causa da forma que lidou com a revelação de que havia pedido dinheiro
a Daniel Vorcaro para financiar filme sobre o pai
Duas passagens da corrida presidencial de 2018, disputada entre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad, ajudam a explicar o momento sensível pelo qual passa a campanha de Flávio Bolsonaro. As pesquisas mostram o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ampliando a vantagem após o caso Master, segue o desconforto dos aliados de Flávio com o episódio “Dark Horse” e, para piorar, o Centrão tenta descolar-se da sua chapa.
Surfando no antipetismo e na repulsa da população à corrupção, Jair Bolsonaro percorreu em 2018 o país com um slogan bíblico: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”, dizia a todo momento, citando João 8:32. Pois Flávio enfrenta agora uma fratura na sua base de apoio justamente por causa da forma que lidou com a revelação de que havia pedido dinheiro a Daniel Vorcaro, dono do Master, para bancar o filme em homenagem ao seu pai.
Como diz um aliado, a discussão vai além de
“se houve ou não corrupção, se é dinheiro público ou privado”. A questão é,
também, ter mentido ou omitido. Há um dano intangível entre a imagem construída
em 2018 pela família Bolsonaro e a que precisa ser trabalhada agora.
A outra conexão com a campanha de 2018 se
refere à forma como foi lançada sua pré-candidatura. A comparação inevitável é
com o anúncio da escolha do ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad por Lula, à
época em que o presidente estava preso em Curitiba.
Em um ato solene, realizado em frente à
carceragem e com a presença da militância, foi lida uma carta escrita por Lula
para lançar Haddad e justificar sua decisão. Aproveitou-se para divulgar várias
realizações de seu representante durante gestões petistas, e o candidato estava
acompanhado de sua vice e lideranças partidárias. Deixou-se pouco espaço para
contestação de correligionários e aliados.
O movimento de Flávio foi distinto. Alguns
dias depois de visitar o pai na prisão, ele publicou nas redes sociais mensagem
na qual informava que recebera a missão de dar prosseguimento ao projeto de seu
grupo político. Havia uma disputa na família pelo posto. Centrão e mercado
preferiam o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). E teve
até quem duvidou da informação, mas o presidente do PL, Valdemar Costa Neto,
buscou acabar logo com a discussão: “Flávio me disse que o nosso capitão
confirmou sua pré-candidatura. Então, se Bolsonaro falou, está falado”,
escreveu nas redes sociais.
Vinte dias depois, Flávio leu em frente a um
hospital em Brasília uma carta escrita à mão por seu pai reafirmando a decisão,
antes de o ex-presidente ser submetido a uma cirurgia de correção de hérnia.
Apenas Carlos Bolsonaro, seu irmão, estava com ele na fotografia que eternizou
o momento.
Uma liderança do Centrão nota que Flávio
deveria ter se cercado de aliados estratégicos, para dar corpo e legitimidade
ao anúncio. E cita três personagens que não poderiam faltar naquela foto: o
próprio Tarcísio, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o deputado Nikolas
Ferreira (PL-MG).
Até hoje aliados de Flávio lamentam o fato de
o governador do maior colégio eleitoral do país não estar presente a todos os
atos de campanha em São Paulo.
Michelle, por sua vez, construiu ampla rede
de aliados durante o período que viajou pelo país presidindo o PL Mulher. Além
de reduzir a resistência do público feminino em relação ao enteado, poderia
garantir-lhe maior interlocução com os evangélicos. Já Nikolas Ferreira é um
potente influenciador digital, referência entre jovens conservadores e
importante puxador de votos em Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do
Brasil.
Mas eles não foram convidados e ainda
passaram a sofrer pesado “fogo amigo”. Há dúvidas sobre o nível de engajamento
que terão durante a disputa.
É nesse contexto que Flávio Bolsonaro tenta
dar uma chacoalhada na campanha. Nos últimos dias, sinalizou à parcela mais
pobre da população com a manutenção do Bolsa Família. Disse que o programa
social é “direito adquirido” e, portanto, não irá acabar. Nos bastidores,
integrantes de seu comitê argumentam que será necessário calibrá-lo à frente,
mas a ordem é evitar polêmicas agora.
Em uma piscadela para o mercado, foi
confirmada a entrada da ex-presidente da Caixa Econômica Federal Daniella
Marques na campanha. Ligada ao ex-ministro Paulo Guedes, ela passa a ser
referência da equipe para os assuntos econômicos.
A estratégia é concentrar o debate sobre
política fiscal na trajetória crescente da dívida pública e, ao mesmo tempo,
evitar a antecipação de medidas impopulares.
Os bolsonaristas argumentam que a Dívida
Bruta do Governo Geral (DBGG) estava em 71,68% do Produto Interno Bruto em
dezembro de 2022 e passou para 80,19% do PIB em abril deste ano. O governo
projeta que esse índice feche 2026 em 83,6%. Petistas rebatem, também com
razão, que receberam o país com diversas bombas-fiscais de efeito retardado.
Mas é fato que ambas as gestões terão dificuldades em contrapor as críticas
sobre as diversas medidas eleitoreiras implementadas tanto em 2022 como agora.
Este é um debate fundamental, mas incapaz de
mobilizar a militância bolsonarista ainda impactada pelas notícias do caso
Master. Talvez uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que acabe com a
prisão domiciliar de Jair Bolsonaro tenha esse condão.

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