Folha de S. Paulo
Tendência de torcer pelo competidor mais
fraco é reconhecida como viés cognitivo
Fenômeno se materializa tanto na Copa como em
eleições, com diferentes consequências
Você vibrou com as defesas de Vozinha no empate sem gols que a seleção de Cabo Verde arrancou da Espanha? Sorriu de satisfação ao saber que a fraca Austrália derrotou por 2 a 0 a mais robusta Turquia? Pois saiba que você não está só. O ímpeto de, em determinadas circunstâncias, torcer pelo competidor mais fraco, nos esportes, na política ou mesmo na vida, é um viés cognitivo inscrito em nossos cérebros e leva o sugestivo nome de efeito azarão (underdog effect).
O efeito azarão é especialmente intenso
quando há pouco ou nada a perder com o desfecho. Um bom exemplo de situação de
baixo custo é justamente assistir a uma partida de futebol pela TV sem ter
colocado dinheiro num bolão. Mas, se você é um frequentador de bets, espero que
tenha tido o bom senso de não
apostar que Curaçao meteria sete gols na Alemanha. Quando há riscos
reais envolvidos, não podemos nos dar ao luxo de ficar contra as probabilidades
em nome do desejo meio metafísico de reequilibrar os pratos da balança da
justiça universal.
O fenômeno é particularmente interessante na
política, já que torcer e votar são atividades até certo ponto relacionadas e,
nas democracias, candidatos que recebem mais votos são eleitos. É preciso
cuidado, porém, para não superestimar o efeito azarão. Se ele fosse ubíquo,
eleições seriam sempre vencidas por cabos Daciolos e padres Kelmons, o que,
felizmente, não é o que ocorre. É que ao underdog effect contrapõe-se um outro
viés, o efeito manada (bandwagon effect), que leva o eleitor a seguir aquilo
que acredita ser o movimento da maioria. O desejo no comando aqui é o de pertencimento
e conformidade social.
De um modo geral, o efeito manada prevalece
sobre o azarão, mas situações de crise ou de fadiga com o statu quo podem
aumentar dramaticamente as chances de candidatos que se vendem como o David que
enfrenta o Golias. É mais perigoso encantar-se com o político antissistema do que
torcer por Cabo Verde na
Copa, ainda que as duas coisas tenham as mesmas raízes psicológicas.
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Torcer para o mais fraco no esporte,por pena,eu acho que é mais comum do que na política.
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