Correio Braziliense
O futuro não está na polarização. Está na
capacidade de formar uma sociedade intelectualmente livre, capaz de debater sem
cancelar, discordar sem destruir e competir sem transformar adversários em
inimigos
Existe um erro histórico que a centro-direita
brasileira precisa ter a coragem de reconhecer. Durante décadas, enquanto a
esquerda disputava universidades, movimentos estudantis, sindicatos, produção
cultural, editoras e espaços de formação intelectual, a direita concentrou seus
esforços nas eleições, na economia e na gestão pública. A esquerda pensava em
décadas. A direita pensava em governos. E, talvez, seja impossível compreender
o Brasil de hoje sem entender essa diferença.
A política não começa na urna. Ela começa muito antes, nos lugares onde uma geração aprende a interpretar o mundo. Foi isso que Antonio Gramsci percebeu ao desenvolver o conceito de hegemonia cultural. Quem influencia a educação, a cultura e os formadores de opinião influencia a forma como a sociedade pensa. E quem influencia a forma como a sociedade pensa acaba, inevitavelmente, influenciando a política.
Essa percepção não foi exclusiva de Gramsci.
Ao longo do século 20, diferentes correntes políticas compreenderam a
importância estratégica da disputa de narrativas, da formação de lideranças e
do controle sobre os espaços de produção intelectual. Durante a Guerra Fria, a
própria KGB investiu em operações de influência e disputa de narrativas no
exterior. O que aconteceu no Brasil, porém, não foi fruto de nenhuma
conspiração. Foi algo mais simples e mais poderoso: ideias viajaram.
Intelectuais brasileiros estudaram na Europa, entraram em contato com Gramsci,
Foucault e diversas correntes críticas do pensamento ocidental, e trouxeram
essas referências para as universidades, os sindicatos, os movimentos sociais e
a burocracia estatal.
Parte da esquerda compreendeu a importância
estratégica desses espaços e investiu na formação de professores, pesquisadores,
lideranças estudantis e intelectuais. A direita acreditou que crescimento
econômico e bons governos seriam suficientes para sustentar suas ideias. Não
foram.
O resultado mais visível dessa assimetria
talvez seja a própria polarização que paralisa o país. Deixamos de discutir
produtividade, inovação, educação, competitividade, ciência e desenvolvimento
para nos consumir em guerras culturais intermináveis. A esquerda vê fascistas
em todo lugar. A direita vê comunistas em todo lugar. E o Brasil fica parado no
meio.
As redes sociais ampliaram o acesso a ideias
e criaram espaços de debate. Mas vídeos curtos e conteúdos virais não constroem
transformações duradouras. As grandes mudanças culturais da história foram
forjadas em livros, universidades, centros de pesquisa e ambientes permanentes
de produção de conhecimento.
Se a centro-direita quiser construir algo que
sobreviva ao próximo ciclo eleitoral, precisará voltar a disputar esse terreno.
Não para substituir uma hegemonia de esquerda por uma hegemonia de direita, mas
para reconstruir o pluralismo que deveria ser a essência da universidade. Uma
universidade saudável é aquela onde Gramsci e Thomas Sowell possam ser
estudados, debatidos e criticados lado a lado. Onde diferentes visões de mundo
coexistam sem que nenhuma delas seja tratada como moralmente superior às
demais. O objetivo da educação não é produzir militantes. É produzir cidadãos
capazes de pensar.
Essa questão tem consequências que vão muito
além da política. Enquanto o Brasil exporta madeira, minério e soja, os países
mais desenvolvidos nos vendem tecnologia, patentes, software e máquinas.
Exportamos matéria-prima; eles capturam o valor. Mudar essa equação exige uma
sociedade capaz de gerar conhecimento, e isso começa pela qualidade e pelo
pluralismo da nossa formação intelectual.
O futuro não está na polarização. Está na
capacidade de formar uma sociedade intelectualmente livre, capaz de debater sem
cancelar, discordar sem destruir e competir sem transformar adversários em
inimigos. A grande disputa do século 21 não será vencida por partidos. Será
vencida pelas sociedades que conseguirem formar melhor suas próximas gerações.
Essa é uma tarefa que não pertence à esquerda nem à direita. Pertence ao
Brasil.
*Eduardo Pedrosa — Deputado distrital (União Brasil)

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