Correio Braziliense
Responsabilizar Lula pelos ataques
provenientes dos EUA mostra-se uma estratégia perigosa, pois coloca no palanque
eleitoral questões ligadas aos interesses nacionais, e não propriamente à
batalha partidária
A estratégia de pegar carona na política norte-americana para abafar o envolvimento no escândalo Master e turbinar a disputa eleitoral contra o presidente Lula é uma jogada perigosa de Flávio Bolsonaro. O cálculo do senador repete a estratégia adotada no ano passado, quando o governo Trump lançou um conjunto de medidas que atingiam não apenas a economia brasileira, mas igualmente autoridades do Executivo e do Judiciário. É incerto, todavia, se essa articulação internacional resultará no objetivo final de Flávio Bolsonaro em 2026: sair vitorioso das urnas.
À luz dos fatos ocorridos em 2025, conclui-se
que a torcida bolsonarista para azedar a relação entre Brasil e Estados Unidos
teve efeito limitado. As sanções impostas pelo governo Trump estavam (e
continuam) inseridas em um contexto maior, dentro da política global definida
pela Casa Branca de reverter o deficit na balança comercial — o saldo negativo
está na faixa de US$ 60 bilhões — e estimular a indústria norte-americana. Em
relação ao tarifaço, a orientação brasileira de negociar, pacientemente, os
pontos de conflito culminou em uma aproximação entre os presidentes Lula e Trump.
Para quem apostava em uma rivalidade entre os chefes de Estado, o que se viu
foi uma "química" e a promessa de reforçar a bicentenária relação
entre as duas maiores democracias do continente americano.
Naquele momento, a estratégia bolsonarista
estava muito focada não exatamente no Palácio do Planalto, mas no Supremo
Tribunal Federal. Havia uma clara intenção do núcleo coordenado pelos filhos de
Jair Bolsonaro de denunciar uma suposta perseguição política contra o
ex-presidente e seus aliados. Essa iniciativa também se revelou ser de curto
alcance. Tanto o governo brasileiro quanto a Suprema Corte deixaram claro que
Jair Bolsonaro e seus colaboradores foram condenados dentro de um legítimo
processo legal, não havendo sustentação nas denúncias contra o Judiciário
brasileiro. Em setembro de 2025, Bolsonaro e seus cúmplices foram condenados a
muitos anos de prisão, e não se viu manifestações mais veementes do governo
norte-americano em relação ao veredito.
A tentativa de jogar os EUA contra o STF
ainda provocou um efeito adverso para os Bolsonaro: despertou um sentimento
nacionalista no Brasil. O presidente Lula tornou-se o ponta de lança de uma
campanha de defesa da soberania, acusando bolsonaristas de traidores da Pátria
e deixando claro os danos econômicos provocados pela ofensiva norte-americana.
Essa retórica está sendo, mais uma vez,
utilizada pelo governo brasileiro. Com os dizeres "O Pix é do Brasil"
em um cartaz e xingamentos a Flávio Bolsonaro, Lula reedita, em um tom
contundente, a campanha Brasil Soberano. Em 2025, esse nome batizou o programa
de auxílio aos exportadores prejudicados pelas sanções estabelecidas por
Washington. O Brasil Soberano foi, ainda, tema do desfile de Sete de Setembro. "Somos
capazes de governar e de cuidar da nossa terra e da nossa gente, sem
interferência de nenhum governo estrangeiro. Mantemos relações amigáveis com
todos os países, mas não aceitamos ordens de quem quer que seja. O Brasil tem
um único dono: o povo brasileiro", disse o presidente Lula no discurso de
Independência. Essas palavras caberiam igualmente para este período
pré-eleitoral, sem qualquer necessidade de ajuste.
Assim como ocorreu no ano passado, Flávio
Bolsonaro tem sido identificado como traidor da Pátria. A diferença é que
estamos a quatro meses da eleição. O nome mais proeminente do bolsonarismo
recebe novamente essa alcunha, mas aposta em atribuir ao incumbente os
problemas identificados pelo governo dos EUA, como a atuação de facções
criminosas no Brasil e supostas práticas contrárias às empresas
norte-americanas.
Resta saber se o plano de responsabilizar
Lula pelos ataques provenientes dos EUA será suficiente para convencer o
eleitor. Em Belo Horizonte, durante um evento promovido pelo agro, Flávio Bolsonaro
exortou a união da direita para "tirar o Brasil das mãos sujas do
PT". Ronaldo Caiado e Romeu Zema, também presentes no encontro, renovaram
as críticas ao governo Lula. Essa linha de ataque mostra-se perigosa, pois
coloca no palanque eleitoral questões ligadas aos interesses nacionais, e não
propriamente à batalha partidária. Além de oferecer a Lula a chance de mostrar
resultados — afinal, o governo brasileiro é que fará a interlocução com os EUA
—, pode despertar uma rejeição no eleitorado.
No caso específico dos temas em foco na crise Brasil-EUA, Flávio Bolsonaro também tem pontos vulneráveis. Ele afirma que o país está refém do crime organizado, mas as relações do senador fluminense com milicianos são de domínio público. Os Estados Unidos justificam o aumento de tarifas comerciais à corrupção no Brasil, mas o 01 foi à América para fugir da pressão política após a revelação de uma ligação muito próxima com o protagonista do maior escândalo de fraudes financeiras de que se tem notícia no país. Ao se apoiar nos EUA para a batalha contra Lula, Flávio Bolsonaro corre o risco de ser abatido em pleno voo.

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