Folha de S. Paulo
Marco Rubio disse que o Brasil não está entre
os amigos dos EUA e continuou no emprego
Nos últimos 130 anos, ninguém se beneficiou
tanto da amizade do Brasil quanto os EUA
Marco Rubio, secretário de Estado americano, afirmou que o Brasil não faz parte da lista de "amigos dos EUA". Disse isso e continuou no emprego. Seu cargo exige tato diplomático e conhecimento de história, coisas que não se compram nas drugstores de Miami. Mas Rubio é um ministro de Donald Trump —só existe porque existe Trump. Se não fosse uma alimária, saberia que, em qualquer época, nenhum outro país foi tão amigo dos EUA.
Começou pela viagem do
ex-presidente Theodore Roosevelt à Amazônia, em 1913. Escoltado
pelo general
Rondon, Roosevelt passou sete meses na floresta fazendo mapeamento
estratégico, cartografando rios e coletando um mundo de plantas e animais para
seus museus e instituições. Pegou diarreia, malária, infecções e quase levou a
breca, mas voltou com um conhecimento dos recursos do Brasil de que até então
ninguém por lá suspeitava.
Os americanos logo souberam que não éramos
uma república de bananas. Um empreendedor chamado Percival
Farquhar veio para cá no começo do século 20 e, pelos 30 anos
seguintes, tomou nossos setores de energia elétrica, navegação, extração de
minério, criação de gado, abertura de estradas e, por causa destas, derrubou
milhões de acres de floresta nativa para explorar madeira. Aliás, o minério e a
energia elétrica foram dois setores que os americanos levaram décadas para nos
devolver. Era ou não era ser amigo dos EUA?
Minha geração foi tão amiga dos EUA que
aprendemos tudo sobre Flecha Ligeira e nada sobre Arariboia. Apaixonamo-nos por
Chaplin, Louis Armstrong, Duke Ellington, Bing Crosby, Fred Astaire, Billie
Holiday, Ella Fitzgerald, os Irmãos Marx, Glenn Miller, Frank Sinatra, Humphrey
Bogart, Ava Gardner, Marilyn Monroe, Doris Day, Gene Kelly, Hemingway,
Faulkner, Fitzgerald, Dizzy Gillespie, Thelonious Monk etc. etc. etc. até Woody
Allen.
Somos um país de jeans, tênis e boné ao
contrário, comendo cheeseburger. Na verdade, de tanto amor pelos EUA, tudo que
queremos é ser americanos. Flávio
Bolsonaro, amigo do Rubio, já conseguiu.

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